Domingo, 22 de Julho de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº996
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MONITOR DA IMPRENSA > JORNALISMO INVESTIGATIVO

Uma pedra no sapato da Fifa

02/06/2015 na edição 853
Tradução: Fernanda Lizardo, edição de Leticia Nunes. Com informações de Simon Jenkins [“A hero of the Fifa corruption exposé – step forward the British press”, The Guardian, 28/5/15]; e de Roy Greenslade [“Why press freedom-loving Fifa and Qatar are so perfectly matched”, The Guardian, 27/5/15]

Andrew Jennings: este é o nome a ser guardado em meio à polêmica que envolveu o FBI e as revelações de corrupção na Fifa. O jornalista foi o primeiro a levantar premissas para as investigações que terminaram por levar à prisão de José Maria Marin (ex-presidente da CBF) e de mais sete dirigentes da federação internacional de futebol.

Jennings é escocês e já trabalhou para o Sunday Times e para a BBC. Seu envolvimento nos bastidores da Fifa se deu durante a produção do programa “Panorama”, da própria BBC, voltado a documentários investigativos. Jennings estreou na série em 2006, quando apresentou o episódio “The Beautiful Bung: a corrupção e a Copa do Mundo”, que abordava alegações de suborno dentro do órgão. Sua investigação rendeu uma série de reportagens e o episódio seguinte explorou a relação entre o comitê de ética da Fifa e o ex-atleta olímpico britânico Sebastian Coe.

Andrew Jennings

Jennings: investigações no mundo do futebol

O programa mais importante da série foi o chamado “Segredos sujos da Fifa” – exibido pela primeira vez em novembro de 2010 –, o qual investigou denúncias de corrupção contra alguns dos membros da federação e do comitê executivo que havia participado da votação para a escolha da sede da Copa do Mundo de 2018. À época, Jennings alegou que Ricardo Teixeira (presidente da CBF e do Comitê Organizador da Copa do Mundo de 2014), Nicolás Leoz (presidente da Conmebol) e Issa Hayatou (presidente da Confederação Africana de Futebol) receberam suborno da empresa ISL, responsável por comercializar os direitos de transmissão da Copa do Mundo para emissoras de televisão.

Em 2011 o Sunday Times reforçou as suspeitas levantadas por Jennings e publicou revelações de um denunciante que colocava em xeque a idoneidade da realização das Copas do Mundo na Rússia e no Catar, em 2018 e 2022, respectivamente.

Foi então que, em 2012, Michael Garcia – ex-procurador-geral dos Estados Unidos – optou por abrir um inquérito independente baseado nas revelações do Sunday Times, dando origem a uma série de investigações que resultaram na prisão de Marín e de outros sete dirigentes.

Censura deliberada

Jennings, no entanto, não parece ser o único jornalista a incomodar a Fifa no momento.

Uma equipe da BBC que cobria as obras da Copa do Mundo foi detida no Catar no dia 18 de maio de 2015. O repórter Mark Lobel estava no país a convite do governo local, que havia convocado diversos veículos para desmentir denúncias de que imigrantes estavam trabalhando sob condições deploráveis nas obras da Copa do Mundo de 2022.

construção estádio doha, catar

Trabalhadores em obra de estádio em Doha. (Foto: EPA/The Guardian)

A equipe da BBC acompanhava a visita oficial guiada pelas autoridades, porém foi detida ao buscar outras fontes de informação para a reportagem, quando abordava trabalhadores em local não indicado pelo governo. Lobel, um cinegrafista, um motorista e um tradutor foram cercados por seguranças e revistados – e durante o interrogatório descobriu-se que a equipe vinha sendo vigiada o tempo todo, inclusive tendo seus passos fotografados.

As autoridades alegaram que a prisão era uma questão de “segurança nacional” e não permitiram que a equipe fizesse nenhuma chamada telefônica. Depois de dois dias, a equipe da BBC foi liberada e então autorizada a se juntar ao tour da imprensa preparado pelo governo. Embora nenhuma acusação formal tenha sido registrada, todo o equipamento em posse dos jornalistas foi confiscado.

A BBC refutou todas as acusações do governo do Catar e justificou que a presença da rede no país não era secreta e que a equipe estava focada numa reportagem perfeitamente apropriada para o jornalismo.

A Fifa também se manifestou, dizendo que vai averiguar o que aconteceu e que “qualquer incidente relacionado a uma aparente restrição de liberdade de imprensa é motivo de preocupação e será investigado com a seriedade que merece”.

Em sua coluna para o The Guardian, o professor de jornalismo Roy Greenslade zombou da resposta da organização e disse que “a Fifa e o Catar se merecem, pois ambos compartilham da dúbia distinção de se opor ao exercício da liberdade de imprensa”.

Greenslade diz que a prisão de Lobel não foi um acidente, e sim o ápice de uma operação destinada a evitar que a BBC, bem como todos os jornalistas, se aprofundem na situação dos trabalhadores migrantes que estão construindo estádios da Copa do Mundo.

“O que une a Fifa e o Catar num matrimônio profano é a crença compartilhada de que os jornalistas devem saber qual é o seu lugar”, escreveu Greenslade. “Para a Fifa, isso significa que repórteres devem cobrir jogos de futebol e nada mais. Para o Catar, envolve restringir jornalistas visitantes a passeios sancionados onde todas as suas atividades são monitoradas”, concluiu.

Este não é o primeiro caso de censura do gênero do Catar. Uma equipe da emissora alemã TV ARD foi detida em 2013, enquanto fazia reportagem sobre as más condições de trabalho de imigrantes no país.

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