Segunda-feira, 24 de Setembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1005
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MONITOR DA IMPRENSA > LULA EM PARIS

Uma questão de imagem

Por Renate Krieger, de Paris em 18/07/2005 na edição 338

A crise política que abala o Brasil há pouco mais de 40 dias não parece ter afetado muito a imagem do presidente Lula no exterior. Na França, país que homenageia o Brasil com um ano cultural, a grande imprensa cobriu, antes de tudo, a visita diplomática que o governante brasileiro fez à capital francesa como convidado de honra do governo para as comemorações do 14 de julho, data nacional do país anfitrião. Entretanto, seguindo as exigências da ocasião e da profissão, os jornais deram boas provas do esforço de contextualização – às vezes escancaradamente parcial – da situação brasileira.


Foi do Le Monde a cobertura mais completa da crise (que os jornais acompanham desde junho) e dos três dias que Lula passou em Paris. Na quinta-feira (14/7), quando se comemorou a queda da Bastilha, o vespertino publicou uma matéria explicando as reviravoltas do escândalo do ‘mensalão’. Mas é principalmente no título e no primeiro parágrafo do artigo do brasileiro Paulo Paranaguá, editor-chefe de América Latina do jornal, que se mostra a imagem enfraquecida do presidente brasileiro, tão oposta à perspectiva normalmente idealista que alguns veículos franceses têm do ex-metalúrgico que ocupa o cargo mais importante da República tupiniquim [veja remissão abaixo para artigo ‘Para levantar a bola do presidente’, de 17/05]. Escreveu Paranaguá:




‘Um presidente brasileiro enfraquecido por dois meses de acusações de corrupção visitará Paris do dia 13 ao dia 15/7. O campeão mundial da luta contra a fome chega à França no momento em que seu prestígio foi arranhado em seu próprio país. Para Luiz Inácio Lula da Silva, as comemorações do Ano do Brasil na França e as festividades do 14 de julho não serão suficientes para fazê-lo esquecer das manchetes e reportagens que, diariamente, bombardeiam os brasileiros com novas revelações sobre o governo e o Partido dos Trabalhadores. Quando se é conhecido como o `cavaleiro branco´ sem manchas ou acusações, é difícil engolir testemunhos sobre o financiamento ilícito do PT e a compra de votos de deputados de outros partidos.’


Nesse contexto, a publicação acertou ao não tirar conclusões sobre o futuro político do país. Mesmo com a incerteza vigente, ‘ainda não se pode falar em instabilidade’ com o jogo político que ‘voltou a ficar em aberto’.


Na mesma linha do jornal de esquerda Libération, o Le Monde também destaca a amplitude das reformas sociais – cujo cumprimento não-satisfatório é assunto constante na imprensa francesa – como objeto de controvérsia. A razão para esse enfoque pode ser encontrada na declaração do novo presidente do PT, Tarso Genro, ao jornal. Além da limpeza no partido do presidente, ‘é preciso que o governo seja capaz de restabelecer o contato com suas bases sociais por meio de uma agenda positiva’.


Imagem inabalada


Numa matéria publicada na Agência Estado (14/7), o ministro brasileiro das Relações Exteriores, Celso Amorim, disse acreditar que a crise política não abala a imagem do Brasil no exterior. Observando os aplausos (com alguns sorrisos amarelos) ao presidente durante seu discurso na Sorbonne – e os gritos entusiásticos (‘Lula! Lula!’) do público presente ao show de Gilberto Gil e convidados na praça da Bastilha, no dia 13 de julho – não parece haver razão para questionar a afirmação.


Na imprensa, o diário de esquerda Libération manteve a opinião positiva sobre o líder brasileiro, mesmo que o tom das manchetes não demonstre tal simpatia. Na metade inferior de uma capa que ostentava a manchete principal sobre a impopularidade do presidente francês Jacques Chirac, o jornal publicou uma foto de Lula durante um desfile militar em agosto de 2004, no Brasil, enfeitada com o título: ‘O desafio de Lula’. O ‘olho’ dizia: ‘Convidado de honra para as comemorações nacionais, o presidente brasileiro enfrenta escândalos de corrupção que destroem seu partido político’.


Abrindo o jornal na página seis, no entanto, o leitor encontra duas provas da posição favorável ao líder brasileiro. A manchete do artigo principal, por exemplo, diz: ‘Lula, 30 meses e ainda lá’. Abaixo, o ‘olho’: ‘Apesar de um escândalo de corrupção ligado a seu partido, o presidente brasileiro, em visita a Paris, continua um homem forte’.


Segue-se um texto que pincela os principais fatos do escândalo do ‘mensalão’. Mesmo assim, alguns dados ainda costuram sutilmente uma reiteração à manchete. Um bom exemplo é a afirmação de que, segundo as últimas pesquisas, ‘cerca da metade das pessoas entrevistadas acreditam que o presidente brasileiro ignorava tudo sobre o `mensalão´ e que ele combate a corrupção’, ao contrário de dizer que outras pesquisas, como a encomendada pela Confederação Nacional dos Transportes (CNT), avaliaram que 55% dos brasileiros acreditam que o presidente sabia do que estava acontecendo. Questão de ponto de vista.


Um editorial do Libération, sob o título ‘Curso mantido’, diz que é natural Lula não ter conseguido fazer milagres:




‘Mesmo que os apoios da extrema esquerda acreditem que suas iniciativas tenham sido muito tímidas, suas ações se mostraram inteiramente de acordo com a rota com a qual ele convenceu a maioria de seu eleitorado. Sua aposta era a de conciliar dinamismo econômico e justiça social e cumprir o máximo de reformas possíveis sem questionar o quadro constitucional do Brasil. E, mesmo com uma velocidade reduzida, ele manteve o curso.’


Críticas da platéia


Apesar do tom idealista, no entanto, a análise final do Libé vem em forma de alerta:




‘Até agora, a popularidade de Lula não sofreu [com as notícias], ao contrário do seu partido. Mas a sanção pode tomar outra forma: a de uma imobilização (afinal, os pagamentos serviam para fabricar, para Lula, uma maioria que ele não possui no Congresso Nacional). (…) Os brasileiros mais pobres e desfavorecidos continuam confiando nele [Lula]. Resta-lhe cumprir o duplo dever de não trair suas esperanças.’


O diário conservador Le Figaro atacou na mesma linha. Em 13/7, publicou um texto de destaque sobre um ‘Lula enfraquecido em Brasília, mas celebrado em Paris’, no qual figurava um alerta de paralisação parecido ao do Libération:




‘Este é o verdadeiro drama do governo. A multiplicação das Comissões de inquéritos vai monopolizar a agenda do Congresso, fechando as portas para todo tipo de reforma’.


No dia 14, o Le Figaro deu mais vazão à cobertura factual da visita do presidente brasileiro. Tratou de destacar o discurso de Lula na Sorbonne, frisando que o líder brasileiro sabe do que está falando quando trata da posição e do papel do Brasil no cenário internacional.




‘Ontem, no grande salão da Sorbonne, o presidente provocou aplausos de uma assembléia de `amigos do Brasil´, entretanto entristecidos pelo que muitos já consideram o fracasso da experiência do Partido dos Trabalhadores’.


O jornal ainda destaca as críticas de Lula quando falou da reunião do G8, na Escócia, porém contextualizando a reação da platéia às palavras do presidente.




‘A audiência ri, aplaude, deixa o Grande Salão da Sorbonne animada. Os sorrisos não escondem, entretanto, certa amargura. Um participante resume, suspirando: `se ao menos ele pudesse ter o mesmo tom com seus adversários no Brasil…´ ‘.


Calor da crise


Outro raio-x dos problemas políticos enfrentados pelo Brasil foi feito quando o ex-ministro da Casa Civil, José Dirceu, renunciou ao cargo e ‘voltou à planície’. O pot-pourri de textos brasileiros publicados pelo semanário Courrier International (23/6), no entanto, atacou mais as questões relativas à decepção da qual o governo Lula vem dando provas nos seus 30 meses de mandato que os detalhes do ‘mensalão’. O ângulo deu origem ao título fatalista ‘Lula à beira da crise’.


O primeiro dos artigos, assinado pelo ex-ministro da Educação e Cultura, Cristovam Buarque, para o diário espanhol El País, afirma o sentimento de dúvida presente após dois anos e meio do governo Lula, apontando problemas estruturais nos objetivos do PT.




‘O PT nasceu entre os operários da região rica do Brasil, na indústria automotiva (…). Sua vocação inicial era ligar as reivindicações dos trabalhadores do setor moderno da economia e da classe média. Essa esquerda está mais ligada à gestão da economia que às mudanças sociais; ela se interessa prioritariamente aos professores e médicos, não aos problemas de educação e saúde’.


O problema maior, segundo Buarque, é a submissão do governo aos parâmetros econômicos antes de passar à ação social, o que cria uma ‘frustração na esquerda mundial’.


A mesma linha de raciocínio é seguida pelo deputado federal pelo PT, Chico Alencar, em artigo traduzido da revista Teoria e Debate. ‘Dois anos de governo já nos mostraram que a estabilidade econômica e financeira não influencia em nada a justiça social’, diz o texto.


Narração jornalística


Apesar da parcialidade mais evidente de veículos como o Libération em relação a Lula, as análises da atual situação política no Brasil pelos jornais franceses foram bastante contundentes. Foi a crise que serviu de pano de fundo para a cobertura, que, por outro lado, não deixou de salientar o ângulo diplomático da visita do presidente brasileiro.


Os exemplos acima mostram que houve identificação positiva com o símbolo Lula, cuja trajetória singular fascina tanto os franceses quanto a imprensa do país. Uma das principais evidências nesse sentido é que não houve crítica aberta ao líder brasileiro, ainda herói da narração jornalística.


O conceito de narração, aplicado ao texto jornalístico por estudiosos como Marc Lits, professor na Universidade belga de Louvain-la-Neuve, prevê a construção de personagens segundo uma ‘lógica do conflito’. Escreve Lits:




‘Sabe-se que toda narração tem como base um desequilíbrio inicial que deve ser resolvido. Assim, há freqüentemente um confronto entre o herói do conflito e seus oponentes’.


Na mídia francesa, a história de vida de Lula ainda parece levar a melhor sobre as notícias negativas. Adiciona-se a esse fato, também, a ajuda do redescobrimento do Brasil pelos franceses neste ano cultural – mesmo que seja para levantar o moral do país europeu, que sofre decepção após decepção e cujo povo também não anda em bons termos com o presidente. De acordo com a evolução dos escândalos no Brasil, resta saber se – e até quando – Lula continuará o mocinho dessa fita.

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Jornalista, pós-graduada em Ciências da Informação e da Comunicação pela Sorbonne (Universidade Paris IV)  

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