Terça-feira, 11 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1016
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Veja

19/08/2008 na edição 499

MÍDIA & POLÍTICA
Diogo Mainardi

Dantas, o aborrecido

‘Meu filho torceu o pé. Ainda bem. Parei de assistir ao depoimento de Daniel Dantas na CPI dos Grampos e fui pegá-lo na escola. Se meu filho torcesse o pé mais vezes, minha rotina seria infinitamente mais gratificante: mais tempo com ele e menos tempo com Daniel Dantas.

O que penso sobre Daniel Dantas é mais ou menos o que penso sobre Lula. Mas Daniel Dantas é mais aborrecido. Ele diz tudo pela metade. Depois nega. Quando foi preso, VEJA listou algumas perguntas que ele teria de responder. Imediatamente, juntei-me ao coro: ‘Fala, Dantas!’. E o que ele fez no depoimento à CPI dos Grampos? Contando com o medo e com o espantoso despreparo dos parlamentares, fez o mesmo de sempre: falou apenas pela metade. Ou metade da metade. Depois negou.

Dois anos atrás, depois de interrogá-lo para a coluna, desisti de tentar arrancar respostas de Daniel Dantas. Era uma perda de tempo. Concluí que só a lei poderia obrigá-lo a esclarecer os negócios nebulosos em que ele se metera, dos tempos de Fernando Henrique Cardoso até hoje, com a compra da Brasil Telecom pela Oi. Por isso, comemorei quando ele foi preso. Ele e Naji Nahas.

Comemorei também por um fato pessoal, menorzinho. Eu sou pessoal. Eu sou menorzinho. Nos últimos anos, fiz uma montanha de artigos sobre o assunto, denunciando a promiscuidade entre as empresas de telefonia e o lulismo. Analisei cada detalhe dos documentos que recebi. Um dia, depois de esgotar o tema, enfiei o material numa pasta e encaminhei-o ao Ministério Público Federal. Mais especificamente, ao procurador Rodrigo de Grandis. Quando Daniel Dantas e Naji Nahas foram presos, descobri que o procurador conduzia o inquérito contra os dois. Como confio inteiramente nele, sei que algumas de minhas perguntas agora podem ser respondidas.

Na CPI dos Grampos, falou-se sobre a Kroll. Acompanhei de perto essa história. Daniel Dantas espionou a Telecom Italia. A Telecom Italia reagiu espionando Daniel Dantas. A magistratura italiana está processando a turma da Telecom Italia. À magistratura brasileira cabe processar Daniel Dantas. Simples? Simples. Em seu depoimento, Daniel Dantas se apropriou malandramente de uma das teses de seus inimigos: a de que o processo italiano o inocentaria. É mentira. O Ministério Público italiano demonstrou que Daniel Dantas foi espionado, mas o que consta de todos os documentos é que ele também mandou espionar, e mandou espionar antes. Por que Daniel Dantas se defende citando o processo italiano? Porque ele sabe que ninguém pretende tocar num assunto que pode importunar o governo. O álibi perfeito.

O pé de meu filho sarou. Obrigado pelo interesse. O procurador Rodrigo de Grandis continua trabalhando. Eu sei disso. Daniel Dantas ainda é uma perda de tempo. Esgotei o que eu tinha a dizer sobre ele.’

 

MÍDIA & MEDICINA
Anna Paula Buchalla

Os doutores da internet

‘Houve um tempo em que curandeiros montavam barraquinhas nas ruas ou iam de porta em porta vendendo suas fórmulas milagrosas – de chás exóticos com poder de cura a receitas ditas infalíveis para viver mais e melhor. Seus equivalentes modernos agora têm título de doutor e se valem de consultórios virtuais na internet para atrair clientela. É um negócio próspero e que se auto-alimenta. Primeiro, eles criam ou simplesmente alardeiam novas teorias a respeito de doenças antigas. Em seguida, pregam métodos alternativos para curá-las. Por fim, vendem o tratamento em forma de pílulas, suplementos ou dietas alimentares. A fórmula do sucesso invariavelmente está no livro – ou nos vários livros – que eles próprios escrevem e promovem. E tudo isso está à disposição ali mesmo no site, à distância de um clique na lojinha virtual.

Trata-se de um fenômeno tipicamente americano. Os doutores da internet ganham fama, lucram com a venda dos produtos e, de quebra, arrastam mais gente para os seus consultórios – os reais, de tijolo e cimento, onde uma consulta não custa menos que 300 dólares. Em termos de autopromoção e estratégia de vendas, o doutor Joseph Mercola, um dos mais populares defensores da medicina alternativa na internet, é imbatível. Entre as dezenas de campanhas abraçadas por ele está a que prega que o diabetes tipo 2 é uma doença curável. A fórmula da remissão dos sintomas estaria descrita tintim por tintim no seu livro Take Control of Your Health (Assuma o Controle de Sua Saúde). Mercola não é médico. É um osteopata da região de Chicago, nos Estados Unidos. Isso quer dizer que sua abordagem da medicina é, digamos, ‘holística’, aque-le termo que é tudo e nada ao mesmo tempo. Ele afirma que seu site recebe 2 milhões de acessos mensais, o que o torna o quarto mais visitado nos Estados Unidos entre os de conteúdo médico, atrás de endereços seriíssimos como WebMD e MedicineNet.

Assim como o doutor Mercola, há dezenas de médicos-estrelas atraindo diariamente milhares de pessoas a seus consultórios on-line. As mais faiscantes são os doutores Stephen Sinatra, Andrew Weil, Christiane Northrup, William Sears e Nicholas Perricone. De vitaminas e barras de cereais a cosméticos, camisetas e até flores, anuncia-se e vende-se muita coisa nos sites deles. Os termos ‘grátis’ e ‘bônus’, aliás, são abundantes. No Mercola há 58 produtos à venda: óleo de crustáceos, spray de vitamina B12 e até um ‘summer survival kit’. O kit de sobrevivência ao verão nada mais é do que um protetor solar da marca Mercola Healthy Skin. Uma das mais requisitadas é a sua linha de suplementos cardioessentials, pílulas que melhoram a circulação, a visão, a digestão e as dores musculares. São boas para tudo, enfim. No endereço alternativo do doutor Andrew Weil, vendem-se azeite de oliva italiano e panelas, várias delas. Christiane Northrup, expert em menopausa e freqüentadora assídua do sofá da apresentadora Oprah Winfrey, anuncia em seu site proteína em pó, óleo de coco, salmão livre de mercúrio… ah, sim, e os seus cinco livros sobre questões femininas, a sua especialidade.

É a partir das brechas deixadas pela medicina convencional que os médicos alternativos vão ampliando seus negócios. Uma das principais bandeiras de Mercola é defender que a contaminação por mercúrio, presente nas vacinas, está causando uma epidemia de autismo nas crianças. Já é uma pista para pais de autistas, ávidos por uma resposta da ciência para a doença. Outro artifício utilizado por esses médicos é valer-se de uma teoria com algum fundamento científico e, a partir dela, criar uma fórmula, ainda que sem nenhum aval da ciência. Um exemplo típico: um pequeno estudo mostrou que uma espécie de cogumelo, o maitake, encontrado no Japão, pode ajudar a prevenir a síndrome metabólica. Rapidamente, o doutor-celebridade Nicholas Perricone, um dermatologista, lançou um suplemento com cápsulas da substância a ser tomadas por trinta dias. Saiu um novo estudo mostrando que existe relação entre o uso de celulares e tumores cerebrais? O doutor Mercola já pôs à venda no site o dispositivo que evita a radiação dos celulares. Na última edição de sua publicação Heart, Health & Nutrition, o cardiologista Stephen Sinatra fala de um extrato marinho pouco conhecido, que conteria um dos mais potentes antioxidantes do mundo. Ele já o encapsulou sob o nome de Seanol – e garante que em oito semanas o suplemento ataca o colesterol ruim.

Sites como esses não teriam tanto sucesso se não houvesse um público ávido por informações. A internet se tornou um enorme consultório informal. Oito em cada dez usuários da rede já acessaram endereços de informações médicas. A FDA, agência que regula a venda de remédios e alimentos dos Estados Unidos, controla a medicina on-line na medida do possível. Os produtos e suplementos à venda, até onde se sabe, são inofensivos. ‘O problema é quando os médicos vendem promessas de tratamento e cura para doenças sérias, que requerem orientação médica especializada’, diz Eleuses Paiva, ex-presidente da Associação Médica Brasileira. Aqui, os conselhos regionais de medicina fazem marcação cerrada. Os sites com assinatura de um médico dificilmente vendem produtos on-line. Introduzir no mercado substâncias sem respaldo científico resulta em punição severa ao profissional.

Praticamente ninguém, depois dos 40 anos, escapa da presbiopia, a famosa ‘vista cansada’. Com o processo de envelhecimento, a lente do olho se torna mais rígida e já não se expande ou contrai conforme a necessidade. Ler torna-se uma dificuldade. Eis que surge o ‘método ler sem óculos’, do médico americano Ray Gottlieb, cuja promessa é livrar os pacientes das lentes. Gottlieb é um optometrista que se auto-intitula inovador no treinamento de visão ‘holística’ – olhe a palavrinha aí, novamente. Ele aplica o método há mais de trinta anos e costuma dizer que é seu próprio garoto-propaganda. ‘Tenho 63 anos e nunca precisei de óculos para ler’, diz. Sua teoria: óculos de leitura ou bifocais e cirurgias não são as únicas formas de corrigir a presbiopia, como pregam os oftalmologistas. Se a vista cansada é resultado do enfraquecimento dos músculos oculares, basta exercitá-los para recuperar e rejuvenescer a visão. A proposta do doutor Gottlieb são seis minutos de exercícios oculares diários. São basicamente três os movimentos: virar os olhos para dentro, acionando os seis músculos que controlam a convergência; forçar o olho até aproximar ao máximo o foco; e, por fim, relaxar a visão, numa série de repetições. Seu método ler sem óculos está disponível em DVD ao preço de 40 dólares, ou 64 reais. O que dizem os oftalmologistas sobre ele? ‘Nem os próprios optometristas acreditam nisso’, afirma Rubens Belfort, da Universidade Federal de São Paulo. ‘Os exercícios são inócuos’, diz Francisco Max Damico, da Universidade de São Paulo.’

 

INTERNET
Thomaz Favaro

O mercado virtual de boas idéias

‘Melhorar em 10% a precisão do programa de computador que calcula a probabilidade de um consumidor gostar ou não de determinado filme baseado em suas escolhas anteriores

No século XVIII, o Parlamento inglês ofereceu uma pequena fortuna a quem inventasse uma forma que permitisse aos marinheiros calcular a longitude em alto-mar. Sir Isaac Newton tentou, mas não conseguiu. Quem levou o prêmio foi John Harrison, um desconhecido relojoeiro do interior da Inglaterra. Ele criou o primeiro cronômetro marítimo, instrumento que revolucionou a navegação. Hoje, uma dezena de sites na internet usa o mesmo princípio em benefício da inovação no mundo dos negócios. Na maioria desses sites, as empresas descrevem anonimamente um problema que não conseguem resolver e recebem propostas de solução de cientistas, técnicos e outros interessados, muitos sem nenhuma formação acadêmica. No InnoCentive, o maior site desse tipo de intercâmbio tecnológico, científico e logístico, a solução aceita recebe um prêmio que tem variado entre 1 000 e 1 milhão de dólares. O pagamento é feito depois que o solucionador transfere os direitos de propriedade sobre a invenção para a empresa.

O InnoCentive é utilizado por cinqüenta das 500 maiores companhias dos Estados Unidos. A cada dia, um novo problema é colocado no site e 40% deles encontram uma solução viável no período de seis meses. Em média, o tempo gasto na elaboração de uma proposta de solução é de 74 horas. Segundo um estudo da Universidade Harvard, que analisou as inovações feitas por intermédio do InnoCentive, quanto mais longe o problema está da área de especialização de um cientista, maiores são as chances de ele encontrar uma solução original. Isso acontece pela facilidade com que os especialistas adaptam às novas exigências as idéias já testadas e aprovadas em seu setor específico de atividade. Foi graças às sugestões de um químico americano da indústria de cimento que se achou uma maneira de impedir que o petróleo se congelasse em reservatórios no frio do Alasca. A solução: da mesma forma que é feito com o cimento, o petróleo é mantido em tanques em contínua rotação.

Mais de 3 milhões de dólares já foram pagos através do InnoCentive. Os principais solucionadores de problemas do site são os russos, os indianos e os chineses. O gaúcho Ulisses Giorgi, de 34 anos, gerente de informática de uma fábrica de computadores em Porto Alegre, foi um dos premiados. Mestre em ciências da computação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, ele ganhou 1 000 dólares. ‘Ajudei o próprio InnoCentive a melhorar a cooperação entre os cientistas no site’, diz Giorgi. Há 1 300 brasileiros cadastrados no site, que também é usado por companhias nacionais anônimas para resolver alguns de seus problemas.

Há outras maneiras de fazer a ponte entre empresas e inovadores na internet. O site americano NineSigma, criado em 2000, coloca companhias em busca de soluções específicas em contato com outras que já resolveram problemas similares. Uma marca americana de sabão em pó conseguiu melhorar seu sistema de embalagens seguindo a experiência de uma pequena fábrica de pesticidas do interior da Inglaterra. Já o YourEncore tem um banco de dados com 4 000 cientistas aposentados para trabalhos de consultoria. Há também empresas que divulgam seus problemas em seus próprios sites. A Netflix, uma locadora virtual de filmes dos Estados Unidos, oferece 1 milhão de dólares a quem melhorar em 10% o programa de computador que prevê se um cliente vai gostar de um filme.

Investir em inovação é um processo caro, que exige a contratação de pessoal qualificado e tem retorno incerto. Os sites reduzem esses custos porque levam centenas de inovadores a se dedicar a um mesmo problema – mas apenas o vencedor recebe pagamento. No InnoCentive, cada desafio é analisado, em média, por 240 interessados e recebe dez soluções. A eficácia dessas propostas é inversamente proporcional à complexidade do problema apresentado. ‘Soluções criativas podem ajudar a resolver problemas pontuais, mas não substituem os investimentos em departamentos de pesquisa e desenvolvimento, fundamentais para a criação de novos produtos’, diz João Alberto de Negri, pesquisador do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). Uma medida do retorno financeiro da inovação: as empresas que investem em pesquisa no Brasil têm produtividade sete vezes maior que a média e conseguem preços 30% mais altos para seus produtos.’

 

TELEVISÃO
Marcelo Marthe

O retorno de Jedi

‘Atualmente, um projeto sigiloso (ou quase…) é tema de reuniões e trocas de e-mails entre os executivos do SBT de Silvio Santos. Invenção de Daniela Beyruti, filha do apresentador e uma das administradoras da emissora, ele já foi batizado de ‘O Retorno de Jedi’. Trata-se de uma referência ao filme da série Guerra nas Estrelas, do cineasta George Lucas. O ‘Jedi’ em questão é o próprio Silvio. Assim como Mestre Yoda, o ser verde que guia os cavaleiros do bem na luta contra o vilão Darth Vader, o patrão é o ‘sábio’ que lidera o contra-ataque do SBT à Record. Embrião de uma campanha de marketing, a iniciativa diz algo sobre o estado de espírito na emissora. Depois de dois anos de sangria desatada no ibope, eis que o SBT impôs alguns reveses à concorrente. Com a ressurreição do Programa Silvio Santos, em junho, o apresentador passou a comandar pessoalmente a reação ao crescimento da Record nos domingos. Combinando velhas gincanas a novidades como as participações da garota Maisa (a apresentadora maluquinha do Sábado Animado), a atração recuperou a audiência da emissora no horário – e, de quebra, deu novo fôlego ao até então moribundo Domingo Legal, de Gugu Liberato. A outra tacada de Silvio é a reprise da novela Pantanal (1990). O folhetim da extinta Manchete estreou em junho, de surpresa, e não raro bate a nova aposta da teledramaturgia da Record, Chamas da Vida. O SBT comemora ainda o bom desempenho de sua programação infantil, que inferniza a vida dos bispos nas manhãs.

Graças a essas notícias positivas – as primeiras em muito tempo para o SBT -, o humor de Silvio anda que é uma maravilha. E sua filha e braço-direito aproveitou o ensejo para lançar a operação ‘O Retorno de Jedi’. Daniela contratou um marqueteiro, Edson Giusti (que já cuidou da imagem da apresentadora Angélica), para tocar o plano. Sua primeira providência será investir no ‘endomarketing’, jargão que designa a propaganda interna para motivar os funcionários de uma empresa. Para reverter o abatimento de seus empregados com a perda do segundo lugar de audiência para a Record, o SBT cogita distribuir a eles adesivos em que se lê: ‘Sou vice’.

Desses novos lances na guerra entre as duas redes, fica patente que são relativas as conquistas recentes da Record no ibope. Com manobras pífias (suas armas, afinal, são só velharias), Silvio Santos abalou uma emissora que investirá 300 milhões de reais neste ano só nas novelas e no jornalismo. Há que se reconhecer, contudo, que a Record ainda tem um bem que falta ao SBT: um plano de longo prazo. Na semana passada, por exemplo, anunciou a compra dos direitos dos Jogos Pan-Americanos de 2011 por 10 milhões de dólares, pegando até a Globo de surpresa. O SBT, por enquanto, depende só dos golpes de um Jedi.’

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Folha de S. Paulo – 2

O Estado de S. Paulo – 1

O Estado de S. Paulo – 2

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