Sexta-feira, 23 de Fevereiro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº975

ENTRE ASPAS > FIM DE SEMANA, 29 E 30/11

Veja

02/12/2008 na edição 514

TELEVISÃO
Isabela Boscov

Em plena forma

‘Todo produtor americano de TV que lança uma série sabe que, caso consiga permanecer no ar, encontrará no futuro uma etapa de angústia e perplexidade: o momento em que seu programa se tornar ‘maduro’. Ou seja, em que terá deixado de produzir notícias; em que suas inovações terão sido absorvidas por outras séries; em que seus atores serão prata da casa, e não mais revelações excitantes; e em que o desgaste vai começar a rondar seus roteiros – aquela fase quase inevitável em que o elenco e a equipe criativa sentem que tudo já foi dito e feito e só resta a repetição. O termo-chave aí, porém, é quase. O ex-publicitário Dick Wolf, de 61 anos, é desde a década de 90 um megaprodutor pela agilidade com que dribla esse ‘quase’ e pela argúcia com que encara a repetição: não como uma barreira criativa, mas sim como o que faz girar sua popular, longeva e ainda surpreendente franquia Law & Order. O programa original, que chega agora à sua 19ª temporada nos Estados Unidos e estréia aqui em janeiro, já foi líder, amargou baixas no ibope, andou moribundo – e se reergueu com valentia. Terminou a estação passada com um aumento de 19% na média de audiência, colossal no ambiente de competição cruel da TV americana. Law & Order: Criminal Intent, que já foi o mais festejado dos ramos da franquia, teve de sobreviver à exaustão de seu astro, Vincent D’Onofrio, e ao remédio dado a ela – a alternância de episódios encabeçados por D’Onofrio com histórias protagonizadas pelo detetive Mike Logan (Chris Noth), personagem que fora ‘aposentado’ do Law & Order original. Chegou-se até a anunciar o cancelamento de Criminal Intent. Mas ele acaba de entrar em sua oitava temporada com um acréscimo de peso – um detetive interpretado por Jeff Goldblum. Onde o sucesso da abordagem metódica e racional de Wolf fica mais claro, entretanto, é em Law & Order: Special Victims Unit (ou apenas SVU). Sua décima temporada, há três semanas no ar no Brasil pelo canal Universal, mostra que é possível, sim, uma série se tornar madura sem envelhecer.

SVU se passa no universo mais fechado de toda a marca Law & Order: o de uma delegacia especializada em crimes sexuais. De cada três episódios, dois em geral tratam de estupro ou de abuso de menores. O que poderia causar monotonia terminou por propiciar latitude. Desde a terceira temporada, Wolf e seus roteiristas passaram a experimentar com estruturas mais livres, até criar uma fórmula para o imprevisível – histórias que, de seu ponto de partida, se encaminham por rumos que os detetives (e o público) seriam incapazes de antever. O primeiro episódio da nova temporada é exemplar desse estilo: a investigação sobre o molestamento de um menino revela que a acusação é falsa – mas, numa guinada, conduz à identificação de um estuprador que havia anos fazia vítimas na região de Nova York. Em outros casos, o inesperado vem da forma narrativa, como num episódio antológico em que a detetive Olivia Benson (Mariska Hargitay) tinha de manter uma criança ao telefone, durante horas a fio, até que se descobrisse de onde vinha a chamada. Sempre, seja qual for o enredo, a carga emocional é pesada, pela violência física e psicológica dos crimes investigados e pela ligação profunda, mas precariamente equilibrada, entre Olivia e seu parceiro, o detetive Elliot Stabler (Christopher Meloni): Olivia, ela própria fruto de um estupro, é a voz da razão, enquanto Elliot, pai de cinco filhos, não sabe pôr de lado os sentimentos pessoais. Como num casamento (até hoje não consumado, para aflição dos fãs), o relacionamento da dupla atravessa altos e baixos, tensões e distensões, provando-se uma fonte inesgotável de interesse.

Não há dúvida de que Olivia e Elliot são especiais para Wolf – tanto que levam os nomes de dois de seus quatro filhos. Por causa deles, também, ele teve de aprender algumas lições duras, mas que muito lhe têm servido. Nos anos 90, quando os salários da TV atingiam níveis estratosféricos, o produtor foi o primeiro a preconizar abertamente que nada é mais fácil de substituir numa série do que os seus atores; basta que eles, e seus personagens, sejam bons, e toda troca é viável, dizia Wolf, em parte com base na experiência e de outra parte motivado por seu notório pão-durismo quando o assunto é cachê. Três anos atrás, numa duríssima negociação, ele teve de engolir seu credo: Mariska e Meloni ganham hoje 350 000 dólares por episódio (o que faz dela uma das mais bem pagas atrizes de TV) por causa da força singular de seu trabalho. Sem eles, Wolf admitiu, SVU morreria. Somado a dois fiascos que muito lhe doe-ram, de uma releitura da série Dragnet e de um filhote natimorto de Law & Order: Trial by Jury, esse aprendizado tem irrigado de forma vigorosa a franquia. Criminal Intent ganhou sobrevida porque se diagnosticou que Mike Logan não era um desafio irritante o bastante para o vaidoso personagem de D’Onofrio – tarefa que Jeff Goldblum, com seu dom para interpretar ególatras, deve cumprir muito bem. A audiência do Law & Order original subiu com a entrada de Jeremy Sisto e Anthony Anderson, dois intérpretes jovens e cheios de apetite, o que balançou o barco do elenco. E SVU mantém sua liderança na marca por ter entendido que certos atores são mesmo insubstituíveis. Nada, enfim, como chegar à maturidade.

MUITA LEI E MUITA ORDEM

Uma breve história da superfranquia bolada pelo produtor Dick Wolf

Law & Order

Quando começou: 1990

Do que trata: a cada episódio, de uma nova investigação policial e do seu destino quando levada a julgamento

Como vai: agora na 19ª temporada, a série fundadora da franquia não tem os índices de audiência de outrora. Mas acaba de ganhar novo fôlego com a adição ao seu time de protagonistas dos atores Jeremy Sisto (antes de Six Feet Under) e Anthony Anderson (The Shield)

Law & Order: Special Victims Unit

Quando começou: 1999

Do que trata: da investigação e do julgamento de crimes de natureza sexual

Como vai: de início um patinho feio, há coisa de cinco anos a série protagonizada pelos detetives Olivia Benson e Elliot Stabler (Mariska Hargitay e Christopher Meloni) virou o jogo. É hoje a marca L&O preferida dos críticos e a única que continua entre os campeões americanos de audiência

Law & Order: Criminal Intent

Quando começou: 2001

Do que trata: da investigação de crimes cujo culpado é em geral conhecido – só falta prová-lo

Como vai: seu astro é o excêntrico detetive interpretado por Vincent D’Onofrio. Mas, por causa da exaustão física e psicológica, desde a quinta temporada ele alterna a liderança dos episódios com outros protagonistas – primeiro com o detetive Mike Logan (Chris Noth), vindo do Law & Order original, e agora, na oitava temporada, com Jeff Goldblum

Law & Order: Trial by Jury

Quanto durou: uma temporada, em 2005

Do que tratava: era centrada tão-somente nos procedimentos judiciais de casos policiais, do indiciamento dos suspeitos à preparação da acusação e da defesa

O que aconteceu: a série estrelada pela ótima atriz Bebe Neuwirth foi a prova desconcertante de que o produtor Dick Wolf vez por outra é capaz de calcular mal a sede da platéia por sua fórmula’

 

 

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