Quarta-feira, 22 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

ENTRE ASPAS > INTERNACIONAL

Vida de jornalista russa vira documentário

22/03/2011 na edição 634

Folha de S. Paulo, 19/3

Marina Darmaros

Vida de jornalista inspira retrato da Rússia

Foi quase ao acaso que Marina Goldovskaya, cineasta russa homenageada pelo festival É Tudo Verdade deste ano, começou a filmar o dia a dia de Anna Politkovskaya, a jornalista mais conhecida da Rússia.

Rodando o documentário ‘Um Gosto de Liberdade’ (1991), sobre as mudanças na União Soviética, Goldovskaya resolveu retratar três famílias que refletiam aquelas transformações.

Uma delas era a de Aleksandr Politkovsky, seu aluno e marido da então estudante de jornalismo Politkovskaya, assassinada em 2006. Assim, deu início a um arquivo de imagens que cobre quase 20 anos de sua vida pessoal.

‘O Gosto Amargo da Liberdade’, que terá estreia mundial no festival brasileiro, traça um panorama da história da jovem Federação Russa. Leia a seguir trechos da entrevista da diretora à Folha.

Folha – Como começou sua ligação com o É Tudo Verdade?

Marina Goldovskaya – Conheci Amir Labaki no festival de Amsterdã há cerca de 15 anos. Ele viu ‘Casa da Rua Arbat’ e amou. No primeiro ano de existência do festival, fui ao evento e voltei mais outras duas ou três vezes.

Seus filmes continuam muito russos, apesar de você morar nos EUA há anos…

Há 20 anos, fui lecionar na Universidade de San Diego e lá conheci meu marido. Acabei me tornando professora do da Universidade da Califórnia, mas continuei a ir à Rússia todo ano. Sinto que conheço a Rússia muito bem. Não apenas a conheço, sinto-a: é meu país.

Você já tinha feito um filme com Politkovskaya. Como é o novo longa?

Ela era só uma estudante de jornalismo e dona de casa quando comecei a filmá-la, não estava trabalhando porque os filhos eram muito pequenos, mas era uma pessoa incrível. Não sentia isso, mas meu filme tornava-se cada vez mais sobre ela.

Ainda existe o sentimento de que ela era essa mulher de ferro, interessada apenas em guerras, viajando e lutando, mas conheci uma Politkovskaya completamente diferente. Era normal, carismática e muito afetuosa com seus amigos e filhos. Reportei esse lado dela mais que qualquer outra coisa.

Você acha que teve sorte de tê-la filmado tanto tempo, de ter escolhido seu marido e não outro estudante quando fez o primeiro filme sobre Politkovskaya?

Fui muito sortuda, sim. Ninguém poderia adivinhar o que viria, mas, então, quando aconteceu, seus filhos me telefonaram perguntando se eu faria um novo filme sobre ela. Precisava de tempo para me restabelecer, porque estava devastada, e posterguei por alguns anos.

Você está feliz por não estar lá em tempos como estes?

Não, ainda volto o tempo todo. É excitante passar por uma série de mudanças, e nem todo mundo vive um período tão interessante na vida. Claro que não é bom para jornalistas, mas tentamos fazer nosso trabalho.

Meu filme também é sobre o que nós vivemos e o quanto a coragem, a decisão e a decência são importantes para um jornalista.

Você se sentiu ameaçada ou teve medo enquanto fazia as filmagens para o novo longa?

Não, nunca sinto medo quando estou em Moscou. Sou feliz de ainda poder ir à Rússia e espero poder continuar a fazê-lo por mais 30 anos, até estar completamente incapacitada.

 

Folha de S. Paulo, 19/3

Alexandre Agabiti Fernandez

Obra traça retrato rico da coragem de Anna Politkovskaya

A jornalista russa Anna Politkovskaya foi assassinada em outubro de 2006 por denunciar as atrocidades da guerra da Chechênia.

Dias depois, o então presidente russo, Vladimir Putin, impiedosamente criticado por ela, disse que o crime, ‘terrível’, ‘não ficaria sem punição’. Segue sem solução até hoje.

Politkovskaya foi objeto de alguns documentários após sua morte, mas nenhum deles oferece um retrato tão rico dela quanto ‘O Gosto Amargo da Liberdade’, da russa Marina Goldovskaya, que terá retrospectiva no É Tudo Verdade.

Uma das mais importantes documentaristas de seu país das últimas décadas, Goldovskaya fez filmes fundamentais para compreender a decomposição da União Soviética e as transformações que se seguiram.

A cineasta conhecia Politkovskaya havia décadas. O filme celebra a coragem da jornalista, que dizia se sentir responsável pelo que seu país fazia na Chechênia, mas não cai na hagiografia.

Alguns entrevistados chegam a criticar seu ‘emocionalismo’, que comprometeria sua objetividade. Mas não há como negar que ela via o que outros não queriam ver, incomodando Putin e boa parte da população russa.

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Folha de S. Paulo, 20/3

Marina Darmaros

Moscou cria TV a cabo voltada para muçulmanos

Um canal estatal de TV a cabo destinado a muçulmanos russos é a principal aposta do Kremlin para cativar aproximadamente 20 milhões de cidadãos do país.

Primeiro canal muçulmano nacional, concorrente da TV tchetchena Put (‘caminho’), apoia-se na parcela moderada dos muçulmanos.

Segundo o presidente da associação nacional de telecomunicações, Eduardo Sagalaeva, a criação do novo veículo de comunicação teria custado ao governo de US$ 1,5 milhão a US$ 4 milhões.

O canal, que foi ao ar em fevereiro, é parte de uma série de investimentos para conquistar esse setor popular. Eles variam desde a criação de canais pela internet até o financiamento de universidades muçulmanas.

‘Acreditamos na necessidade de cultivar um espírito de tolerância em relação aos representantes de outras crenças’, afirmou o mufti (líder espiritual muçulmano) Ravil Gaynutdin à agência RIA Novosti.

A criação do canal contraria o discutido anúncio do presidente Dimitri Medvedev de privatização da mídia estatal. Ainda em dezembro de 2010, seu conselheiro Arkadi Dvorkovitch declarou que a manutenção da mídia estatal ‘é desperdício de dinheiro’.

 

Folha de S. Paulo, 20/3

Marina Darmaros

Separatistas tchetchenos usam site como porta-voz

Apesar da perseguição russa, um site vem atuando como o principal porta-voz da guerrilha separatista tchetchena. Ele publica vídeos de líderes extremistas e mensagens de caráter religioso em cinco línguas.

Quase três semanas após o ataque suicida que, em 24 de janeiro, deixou 36 mortos e 180 feridos num aeroporto em Moscou, um dos líderes guerrilheiros tchetchenos, Doku Umarov, reivindicou a autoria do atentado num vídeo postado no site Kavkaz center.com.

Proclamando-se um ‘centro de análise dos fatos’, o Kavkazcenter poderia ser o site de uma agência de notícias comum -não fosse o fato de que é controlado pela maior militância extremista do norte do Cáucaso.

‘Não só Umarov, mas o chefe ideológico da ala islâmica, Movladi Udugov, são os oponentes da Rússia na mesma medida em que Osama bin Laden é ou era o de George W. Bush’, disse o jornalista Tony Wood, autor de um livro independente sobre as guerras da Tchetchênia.

Udugov é um dos idealizadores da criação de um Estado islâmico no norte do Cáucaso e fundou o site na década de 90.

A origem do conflito na região remonta à época czarista, quando áreas predominantemente muçulmanas foram anexadas à Rússia, segundo o imã Syed Soharqwardy, da ONG Muçulmanos contra o Terrorismo.

Bloqueado pelos servidores russos a mando do governo, seu acesso ainda é possível no exterior e também dentro do país.

SITES-ESPELHO

Para burlar a censura, seus operadores usam sites-espelho -programas que copiam o conteúdo original do site e o hospedam em vários servidores diferentes.

O Kremlin não só tentou impedir o funcionamento do site no país como pressionou outras nações a bani-lo de seus servidores de internet.

Como resultado, os realizadores da página viram-se obrigados a mudar de servidor diversas vezes.

O Kavkazcenter já esteve hospedado nos Estados Unidos, no Reino Unido, na Malásia, na Estônia, na Suécia e na Finlândia.

Da Lituânia, foi expulso logo após a publicação de uma série de fotografias das preparações do ataque à escola de Beslan.

Contudo o site tem cinco opções de línguas (russo, ucraniano, árabe, turco e inglês) e não inclui o tchetcheno -o que, para os russos, indica que ele não representa a população do Cáucaso.

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