Quarta-feira, 17 de Outubro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1009
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EDIçãO ESPECIAL: DOSSIê MURDOCH >

Yes, não temos Murdochs

Por Luciano Martins Costa em 19/07/2011 na edição 651

Há um aspecto pouco discutido no escândalo que coloca a nu os métodos do aventureiro Rupert Murdoch na condução dos seus negócios de comunicação: as relações nebulosas entre autoridades e a imprensa na Grã-Bretanha. Tudo indica, pelo noticiário dos últimos dias, que o empresário detinha alguns segredos de políticos britânicos e até mesmo de dirigentes da Scotland Yard, e não se sabe se os grampos criaram essa relação de cumplicidade ou se a relação delinquencial produziu os grampos.

O que se escancara diante da opinião pública é o fato de que os poderes do australiano se haviam infiltrado profundamente na estrutura do estado, colocando sob risco a capacidade de governantes e autoridades policiais de tomar decisões com independência. É de se perguntar, por exemplo, quanto da arrogância da polícia londrina, ao tratar com descaso o assassinato do brasileiro Jean Charles, foi respaldado pela garantia dos tabloides de que as autoridades não seriam colocadas contra a parede. Ou, avançando na especulação, é perfeitamente adequado desconfiar que as informações obtidas com as gravações ilegais de conversas de familiares da vítima foram repassadas às autoridades.

Suspeitas

A súbita e compungida transformação por que passam Murdoch e seus executivos, expondo-se em pedidos de desculpas e promessas de compensação à família da menina Milly Dowler, sequestrada e morta em 2002, deve levantar outras suspeitas. Ninguém passa assim, de um polo a outro do comportamento social, da arrogância absoluta à humildade budista, sem estar tentando evitar uma perda maior. Murdoch é o típico empresário que se move pelos cânones da relação custo-benefício, entendendo-se sempre o benefício dele e o custo da sociedade. Convém refletir qual o tamanho do custo que ele estaria tentando evitar ao se dedicar a apagar o fogo menor e menos relevante politicamente da delinquência que atingiu a menina Milly.

Não é difícil adivinhar que seu interesse maior é manter ocultos os detalhes de sua associação, ou seja lá como possa ser qualificada essa relação apenas suspeitada, com o primeiro-ministro David Cameron. É certamente nesse terreno que se escondem as peças mais putrefatas da história recentemente desvelada desse jornalismo de quinta categoria que marca a expansão de seus negócios de comunicação. A partir daí, pode-se também avançar em outras hipóteses: que artifícios usam seus executivos em outras praças, mais especificamente nos Estados Unidos, onde a rede Fox se celebrizou por fazer o jogo das forças políticas mais conservadoras – contaminou-se até o pescoço com a propaganda de guerra do governo Bush e sustenta as campanhas mais reacionárias contra os imigrantes?

Finalmente, conviria dar uma olhada para dentro de casa. Haveria, por aqui, exemplos desse tipo de associação? Alguma emissora de televisão ou empresa de jornalismo teria, acaso, estabelecido laços de família – ainda que de família paralela – com algum prócer da República? Que espécie de favores haveriam de brotar de associações desse tipo? Mas não temos Murdochs. Ah, bom. O mais próximo de um Murdoch que tivemos por aqui chamava-se Assis Chateaubriand e já se foi há muitos anos. Ainda bem que nossa imprensa marrom não se compara, em termos de escatologia, ao que se convenciona chamar de tabloide em outras plagas. Ufa!

***

[Luciano Martins Costa é jornalista e apresentador do programa Observatório da Imprensa no Rádio]

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