Quarta-feira, 22 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

MOSAICO > LIBERDADE DE EXPRESSÃO

Notas sobre a sociedade da soberania e do controle

Por Luís Eustáquio Soares em 14/08/2012 na edição 707

1

Desde as grandes civilizações, temos vivido a disputa de três formas de epistemologias ou saberes: a estético-expressiva, a cognitivo-instrumental e a moral-prática.

2

O conhecimento estético-expressivo está relacionado à linguagem, entendida como sistema semiótico, razão pela qual envolve um mundo de formas semióticas de expressão: linguagem verbal, escrita, icônica, fílmica, musical, televisiva, poética, ficcional e um sem fim de possibilidades.

3

O conhecimento cognitivo-instrumental, por sua vez, está relacionado com o mundo técnico-científico e, portanto, com a transformação dos recursos da natureza em recursos de segunda natureza, porque feitos pelo homem, como tudo que se encontra em nosso redor: mesas, livros, computadores, energias, ladrilhos, casas, prédios, carros, máquinas, asfaltos; o humano mundo.

4

O conhecimento moral-prático é ao mesmo tempo estético-expressivo e cognitivo-instrumental, sendo o atributo do pobre, porque este é o que produz saber marcado por uma moral prática, isto é, moral prática porque vinculada à luta pela sobrevivência imediata, num contexto em que a produção de saber está diretamente relacionada com a sobrevivência cotidiana, razão por que o conhecimento moral-prático é antes de tudo o saber sobre o cotidiano, no cotidiano, produzido cotidianamente pelos homens e mulheres cotidianos, comuns.

5

Durante boa parte das grandes civilizações pré-modernas, a escrita tornou-se a forma de conhecimento estético-expressivo de maior prestígio, porque estava sob o controle restrito da aristocracia e do clero, castas que utilizavam o conhecimento estético-expressivo ligado à escrita para, via escrita alfabética, escrevem-se a si mesmas, epicamente, liricamente, dramaticamente, como centros soberanos do poder terrestre.

6

Poderíamos dizer que a escrita alfabética, como epicentro do conhecimento estético-expressivo de maior prestígio, era a Bíblia por ela mesma, sopro gráfico-sonoro de Deus, porque sua posse e seu uso estavam vinculados ao projeto de justificar o platônico mundo das ideias divinas da aristocracia e do clero, duas castas que a si mesmas se escreviam como a encarnação de Deus, na Terra, não sendo circunstancial, sob esse ponto de vista, que caligrafia signifique escrita bela, cabendo ao calígrafo, com a própria mão, desenhar caprichosamente, letra a letra, a escrita bela daqueles que se consideravam os mais belos, superiores, como se fosse o próprio rosto divino do aristocrata e do clero.

7

O advento da modernidade, a partir do século 16, transformou o conhecimento cognitivo-instrumental no seu principal motor, pela simples razão de que é com ele e através dele que a modernidade produz o mundo moderno, através da invenção de novas tecnologias bélicas, agrárias, urbanas, de transporte, de comunicação, como, no caso desta última, da invenção da tipografia, por Gutenberg, o qual, por volta de 1439, desempregou os calígrafos medievais através da criação de uma máquina que agitava tipos móveis nos quais as letras estavam inscritas e eram infinitamente reproduzidas por tintas num suporte de papel, razão por que, doravante, o rosto divino do aristocrata e do clero deixam de ser belos, caligráficos, em face da homogeneidade das letras no tipo móvel, sempre iguais a elas mesmas.

8

Diferentemente das civilizações pré-modernas, a moderna, tal como ocorreu com a invenção da impressão tipográfica, aumenta a capacidade de reproduzir não apelas letras, mas também alimentos, mas também guerras, mas também transportes, mas também fábricas, mas também cidades, mas também mercadorias, ocupando o próprio lugar de Deus, pois que sua força produtiva, através do auxílio do conhecimento cognitivo-instrumental, era e é também força para produzir uma segunda natureza, não mais divina, mas antropocêntrica, razão pela qual a modernidade é laica e destrona de vez o mundo religioso da aristocracia e do clero.

9

O domínio do conhecimento cognitivo-instrumental passou a ser, no decorrer da modernidade, o poder de produzir segundas naturezas ou o mundo segundo a natureza do poder do capital colonizador, razão pela qual, sob o domínio do sistema capitalista, o conhecimento cognitivo-instrumental, na modernidade, colonizou tanto o conhecimento estético-expressivo como o conhecimento moral-prático.

10

Uma forma possível de sair do imbróglio imposto pela modernidade capitalista, que tomou para si o conhecimento cognitivo-instrumental, através de produção de tecnologias de dominação, estava (está) implicada com a união do conhecimento estético expressivo, vinculado à escrita alfabética, com o conhecimento moral-prático, a fim de acumularem força para tomarem para si o conhecimento cognitivo-instrumental da burguesia dos países centrais do Ocidente – o que chamamos usualmente de transferência de tecnologia.

11

O que a bem pensante crítica literária brasileira jamais percebeu, sob o ponto de vista da relação entre os saberes, foi que o principal desafio do Manifesto Antropófago de 1928, do poeta modernista, Oswald de Andrade, era inseparável do objetivo de propor que o conhecimento moral-prático brasileiro, através de seu próprio povo bárbaro, devorasse o conhecimento cognitivo-instrumental produzido pelos colonizadores europeus, a fim de, tomando-o para si, construir uma nova civilização tropical, tal que, o sul do planeta, como o lugar por excelência do conhecimento moral-prático, devorasse antropofagicamente o norte do conhecimento cognitivo-instrumental e estético-expressivo, com suas tecnologias de dominação técnicas e gráficas.

12

Obviamente, a modernidade capitalista tem sido esta em que o conhecimento cognitivo-instrumental, ocupando o epicentro de tudo, submete tanto o conhecimento estético-expressivo como o moral-prático.

13

De qualquer forma, com o decaimento do clero e da aristocracia, a própria ideia de Deus também decai. A modernidade é, pois, laica, no seu sentido mais forte; é o único período da história humana que tem consciência de sua historicidade, sem Deus, num contexto em que o conhecimento cognitivo-instrumental, o estético-expressivo e o moral-prático lutam para conquistar espaços.

14

Essa abertura laica da modernidade-mundo agitou o planeta, portanto, no horizonte das três epistemologias: a cognitivo-instrumental, a estético-expressiva e a moral-prática. A história da modernidade é, pois, inseparável da relação de força ou de cooperação entre essas três epistemologias. Sob esse ponto de vista, um desafio presente, portanto, era este: qual caminho que o conhecimento estético-expressivo, sob o nome da escrita alfabética, tomará, no momento em que perde espaço para o conhecimento cognitivo-instrumental? Seguirá subserviente ao conhecimento cognitivo-instrumental, permitindo-se se colonizar por ele? Articulará um intercâmbio solidário e revolucionário com o conhecimento moral-prático? Ou, por outro lado, produzirá a si mesmo de forma isolada, através de uma experimentação que é na verdade autoexperimentação?

15

Sob o ponto de vista do dominó do domínio, o conhecimento cognitivo-instrumental submeteu os demais, o estético-expressivo e o moral-prático, pelo menos até a primeira metade do século passado, através da produção de instituições disciplinares, que são as instituições de confinamento, como a família, a escola, as segmentações dos saberes, sob a forma de disciplinas ou campos epistemológicos isolados; a Igreja, o exército e mesmo, no limite, o indivíduo e sua identidade.

16

O papel dessas instituições disciplinares era o de controlar e moldar os corpos (Foucault chamou isso de biopoder) para torná-los aptos a produzir a modernidade capitalista. Mas que reprimir os corpos, a questão de base, sob o ponto de vista do biopoder moderno e cognitivo-instrumental, era: como disciplinar e submeter o conhecimento estético-expressivo e o moral-prático? Como os corpos desses saberes devem agir e viver a fim de que a mais-valia mundial do capital se faça onipresente?

17

É por isso que essa primeira modernidade ou primeiro modernismo produziram resistência e alternativas contradisciplinares e tinham como principal desafio, portanto, liberar os corpos, o que significa dizer, também, liberar o conhecimento estético-expressivo e o moral-prático através da liberação do corpo do negro, da mulher, das sexualidades não heterossexuais, dos colonizados, dos operários e assim por diante – esse foi o cenário da luta libertária na primeira modernidade, sob domínio produtivo e cognitivo-instrumental da segunda revolução industrial e, por consequência, da Inglaterra.

18

É aqui ou aí que surgem os Estados Unidos. Os americanos foram gradativamente deslocando o centro gravitacional do imperialismo para eles mesmos porque produziram um país usando estrategicamente as forças “liberadas” do poder disciplinar – reside aí a ideia de liberdade, de democracia, que os estados unidos até hoje vendem para o mundo, na suposição de que são o lugar em que o conhecimento estético-expressivo passa para as mãos do conhecimento moral-prático, sob a proteção das mais sofisticadas tecnologias produzidas pelo conhecimento cognitivo-instrumental moderno.

19

Terem, os Estados Unidos, no entanto, produzido um país a partir das forças de liberação da primeira modernidade não significa liberdade e democracia de fato. Significa simplesmente que essas forças foram agenciadas tendo em vista o novo cenário do mundo. Aqui começamos a entrar no segundo período da modernidade ou simplesmente na pós-modernidade. Os Estados Unidos são o país da pós-modernidade. Emergiram como potência porque agenciaram as forças libertárias da primeira modernidade, as do conhecimento estético-expressivo e moral-prático.

20

A esse agenciamento das forças libertárias Deleuze e Guattari deram o nome de axiomática. Axiomática, nesse sentido, significa um sistema de aparência ou algo que é sem ser. Explico melhor. Nova York é uma axiomática mundial das minorias do planeta, sob o ponto de vista das lutas libertárias da primeira modernidade. Assim, se na primeira modernidade, a liberação da disciplina estava relacionada com a liberdade não apenas econômica, mas também no campo dos direitos civis – direito de liberdade de expressão intelectual, corporal, racial, de gênero –, então Nova York se tornou uma axiomática dessas liberdades antes de tudo ligadas ao campo dos direitos civis.

21

Axiomática é algo sem ser porque simplesmente é um sistema de aparência, um teatro, uma publicidade da coisa, mas que vive de massacrar a coisa. É como se produzíssemos uma ilha da fantasia para tal ou tal projeto de liberação dos corpos. Os Estados Unidos e a pós-modernidade vivem de axiomática, isto é, de teatro da liberação humana, subjugando o conhecimento estético-expressivo e moral-prático pelo conhecimento cognitivo-instrumental.

22

Obama, por exemplo, é uma axiomática ambulante. Ele é axiomática ou o teatro de um negro no poder e sua existência diz respeito a um sistema de aparência em que o que está em jogo é produzir a aparência de que o negro foi liberado – no “democrático” Estados Unidos da América, sem considerar, obviamente o fato de que a gestão dele é péssima para os negros americanos e sobretudo para africanos – mais pobreza, abandono e guerras para povos negros do mundo.

23

Eis aí o papel estratégico da axiomática: a produção de um sistema de aparência tendo em vista as lutas libertárias da primeira modernidade de tal sorte a produzir o efeito publicitário de que elas existem e se realizam em determinados lugares – ditos democráticos – e não em outros – considerados autoritários, despóticos. Em nome desse jogo axiomático, as guerras hoje são travadas precisamente contra aqueles que vivem fora da proteção das ilhas das fantasias axiomáticas. Contra, portanto, o conhecimento moral-prático dos povos do mundo.

24

É exatamente na encruzilhada de um mundo que apenas é livre e democrático axiomaticamente, como publicidade, propaganda de pasta de dente, que a pós-modernidade americana produz um retorno vertical para o mundo pré-moderno, de tal sorte que é tanto mais pós-moderna quanto mais pré-moderna se faz de fato, embora viva de vender a imagem de que é o período em que os corpos oprimidos estão finalmente liberados para se exprimirem, integralmente.

25

Se o período pré-moderno é aquele em que o conhecimento estético-expressivo, sob o ponto de vista da escrita alfabética, expressava o rosto caligráfico da aristocracia e do clero, como divinas castas de sangue azul, massacrando impiedosamente o conhecimento moral-prático, o período pós-moderno, axiomaticamente norte-americano, realiza o mesmo cenário através do domínio oligárquico do conhecimento estético-expressivo do mundo contemporâneo, que não é mais a escrita alfabética, mas as tecnologias de comunicação, que produzem filmes, novelas, notícias, narrativas diversas, através de uma semiótica mista, que é ao mesmo tempo gráfica, icônica, indicial, sob a hegemonia, é claro, dos ícones.

26

Se, novamente, no período pré-moderno, ligado a um tipo de poder a que chamamos de soberano, o conhecimento estético-expressivo, vinculado à escrita alfabética, era usado para expressar a beleza caligráfica do rosto da aristocracia e do clero, isto é, do soberano, submetendo, sem cessar, à mais extrema tortura o povo do conhecimento moral-prático, então considerado inferior, servo, homo sacer; o período pós-moderno norte-americano, por sua vez, utiliza o conhecimento estético-expressivo, vinculado aos meios de comunicação de massa, num contexto em que sempre parecem sorrindo na foto, como os bons, os democráticos, os valentes, os livres, massacrando a humanidade toda do conhecimento moral-prático, considerada bárbara, terrorista, ignorante, num cenário mundial em que os meios de comunicação rebaixam o conhecimento estético-expressivo dos povos, caricaturizando-o e inferiorizando-o.

27

Se a primeira modernidade produziu um tipo de poder a que chamamos de disciplinar e cujo objetivo era o de domesticar os corpos através de instituições de confinamento, como a família, o casamento, a escola, a pós-modernidade produz um tipo de poder a que chamamos de poder de e da sociedade do controle, que é este através do qual a liberdade é transformada em axiomática de liberdade, sempre para poucos, os oligarcas, num contexto em que liberdade e justiça são sempre encaradas como liberdade e justiça civis, individuais, nunca, portanto, coletiva e econômica.

28

Ser livre, hoje, nesse sentido, é ser uma axiomática ambulante, como Obama. Trata-se, portanto, de um teatro de liberdade vinculado ao campo restrito dos direitos civis subjetivos e isolados, como a liberdade gay, étnica, periférica, feminina, desde que não coloque em cena demandas econômicas, situação em que deixa de ser liberdade axiomática, estilizada, narcísica e teatral e passa a ser liberdade comprometida com o conhecimento moral-prático – o perfil humano mais aviltado em toda história da humanidade –, razão pela qual a liberdade axiomática das minorias pós-modernas normalmente fazem de tudo para não serem vinculadas com o conhecimento moral-prático, isto é, com o povo comum.

29

É por isso que o horizonte revolucionário do mundo atual deve incorporar o campo dos direitos civis, mas de forma alguma deve ficar restrito a esse campo, porque o principal horizonte legal, como nunca, continua a ser o de sempre: o dos direitos econômicos. As axiomáticas representam uma cortina de fumaça que disfarçam a falta de direitos e garantias econômicas para maiorias, num contexto em que existe axiomática para cada gosto.

30

A cultura de massa é o lugar por excelência da axiomática no horizonte da pós-modernidade, pois tem como objetivo produzir o controle do conhecimento moral-prático. O programa Esquenta, da Regina Casé, é um micro teatro axiomático do conhecimento moral-prático ligado ao campo da axiomática da música popular brasileira.

31

A cultura de massa é, portanto, a axiomática do conhecimento moral-prático na pós-modernidade; a única forma em que o conhecimento moral-prático pode se expressar “livremente”, sem ser incomodado, aviltado, desprezado, razão por que os programas populares, incluindo os de futebol, são axiomáticas estético-expressivas ou funis únicos em que o povo pode se fazer presente nos meios de comunicação; do contrário, é recusado, negado, humilhado, barbarizado.

32

Quando o povo ou o conhecimento moral-prático insiste em produzir a expressão livre de seus corpos e saberes fora da axiomática da cultura de massa, imediatamente esta o acusa ou de terrorista, ou de autoritário, ou de ignorante, ou de ingênuo, ou de manipulado.

33

Mais do que qualquer época história, a atual, em função mesmo dos limites físicos, energéticos e espaciais do planeta Terra, no contexto de uma pós-modernidade tomada pela axiomática do mercado do luxo, do narcisismo individual e do desperdício… mais, enfim, do que qualquer época histórica anterior, a atual é a que vincula inevitavelmente o futuro do planeta Terra ao presente não massificado do conhecimento moral-prático, pela singela razão de que é a única forma de saber que, quando não axiomatizada, é capaz de priorizar o que interessa de fato, a partir de uma moral prática, cotidiana, a saber: a água para beber, a comida para comer, a casa para morar, a terra para plantar, a vida para viver, sob a proteção prática do comum, para os comuns.

34

Hugo Chávez Frias, presidente da Venezuela, é o rosto não axiomático do conhecimento moral-prático por excelência do mundo contemporâneo, porque sua experiência de poder cada vez mais está vinculado com o conhecimento moral-prático não massificado do povo venezuelano. É por isso que Hugo Chávez é o homem mais caluniado no mundo todo, pela cultura de massa pós-moderna.

35

É nesse contexto, portanto, que devemos entender a acusação de que a Venezuela é um país autoritário, sem liberdade de expressão, pois qualquer lugar do planeta em que o povo ou o conhecimento moral-prático insistir em sua livre expressão, fora das amarras e controles da cultura de massa, será fatalmente taxado por esta de autoritário e manipulado, porque a sociedade do controle axiomático pós-moderna só entende como liberdade de expressão a liberdade sem livre e coletiva expressão, que é a liberdade domesticada, individual, axiomática, confinada narcisicamente na ilha da fantasia dos teatrais direitos civis de poucos e para poucos.

36

Só existe liberdade de expressão de fato, no mundo contemporâneo, fora da prisão da axiomática dos direitos civis para poucos, isto é, quando recusamos os direitos fuzis para as maiorias.

37

Só existe liberdade de expressão revolucionária na contramão da cultura de massa.

***

[Luís Eustáquio Soares é poeta, escritor, ensaísta e professor da Universidade Federal do Espírito Santo]

Todos os comentários

x

Indique a um amigo

Este é um espaço para você indicar conteúdo do site aos seus amigos.

O Campos com * são obrigatórios.

Seus dados

Dados do amigo (1)

Dados do amigo (2)

Mensagem