Sexta-feira, 14 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1017
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Kit de sobrevivência para a selva do capital

Por Luís Eustáquio Soares em 23/10/2012 na edição 717

Num mundo tão confuso como o nosso, aparentemente pleno de matizes, com tantas entradas e saídas, encruzilhadas, para viver nele mais do que nunca, tal qual numa selva cheia de feras, é necessário trazer consigo um kit de sobrevivência mínimo, razão por que o objetivo deste artigo é o de apresentar (sob a ótica do autor, é claro) um kit de sobrevivência constituído de três princípios comportamentais capazes de nos orientar em nossas escolhas, decisões, perspectivas, tendo em vista o compromisso com a construção de um mundo justo, democrático, de paz, pleno de futuro e tolerância.

O primeiro princípio comportamental é: numa encruzilhada, nunca pegue o caminho do american way of life. A primeira ferramenta para esse kit de sobrevivência na selva do dinheiro, que tomou todo o planeta, é o de evitar a todo custo o american way of life – o estilo americano de vida. Acautele-se e esteja preparado para enfrentá-lo vinte e quatro horas por dia, com as armas do pensamento, da criação, da liberdade, da solidariedade, da cooperação, do conhecimento de suas engrenagens internas e externas, assim como de suas devastadoras implicações no mundo atual.

O american way of life vive enganosamente do seguinte imperativo categórico: “Seja diferente!” Essa é a razão pela qual tendemos, todos nós, a valorizar quem estilisticamente age como diferente, de tal sorte que ser democrático, inteligente, despojado, livre, interessante, sedutor, expansivo, alegre; ser, enfim, gente boa, um mano, está vinculado inevitavelmente com o modo comportamental e individual de se vestir, de falar, de cortar o cabelo, de rir, de agir – modo, bem entendido, estreitamente ligado ao que usualmente chamamos de american way of life ou o estilo americano de ser diferente dos demais seres deste planeta.

Tudo é reeditado para fazer valer gato por lebre

Como sabemos, no capitalismo, a publicidade é a alma do negócio. Para vender mercadorias, é preciso antes consagrar a relevância delas no coração de nosso cotidiano, instigando nossos desejos, ou mesmo fabricando-os, através de incessante publicidade, de tal sorte que a mágica da publicidade está relacionada com o seu desafio de fazer com que tal ou qual artefato, perfeitamente dispensável para a vida, perca essa sua condição essencial, de inutilidade, e se transforme magicamente em mercadoria sem a qual não podemos mais viver, se quisermos estar na ponta de lança do american way of life e, portanto, se não quisermos que os outros pensem que somos anacrônicos, sisudos, duros, despóticos, autoritários, chatas múmias de outras eras que, publicitariamente, dizem-nos, já eram.

Não é casual, nesse sentido, que, como o centro do capitalismo, seu ponto publicitário sísmico, os Estados Unidos da América sejam e funcionem ao mesmo tempo como mercadoria e publicidade permanentes de si mesmos, de modo que o american way of life nada mais é que o conceito publicitário de um país que vende a si mesmo como mercadoria de democracia, de criatividade, de alegria, de, enfim, vida. O princípio ou precipício fundamental do american way of life é, portanto, a publicidade, entendida como vender gato por lebre. E como tudo, nesse contexto, é mercadoria, por consequência tudo é publicidade de si e ao mesmo tempo da mercadoria-mor, os EUA, razão pela qual não é absurdo afirmar que o cinema americano, antes de ser arte e engenho, é publicidade de si como cinema e ao mesmo tempo publicidade do american way of life, argumento que vale para democracia americana, para a vida cotidiana do americano, para, pasmem ou não, as guerras que os EUA realizam sem cessar pelo mundo afora.

O que chamamos de indústria cultural ou de meios de comunicação de massa pode ser simplesmente traduzido como ao mesmo tempo o meio e a mensagem, para brincar com Marshall McLuhan, da e na empresa mundial de publicidade do e no american way of life. Tal empresa mundial de vender gato por lebre, ela mesma uma mercadoria, transforma tudo em publicidade, inclusive ou mesmo principalmente as situações que deveriam ser negativas, como as guerras, que esse modelo dispendioso e inútil tem que realizar para se manter; ou catástrofes naturais, como a do furacão Katrina, que alagou a cidade americana de New Orleans, revelando a pobreza e o abandono da população negra americana; ou ainda a violência de um serial killer, numa escola, numa universidade, na sessão de um filme – tudo é reeditado e remasterizado para fazer valer o gato por lebre do american way of life.

Guerras para sustentar o insustentável

É por isso que a ferramenta ou princípio que deve ser usado e assumido sistematicamente, numa diversidade de situações de nosso cotidiano, para que possamos produzir uma civilização realmente livre, é: não acredite e muito menos deseje o estilo americano de vida. Para ser modesto, o american way of life é o pior estilo de vida que jamais existiu: uma mentira, um armadilha, uma farsa. Não é a vida deslumbrante que nos vendem, mas a própria morte parasitando a vida, porque vive como parasita das vidas alheias, impedindo-as de produzirem suas livres expressões, sanguessugando-as e submetendo-as através do preconceito, do racismo, da exploração, da guerra.

O american way of life é um parasita tão avassalador que se enquistou em todas as situações da vida em sociedade, a nossa. Está no modelo de economia, chamado de neoliberalismo, sobretudo tendo em vista a sua dimensão especulativo-financeira e a sua contraparte bélica, cara e coroa, uma vez que vive ou monta a sua farsa publicitária tornando-se um serial killer de tudo que pulsa, que vive, cria, trabalha e ama. Está, com raras e honrosas exceções, na criação literária, nos enredos dos filmes que vemos, Nas músicas que ouvimos, enfim, na produção cultural contemporânea, através da publicidade enganosa de artefatos estéticos que nos vendem o gato por lebre de multiplicidades humanas falaciosas, narcísicas, como se fossem multiplicidades vitais, libertárias, plásticas, revolucionárias. Está na dimensão política da atualidade, incapaz de assumir uma política dos e para os povos, coletiva, comum, fundada antes de tudo na justiça econômica, portanto na luta pelo fim doamerican way of life porque este tem como premissa inquestionável a defesa da riqueza individual, concentrada no estilizado e autopublicitário individuo isolado. Está na dimensão teórica, que produz publicitárias teorias cujo objetivo de base é o de desqualificar, criticar, negar, odiar e rechaçar toda perspectiva teórica emancipatória, coletiva, realmente prenhe de vidas, de futuros. Está no amor…

O segundo princípio comportamental é: numa encruzilhada, nunca escolha o caminho de interesse do imperialismo american way of life. Se recusar audaciosamente o american way of life constitui o primeiro princípio que devemos ter, para sobrevivemos como coletividade no mundo atual, de tal sorte a termos condições de futuro, por consequência o segundo princípio é o de rechaço claro e inegociável em relação ao imperialismo americano, que também pode ser chamado de imperialismo do american way of life, pela singela razão de que este, o estilo americano de viver, só existe e se impõe como modelo planetário porque possui uma força bélica de vanguarda tecnológica violenta para ao mesmo tempo protegê-lo, sustentá-lo de novas tecnologias e alimentá-lo de consumo de luxo, narcísico, razão pela qual as guerras de pilhagem contra Iraque, contra Líbia, contra Afeganistão, Somália, Iêmen, Irã, Síria (o planeta todo, enfim) são planejadas e implementadas impiedosamente para, em primeira e última instância, sustentar o insustentável: o parasita estilo americano de viver.

Quem tem coragem para morar na atual Líbia?

Recusar o imperialismo a serviço do american way of life é, pois, um princípio fundamental para a garantia da vida na Terra. Logo para a garantia mínima de justiça, paz e democracia no presente e no futuro dos povos. Em época de publicitárias e genocidas guerras humanitárias, como a atual, é preciso ficar bem claro o seguinte: a intervenção imperialista é a mais desumana, a mais violenta, a mais genocida, a mais insustentável, sendo, pois, a pior opção sempre a ser levada em consideração – a que nunca, sob pretexto algum, deve ser sequer cogitada, muito menos desejada, sob a pena de sermos e nos tornarmos cúmplices de inomináveis holocaustos contemporâneos, tão bárbaros e inaceitáveis como o holocausto dos judeus na Segunda Guerra Mundial.

Os exemplos atuais de holocaustos provocados pela intervenção imperialista são muitos, mais que o suficiente, portanto, para aprendermos com nossos inomináveis erros táticos, estratégicos, éticos, edípicos, dogmáticos, ingênuos, bastando considerar, como exemplo recentíssimo (hoje, 19/10, faz um ano do assassinato de Kadafi) a intervenção imperialista na Líbia, motivada publicitariamente para salvar o povo líbio do suposto despotismo de seu líder, Kadafi.

Para qualquer pessoa minimante sensata, honestamente apta a fazer comparações, qual é a cristalina resposta para as seguintes perguntas: como era a vida do povo líbio sob o regime de Kadafi e como é hoje, tendo em vista os efeitos da intervenção imperialista na Líbia? Quem de nós tem, sobretudo os que defenderam a intervenção imperialista na Líbia, a coragem suficiente de morar na atual Líbia, um país totalmente destroçado, invadido por mercenários estrangeiros, um inferno na Terra?

A subserviência aos interesses do american way of life

Claro que a mesma situação vale para a Síria. Apoiar a intervenção imperialista na Síria, que está efetivamente ocorrendo já há alguns meses, é ser cúmplice do genocídio, da pilhagem, da pirataria, da barbárie. Todos os lugares ou países do planeta, sem exceção, que sofrem intervenções imperialistas, em nome do santo estilo americano de viver, no mínimo ficaram piores que eram antes da intervenção, quando, o que é mais comum, não são países, como o caso da Somália, cuja história é inseparável de incontáveis e sucessivas intervenções imperialistas, num contexto em que cada intervenção consegue piorar ainda mais o que já era insustentável: fome, abandono, doenças diversas, taxa de mortalidade infantil, de analfabetismo, de orfandade e assim por diante.

O terceiro princípio comportamental é: numa encruzilhada, nunca escolha o caminho da ditadura midiática local e internacional. A terceira ferramenta comportamental, para completar um kit básico, de sobrevivência e perspectiva de justiça para o mundo atual, é a que diz respeito à necessidade igualmente inegociável de recusa ao cimento ou consenso imposto, ainda que alegremente, pelo sistema mundial de comunicação a serviço ao mesmo tempo, cara e coroa, do american way of life e de seu “holocáustico” braço armado, o imperialismo american way of life.

Tal recusa (aberta, despojada, sem titubear um segundo sequer) deve se dá em relação aos dois modos ao mesmo tempo táticos, estratégicos e desdobráveis da programação produzida pela sorridente ditadura midiática internacional, a saber: 1) a programação demagógica, sob a forma de seriados, filmes, novelas, “apoio” a demandas comunitárias locais, programas de auditórios; 2) e a programação abertamente reacionária, num contexto em que a primeiro serve para escamotear as verdadeiras intenções da segunda. Quer dizer, primeiro se engabela demagogicamente a população para, numa situação ou noutra, cobrar a fatura através da exigência patriarcal e ameaçadora de cumplicidade e subserviência aos ditames dos interesses do american way of life.

Nunca esteja do lado da TV Globo

Foi-se a época, nesse sentido, em que a política era o espaço por excelência da demagogia. É preciso dizer com todas as letras: a ditadura midiática internacional não funciona sem demagogia, praticando-a o tempo todo. Basta ligar, para ser ainda mais preciso, a televisão em qualquer hora do dia, por exemplo, às 11 horas da manhã, na TV Globo (mas não apenas) com o objetivo de ver o programa Encontro, de Fátima Bernardes. Do começo ao fim, a pretexto de informar a população sobre temas diversos, o que se vê é demagogia rasteira, sedução barata, através da imposição do estilo de vida americano, na suposição de que este é universal e natural – o lugar da verdade, da inteligência, da elegância, da alegria, da saúde, da civilidade, razão por que o povo deve persegui-lo, desejá-lo, se quiser também ser elegante, inteligente, alegre, saudável, civilizado, moderno.

A ditadura midiática internacional funciona assim: 1) no varejo ela é demagógica; no atacado (leia-se literalmente também, quando ela ataca-nos), por sua vez, ela é reacionária, impositiva, bélica, taxativa, punitiva, ameaçadora, implacável; 2) no plano individual, o da situação de Maria, José, Joaquim, do bairro tal, do hospital tal, ela é no geral demagógica, sempre sorrindo e dissimulando prontidão ao auxílio, à esmola; no plano dos interesses coletivos, por sua vez, é intolerante, belicosa, reacionária, ardorosamente contra os interesses da população comum.

Querem exemplo de seu lado atacado? Basta ver a forma como a ditadura midiática brasileira, sob o nome de Jornal Nacional, filial subserviente da ditadura midiática do american way of life, noticiou os vetos que a presidente Dilma Rousseff muito oportunamente realizou em alguns pontos da medida provisória do novo código florestal brasileiro, contrariando diretamente a bancada ruralista do Congresso Nacional. A notícia foi um ataque ao direito de veto da presidência da República, procurando nos fazer crer que Dilma Rousseff é uma traidora e autoritária.

Para finalizar, portanto, parto do seguinte princípio analítico, comportamental: se quer ser realmente honesto, incorruptível, em relação aos temas e acontecimentos do mundo contemporâneo, inclusive e antes de tudo os relativos ao interesse dos brasileiros, nunca esteja do lado da TV Globo, sob hipótese alguma.

***

[Luís Eustáquio Soares é poeta, escritor, ensaísta e professor da Universidade Federal do Espírito Santo]

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