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Quinta-feira, 16 de Agosto de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1000
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MOSAICO > ESTRUTURA DO DESEJO

O inconsciente das falsas bandeiras e o imperialismo

Por Luís Eustáquio Soares em 10/06/2014 na edição 802

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Em Interpretação dos sonhos (1900), Freud, dentre outros, analisou um sonho que uma paciente sua teria ouvido numa conferência que a impressionou muito, assim o tendo narrado: “Um pai estivera de vigília à cabeceira do leito de seu filho enfermo por dias e noites a fio. Após a morte do menino, ele foi para o quarto contíguo para descansar, mas deixou a porta aberta, de maneira a poder enxergar de seu quarto o aposento em que jazia o corpo do filho, com velas altas a seu redor. Um velho fora encarregado de velá-lo e se sentou ao lado do corpo, murmurando preces. Após algumas horas de sono, o pai sonhou que seu filho estava de pé junto a sua cama, que o tomou pelo braço e lhe sussurrou em tom de censura: ‘Pai, não vês que estou queimando?’ Ele acordou, notou um clarão intenso no quarto contíguo, correu até lá e constatou que o velho vigia caíra no sono e que a mortalha e um dos braços do cadáver de seu amado filho tinham sido queimados por uma vela acesa que tombara sobre eles.”

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A respeito do trecho acima exposto de A interpretação dos sonhos, de Freud, Lacan argumentou, no Seminário XI: “É outra coisa senão o mundo do além e não sei que segredo partilhado entre pai e filho que vem lhe dizer ‘Pai, não vês que estou queimando?’ Do que é que ele queima? – senão do que vemos desenhar-se em outros pontos designados como topologia freudiana – do peso dos pecados do pai, que carrega o fantasma do mito de Hamlet com que Freud duplicou o mito de Édipo. O pai, o Nome-do-pai, sustenta a estrutura do desejo com a da lei – mas a herança do pai é aquilo que nos designa Kierkegaard, é seu pecado.”

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Se traduzirmos “topologia freudiana” como imperialismo americano-ocidental, qual o peso dos fantasmas do pai? Quem somos os filhos que recebemos a herança do pecado do pai e que sustentamos a estrutura do desejo com a lei? Qual é a estrutura do desejo?

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O argumento deste ensaio é: a estrutura do desejo constitui o que é possível chamar de american way of life ou o estilo americano de vida, topologia capitalística planetária que sustenta o peso dos pecados do pai, cujos muitos nomes se traduzem em oligarquias, multinacionais, opressão de classe, de gênero, étnica, epistemológica, linguística, simbólica e uma infinidade de outras.

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O que está em jogo na estrutura do desejo do imperialismo americano-ocidental? Como esta estrutura se constituiu? Considerando a segunda pergunta, no fundo e no raso a que deveria vir primeiro, a constituição da topologia capitalística do atual presente histórico se deu a partir da afirmação do desejo dos filhos, os quais podem ser designados, porque são legião, como: escravos, súditos, operários, desempregados, vidas nuas, lumpens, numa escala em que se é tanto mais o filho quanto mais se é alteridade, quanto mais se é abandonado, rejeitado, humilhado, enganado, explorado, torturado, tornado invisível, assassinado.

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Quanto à segunda pergunta, por sua vez, é possível afirmar que a estrutura do desejo do imperialismo americano-ocidental foi meticulosamente planejada e efetivamente levada a cabo em escala planetária tendo em vista o desejo dos filhos de produzir um mundo sem a herança pesada dos pais – herança designada por Walter Benjamin, em Sobre um conceito de história, de tradição do oprimido. Um mundo, portanto, absolutamente laico, sem oligarquias, sem opressão, sem deuses, mistificações. Um mundo dos iguais, feito pelos iguais, dos filhos, enfim, órfãos que decretam democraticamente que a nossa orfandade comum seria a nossa marca de Caim universal, a que nos constituiria como cidadãos planetários, porque viventes num planeta igualmente órfão, razões suficientes para nos cuidarmos, nos amarmos, nos festejarmos como seres de destino terráqueo que têm o cosmos como desafio infinito para inspirar nossa ininterrupta autoinvenção, como iguais, como órfãos, como filhos.

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Esta é, pois, a estrutura do desejo que o imperialismo americano-ocidental, como uma fábrica, um parque de diversões, montou para os filhos, os abandonados da Terra: um mundo sem pai, todo nosso porque de ninguém.

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Se, com Michel Foucault, o biopoder se define pelo eixo individual, a que ele chamou de anatômico-político; e um segundo eixo coletivo, por ele designado como biopolítica da população, consideremos que a estrutura do desejo do imperialismo americano-ocidental seja ou se inscreva no horizonte da biopolítica da população mundial e que, por isso mesmo, tenha relação com o perfil da espécie humana. Esta, a espécie humana, sob o ponto de vista da biopolítica da população, deve viver acreditando que está num mundo sem pai, no qual devemos lutar para produzir uma humanidade livre de todas as opressões.

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A estrutura do desejo do imperialismo americano-ocidental se constitui como uma biopolítica da população mundial desafiada a montar um perfil para a espécie humana em que esta se assumisse ou se assume como filha órfã de uma Terra órfã, sem pai, sem hierarquias, sem opressores, sem oprimidos, de pródigos filhos terráqueos, iguais em destino, como mortais e como, portanto, vivos que, para citar Nietzsche de Assim falava Zaratustra, “sacrificam-se pela Terra para que a Terra seja um dia do além do homem”.

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Por outro lado, como tal estrutura do desejo montada pelo imperialismo americano-ocidental constitui pura e simplesmente uma armadilha de pais oligárquicos para filhos bastardos, é no outro lado do biopoder, em sua dimensão anatômico-política, que a coisa desanda no movimento mesmo em que os filhos acionam os fios ou acendem as velas para produzir um mundo de todos, porque de ninguém.

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Se os dois eixos do biopoder de Foucault deveriam, em sua perspectiva, se articular, tal que a dimensão individual, a anatômico-política, convergisse com a da biopolítica da população, num contexto em que tal convergência esboçaria o perfil da espécie humana da e para a civilização burguesa, a estrutura do desejo do imperialismo americano-ocidental se constitui pela divergência absoluta entre o lado anatômico-individual do biopoder em relação ao lado da biopolítica da população: no lado desta, devemos nos comportar como órfãos, comuns, terráqueos, iguais, sem pai, sem deuses, laicos, terráqueos; no lado daquela, o anatômico-individual, devemos ser o que nos confessamos ser, a saber: homens, mulheres, gays, negros, índios, latino-americanos, africanos, asiáticos, mulçumanos, europeus, esquerdas, direitas.

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Essa é a estrutura do desejo do imperialismo americano-ocidental que capturou todo o planeta (nos lugares mais, noutros menos), constituindo-se como a principal fonte de todas as nossas contradições, nossos erros e pierrôs, a saber: lutamos no plano comum, órfão, terráqueo, para a produção de uma humanidade justa, livre de opressores, mas tendo como bandeiras nossas causas subjetivas, individuais, identitárias, como mulheres, negros, índios, brasileiros, mulçumanos, laicos, religiosos.

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Nesse contexto a estrutura do desejo de emancipação da humanidade, o planeta todo, torna-se inevitavelmente uma verdadeira praça de guerra igualmente planetária. Quanto mais lutamos por liberdade, por justiça, contra todas as formas de opressão, mais nos oprimidos, mais nos tornamos reféns da estrutura de desejo planejada pelo pai colonizador americano-ocidental como verdadeira emboscada na qual ou a partir da qual, ao agirmos para nos libertarmos, colocamos fogo no planeta e então perguntamos, em Nome-do-Pai, que estrutura o desejo com a lei de fogo: “Pai, não vês que estamos nos queimando?”

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Ora, se o sonho, na perspectiva de Freud, é desejo realizado, este precisa ser analisado literalmente: o desejo do pai é mesmo que nos queimemos em nome do imperialismo americano-ocidental, invertendo o enredo de Hamlet, de Shakespeare. Se nessa conhecida peça do autor de Macbeth, o pai, como fantasma, aparece para o filho conclamando que este o vingue porque teria sido assassinado por seu irmão, com a participação da mãe de Hamlet (a rainha), usurpando o trono, a estrutura do desejo do imperialismo americano-ocidental, em Nome-do-Pai, subverte Shakespeare porque transforma o filho em fantasma que deve se queimar ininterruptamente em nome do imperialismo americano-ocidental para em seguida, buscando piedade, conclamar: “Pai, não vês que estou queimando?”

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O filho se queima em Nome-do-Pai, a estrutura do desejo do imperialismo americano-ocidental simplesmente lutando por sua identidade, seja lá qual for, de direita, de esquerda, reformista, revolucionária, social-democrata, anarquista, fundamentalista, nazista, negra, homoerótica. É nesse contexto que se torna possível afirmar que a verdadeira bandeira falsa do contemporâneo somos nós mesmos, nossas identidades, subjetividades, nossas marcas de Caim. É lutando por nós mesmos que nos queimamos em Nome-do-Pai, como lei de ferro ou de fogo inscrita no coração da estrutura do capitalismo contemporâneo.

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A única forma de não nos tornamos reféns da falsa bandeira que somos nós mesmos e que se constitui como o desejo da e na topologia do pesadelo que é o domínio americano-ocidental sobre o planeta é trair a estrutura do dejeto do imperialismo americano-ocidental, traindo antes de tudo a nós mesmos.

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Nós, independente de quem sejamos, somos a falsa bandeira do imperialismo americano-ocidental e agimos em Nome-do-Pai, queimando-nos quando lutamos por nós mesmos.

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Eis o paradoxo da estrutura, sua ausente causa que nos torna o efeito, a febre, a falsa bandeira de um mundo estruturalmente doente. Defendendo nossas bandeiras, tornamo-nos a febre da estrutura, razão pela qual nela nos queimamos em Nome-do-Pai e sua lei: submissão integral do planeta, da espécie humana, ao domínio americano-ocidental – o pior pesadelo.

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Quer queiramos ou não a única forma de sairmos desse imbróglio é nos revoltando contra a estrutura ao nos revoltarmos contra nós mesmos, contra nossos mais legítimos desejos de justiça, o que significa dizer que devemos ter clareza do que vem primeiro e o que vem primeiro não é nunca nossas bandeiras próprias, por mais legítimas que sejam, mas a espécie humana ou, para sair do antropocentrismo, a vida na Terra.

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É precisamente aqui que deveria ficar claro para todos nós que estamos literalmente nos queimando, em Nome-do-Pai, o imperialismo americano-ocidental, ao lutarmos, por exemplo, tendo em vista as falsas bandeiras de nossas identidades nacionais. No Egito, na Líbia, na Síria, na Rússia, em Espanha, no Brasil, na Venezuela, no Irã, enfim e em começo, em todos os lugares do mundo o que devemos queimar antes de tudo é a própria estrutura de desejo que define o contemporâneo: o imperialismo americano-ocidental.

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Para tanto, nossas bandeiras não podem vir primeiro, por mais legítimas que sejam. Nossa causa comum é a espécie humana, a vida na Terra, se não quisermos ser a lei em fogo da estrutura, tendo em vista os nossos desejos mais latentes, assinalados no corpo de nossas almas por oligarquias de outros arranjos sócio-históricos, anteriores ao americano-ocidental.

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É nesse contexto, no relativo ao cancelamento circunstancial de nossos princípios de prazer, em nome do princípio de realidade da espécie humana ou da vida na Terra, que estamos na obrigação de entender que o coração – ou a alma do negócio – da propriedade dos meios de produção na atualidade tem um nome: corporações midiáticas ou suportes tecnológicos de comunicação privados ou controlados pelo imperialismo americano-ocidental.

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Sem a destituição da propriedade privada das corporações midiáticas ou da indústria cultural, para dialogarmos com Adorno e Horkheimer, ou, ainda, sem o fim da sociedade mundial do espetáculo da estrutura do desejo de nossas falsas bandeiras não conseguiremos jamais produzir justiça planetária e contribuir com a invenção de uma espécie humana órfã de oligárquicas e que, por isso mesmo, não esteja condenada, em Nome-do-Pai, a se queimar em praças públicas quanto mais luta por sua liberdade e pelo fim das opressões.

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Não basta, sob esse ponto de vista, uma contraofensiva cultural do povo venezuelano, como propôs Luis Britto, com o objetivo se contrapor ao domínio primado dos suportes midiáticos, no contexto da Venezuela bolivariana. Uma contraofensiva cultural constitui, no que diz respeito à lei do inconsciente estrutural do imperialismo americano-ocidental planetário, apenas mais uma falsa bandeira a queimar-se em Nome-do-Pai.

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O escândalo, portanto, vem antes e é estrutural: o monopólio ou o oligopólio das tecnologias midiáticas. Mais do que nunca, para queimar a estrutura do desejo imperialista do contemporâneo, é necessário simplesmente destituí-la, substituindo-a pela propriedade pública das tecnologias midiáticas.

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O monopólio, o oligopólio ou mesmo a propriedade privada dos meios de produção midiáticos devem ser considerados claramente a falsa bandeira-mor diretamente implicada com todas as outras falsas bandeiras, razão suficiente para o consideramos absolutamente ilegítimo.

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No Brasil, sem diferença alguma de qualquer lugar do planeta, no contemporâneo, o que chamamos orgulhosamente de revolução brasileira, não passa disto: reificação da estrutura de desejo do imperialismo americano-ocidental, pela evidente razão de que o que temos feito é lutar por nossas falsas bandeiras anatômico-políticas contra a espécie humana, contra a vida na Terra, porque dentro da estrutura do desejo do imperialismo americano-ocidental.

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Não existe, pois, maior inimigo da vida na Terra que a propriedade privada das tecnologias midiáticas, principalmente em sua dimensão corporativa, multinacional, monopólica ou oligopólica, numa palavra, oligárquica, pois ela se constitui no contemporâneo como a alma da estrutura do desejo do imperialismo americano-ocidental: quer que nos queimemos todos para nos transformamos na luz da vela do falo despótico e genocida do imperialismo americano-ocidental – pirotécnico pior entre os piores mundos possíveis, suicidando-se ao suicidar-nos, iludindo-nos revolucionários, em causa própria, anatômico-políticas.

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O caminho para deixarmos as oligarquias tão órfãs como todos nós, comunistas, passa necessariamente pela destituição da propriedade privada dos meios de comunicação de massa, tornando-a pública, num contexto em que o público deve ser entendido antes de tudo sob o ponto de vista da biopolítica da população planetária, da qual a dimensão anatômico-política do biopoder fará parte como um em si que seja futuro comumente órfão, a inventar-se fora da estrutura do desejo do imperialismo americano-ocidental.

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Luís Eustáquio Soares é poeta, escritor, ensaísta e professor de Teoria da Literatura na Ufes

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