Domingo, 16 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1017
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Lacan, o ‘JN’ e a morte de Eduardo Campos

Por Luis Eustáquio Soares em 19/08/2014 na edição 812

O que é a repetição? Na psicanálise lacaniana é o que insiste na borda do vazio. Algo que pode ser tanto o semblante do mundo, tal como nele nos instalamos; tanto pode ser o saltar-se pra terceira margem do rio, instaurando a possibilidade de um discurso que não fosse semblante.

São quatro os discursos do mundo, ainda em diálogo com Lacan: 1) o discurso do mestre ou do senhor; 2) o discurso do universitário ou do saber ou do escravo; 3) o discurso da histérica; 4) e o do analista. Nenhum discurso está fora do semblante pela evidente razão de que seja o próprio semblante, o do mestre ou do senhor, o do escravo ou do saber, o da histérica e o do analista.

Semblantes, todos o somos.

O primeiro discurso, o do mestre ou do senhor, constitui o lugar do mais-de-gozar. Este, em termos de capitalismo, é a instância transcendental da mais-valia entendida como o mais-de-gozar do burguês ou de Deus ou das oligarquias. O segundo, por sua vez, o do escravo ou do saber, constitui-se como o semblante do gozo do mais-de-gozar do mestre ou do senhor. Se este funciona como semblante abstrato e transcendental no seu mais-de-gozar, aquele é sua encarnação gozada, gozando, gozante. O escravo e/ou o saber goza o mais-de-gozar do mestre ou do senhor, como se fosse, e é, o semblante encarnado de poderes ocultos e ausentes, que se fazem presentes através dele, do oprimido.

É por isso que tanto no campo das esquerdas, que supostamente se colocariam como representantes do discurso dos oprimidos; quanto no campo da universidade, instituição que fala em nome do saber, não existem, neles mesmos, linhas de fuga para a produção de um mundo realmente justo e livre, pois são o semblante em gozo do mais-de-gozar do mestre ou do senhor. Sem o oprimido ou o saber, o mais-de-gozar do burguês ou das oligarquias se constituiria como um sólido semblante do nada, desmanchando-se no ar.

Gozo do opressor

É aqui que entra o discurso da histérica, que tem a vantagem de pôr em crise o gozo do escravo ou do saber, pois a histérica é a que cobra diretamente do senhor e do mestre o gozo e o mais-de-gozar. O que a histérica quer é que o senhor e o mestre gozem e ao mesmo tempo mais-gozem. É por isso que seu discurso é um semblante, como todo discurso, mas também uma repetição de algo que está ou pode estar na borda de um discurso que não fosse semblante, porque o senhor e o mestre não podem gozar e mais-de-gozar ao mesmo tempo.

A histérica exige que o mestre ou senhor o seja de fato, para além do semblante. Ela é a borda do vazio. Um triz para a produção de um discurso que não fosse semblante, mas também, se capturada pelo saber ou pelo senhor (o que é o mais comum, tragicamente), constitui, em seu sofrimento, o próprio curto-circuito de um mais-de-gozar que é um gozar; o corpo do escravo e do saber como caricatura de oligarquias ou de Deus ou, ainda e ao mesmo tempo, o discurso do mestre e do senhor caricaturalmente encarnando o discurso do escravo e do saber.

Apenas, pois, produzindo um furo no saber e uma perspectiva de desopressão, em relação ao gozo do escravo que a histérica poderia produzir um discurso que não fosse semblante. Este é a possibilidade, a única, de produção de outro mundo. O discurso do analista, por isso mesmo, deve exercitar-se pra produzir-se como o histérico, mas sem o gozo do saber e do escravo e, é claro, sem o mais-de-gozar do mestre e do senhor. O discurso do analista, pois, é impossível – o lugar do não semblante. Uma histérica que não fosse semblante. Logo, que não fosse nem o gozo do escravo e do saber, nem muito menos o mais-de-gozar do senhor e do mestre e, portanto, uma histérica que não fosse histérica.

Essa digressão necessária tem como objetivo o seguinte axioma: o oprimido é o semblante em gozo do mais-de-gozar do opressor. Não é, pois, por si mesmo, o lugar da emancipação, da justiça. Por outro lado, porque é também histérico (todo oprimido é histérico), traz em si a possibilidade de produzir um discurso que não fosse semblante.

Época fundamentalista

Isso significa dizer que o oprimido tanto pode encarnar o mais-de-gozar do senhor, gozando seu despotismo de forma caricatural, genocida, como pode lançar-se no vazio, o futuro, e produzir um discurso que não fosse semblante, isto é, que não fosse nem o discurso do mestre e do senhor, nem o discurso do escravo e do saber, nem o discurso da histérica – mas um mundo de infinita igualdade, ao qual, não existe designação melhor, com Marx, damos o singelo nome de comunismo, esse advir, se futuro tivermos, de um discurso que não fosse semblante – isto é, que não fossem hierarquias, opressões, oprimidos, no qual e através do qual seríamos todos um sim à experimentação ininterrupta, e coletiva, sempre, do discurso do analista – na borda do impossível: a igualdade sem fim.

E qual o cenário contemporâneo? Como se dá o jogo entre o discurso do mestre ou do senhor e o discurso do escravo e do saber, na atualidade? Vivemos mesmo numa época curiosa. Difícil de analisar. Pela seguinte razão: hoje o oprimido faz o inverso da histérica. Ao invés de delegar pro senhor e pro mestre o gozar de seu mais-de-gozar, como faz a histérica, o que seria o mesmo que exigir que o mestre ou o senhor trabalhe, sem parasitismo, pra produzir mais-valia, sem explorar a ninguém, o oprimido, hoje, no geral deseja fazer o inverso, a saber: quer ser o próprio mais-de-gozar do senhor e do mestre. Com isso, o que efetivamente realiza é o semblante de seu gozo caricatural, diria trágico, pois mata e se mata para e em nome do mais-de-gozar do mestre e do senhor.

E quem são os mestres e os senhores do contemporâneo? São, é preciso designá-los sem pestanejar, a oligarquia americana, europeia e sionista, essa trindade que ocupa o polo da transcendência do mais-de-gozar do mestre e do senhor e que põe todo o planeta gozando o semblante de sua mais-valia, matando e se matando em seu nome. Essa é a realidade e a realidade nada mais é que o discurso do senhor e do escravo funcionando, em harmonia, se assim pode ser dito.

Mas como o oprimido pode querer o discurso do mestre e do senhor, se é oprimido? Como pode mais-de-gozar, se seu lugar no semblante é o do gozo? Claro que isso não é possível, razão pela qual só se realiza no plano religioso. É por isso que seja possível dizer que vivemos numa época extremamente religiosa, fundamentalista, pois o nosso é um tempo em que o oprimido quer ser Deus e, querendo, mata e se mata em nome de Deus, vale dizer, em nome do discurso do mestre ou do senhor.

Segundo turno

O gozo do oprimido na atualidade é fundamentalista e está pronto pra tudo: pra matar e pra morrer. Claro que essa situação não ocorre apenas entre os fieis islâmicos. Esse é um fenômeno planetário. Orquestrado para ser o que tem sido.

E a partir daqui, chega-se ao caso da morte de Eduardo Campos, no Brasil.

Dois argumentos são possíveis e convergentes (claro, e uma infinidade de outros) para analisar esse trágico acidente que o vitimou, assim como mais seis pessoas, tão importantes quanto ele e quanto nós – porque eram vivos como continuamos a ser. O primeiro argumento tem relação com a furada em que se meteu Eduardo Campos e nos metemos todos nós quando nos colocamos na posição de gozar o mais-de-gozar do senhor, sobretudo o senhor imperialismo americano-europeu-sionista. Gozar, como semblante desse lugar, é, hoje mais do que nunca, pedir pra matar e pra morrer.

Não existem alternativas, sob esse ponto de vista. É matar e/ou morrer a fim de nos suicidar-nos em nome do imperialismo americano-europeu-sionista. Esse semblante do senhor da civilização burguesa quer que sejamos kamikazes, como escravos, do gozo de seu mais-de-gozar, ao matar-nos e matar para combater um mundo multipolar. Quer, portanto, que nos matemos para combater antes de tudo a China e a Rússia, com a promessa de um lugar garantido ao lado direito de Deus, no paraíso do mais-de-gozar do mestre da eternidade.

Nas três últimas eleições presidenciais, sem a interferência do Partido da Imprensa Golpista (PIG), o PT – duas vezes com Lula e da última vez com Dilma Rousseff – teria muito provavelmente ganhado as eleições no primeiro turno. Não terá sido, pois, circunstancial, que Heloísa Helena, candidata a presidência, há oito anos, pelo PSOL, tenha sido midiatizada e, portanto, usada com o objetivo de contribuir, gozando o semblante do discurso do senhor, para a emergência de um segundo turno, quando concorreu com Lula da Silva. Também não foi mero acaso que, há quatro anos, Marina da Silva, então candidata pelo Partido Verde, por igual motivo tenha sido aureolada pelo semblante espetacular das mídias corporativas para servir aos propósitos de um segundo turno. Eduardo Campos foi a bola da vez, razão pela qual foi devidamente midiatizado, tal como Heloísa Helena e Marina da Silva, para gozar o semblante de um desejado segundo turno golpista, num cenário de adversidade eleitoral para a oligarquia senhorial brasileira.

O semblante dos semblantes

Como não estava cumprindo o lugar de semblante designado para ele pelo discurso do senhor do imperialismo americano-europeu-sionista, de alguma forma, Eduardo Campos devia sucumbir. Tornar-se uma carta fora do baralho. Tragicamente, isso aconteceu através de um acidente de avião. Mais um trágico “acidente” de avião, esse é o terceiro, que ocorre no Brasil durante a campanha eleitoral para presidente, desde a era Lula. Mera coincidência!?

E, eis, finalmente, o segundo argumento, ainda que hipoteticamente. Existe, sim, a possibilidade de tudo ter sido arranjado, planejado. Existe, pois, a possibilidade de Eduardo Campos e as seis pessoas que o acompanhavam terem sido assassinadas para que Marina da Silva viesse a ser (e já foi) colocada em seu lugar, como semblante em gozo a serviço de um segundo turno e, no limite, a serviço, como presidente eleita (esconjuro!) do e para imperialismo americano-europeu-sionista.

Essa possibilidade, a de que Eduardo Campos e seus seis assessores tenham sido assassinados, deve ser, sim, considerada. E ela é tanto mais factível quanto mais ficamos sabendo que não há registro de voz na caixa-preta encontrada nos destroços do avião e, pasmem, que o áudio obtido, conforme o comunicado oficial da Força Aérea Brasileira (FAB), não corresponde ao do voo em questão.

Mera coincidência? Talvez, assim como não menos “talvez” seja uma inocente coincidência que a diligente polícia investigativa brasileira, ciosa de sua funcionalidade sistêmica, tenha contratado “especialistas americanos” para “ajudar” nas investigações, como se pudessem ser neutros; como se não fossem a priori o semblante da carniçaria que se espalha pelo mundo, com seus discursos de saber que nada mais são que o gozo especializado do mais-de-gozar da rapina do imperialismo americano-europeu-sionista, que extorque, genocida todo o planeta, em nome de seu divino direito de ser o semblante dos semblantes, de forma absolutamente unipolar.

O Judas de Eduardo Campos

Tudo, como roteiro de uma crônica previamente anunciada, parece coincidir, convergir, confabular a favor da impunidade, da, enfim, versão que deve prevalecer, ratificar-se: foi mesmo um trágico acidente de avião que matou o candidato a presidente pelo PSB, Eduardo Campos – e mais seis pessoas que faziam parte de sua equipe de campanha! Nada mais.

Coincidências e “inocências” assim só são possíveis no plano do semblante do escravo gozando o discurso do senhor, pois, nesse lugar, o gozo do que fazemos, escolhemos, investigamos, enfim, o gozo de nossas diligências, nossos esforços, é, no geral, transformado em mais-valia pelo senhor, que mais-nos-goza: Tio Sam, que invadiu o mundo inteiro, mais-gozando a partir de nossos subservientes gozos colonizados.

De qualquer forma, se a versão que ora apresento for possível, se o que houve foi um assassinato planejado com o objetivo de transformar Marina da Silva em candidata a presidente do Brasil, num conveniente cenário de manipulação catártico/midiática da morte de Eduardo Campos, a data escolhida para o trágico dia de sua morte (assim como a de seus seis assessores), a manhã seguinte da noite que precedeu a sua entrevista ao Jornal Nacional da TV Globo, dia 13 de agosto, terá sido apenas mais uma coincidência? Será igualmente coincidência que o dia 13 de agosto seja o dia da morte do avô de Eduardo Campos, o conhecido político de viés progressista, Miguel Arraes, a quem Eduardo Campos traiu pelo simples motivo de ter aceitado compor o cenário de uma farsa a serviço do Tio Sam? Alguém da TV Globo saberia de antemão da trama meticulosamente (ou seria melhor dizer, desesperadamente) planejada para dar cabo da vida de Eduardo Campos?

Independente disso tudo, efetivamente o Jornal Nacional se tornou o Judas de Eduardo Campos, imagem que uso sem querer minimamente comparar o ex-governador de Pernambuco a Jesus Cristo, o que ele não era e nunca foi, não obstante a tragédia que foi a sua morte e de mais seis pessoas, como o é a morte de qualquer ser vivo deste planeta.

Um discurso sem mortificação global

O Jornal Nacional, independente de qualquer trama, havida e não havida, insisto, é mesmo um felizardo, se o compararmos aos outros canais e jornais da televisão brasileira. Afinal, coube a seus atores, quero dizer, performáticos funcionários travestidos de jornalistas, William Bonner e Patrícia Poeta, transformar – ou tentar – em catarse nacional a morte de Eduardo Campos, divulgando (mera coincidência?) as últimas imagens dele vivo, inclusive a de um café que precedeu a entrevista, onde apareceu rindo com os entrevistadores, festivamente.

Se comecei este texto falando em repetição, sob o ponto de vista da psicanálise de Lacan, foi para fechá-lo alegando que o gozo do escravo, como semblante, constitui a festiva antessala de sua morte sacrificada em nome do soberano. Infelizmente esse foi o destino trágico de Eduardo Campo, tanto mais trágico quanto mais editável pelo urubu imperialista global.

Esperemos e lutemos, por outro lado, para que, em nome do que havia de singular em Eduardo Campos, afinal somos muitos; em nome de um discurso que não fosse semblante dele e nele, quando vivo, em nome enfim dos vivos, que o Jornal Nacional jamais seja eleito o novo presidente do Brasil. Que o semblante da TV Globo não seja jamais o nosso lugar de gozo e que em relação a ele possamos contribuir para produzir um discurso que não fosse semblante – o da vida, sem mistificação e, portanto, sem mortificação global.

O resto é teoria da conspiração, que não ousa dizer seu nome.

******

Luis Eustáquio Soares é poeta, escritor, ensaísta e professor de Teoria da Literatura na Universidade Federal do Espírito Santo

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