Sábado, 20 de Outubro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1009
Menu

MOSAICO >

A inteligência e as suas limitações

Por Paulo Bento Bandarra em 15/04/2008 na edição 481

‘Ser ou não ser… Eis a questão. Que é mais nobre para a alma: suportar os dardos e arremessos do fado sempre adverso, ou armar-se contra um mar de desventuras e dar-lhes fim tentando resistir-lhes? Morrer… dormir… mais nada… Imaginar que um sono põe remate aos sofrimentos do coração e aos golpes infinitos que constituem a natural herança da carne, é solução para almejar-se. Morrer.., dormir… dormir… Talvez sonhar…’ [A Tragédia de Hamlet, Príncipe da Dinamarca (Ato III – Cena I – excerto) William Shakespeare (1564-1616)]

Certamente este é um tema que merece uma ponderação neste espaço. Já comentei alguma coisa na matéria do Luciano Martins Costa ‘A imprensa não estimula a inteligência‘. Mas devido a argumentações sobre este tema tecido pelo comentarista Ricardo Pierri, advogado de Santos-SP – me parece que merece mais algumas reflexões. Argumenta o mesmo que a mídia não precisa ter nenhuma qualidade, pois a inteligência dos leitores supre qualquer coisa. Que não existem néscios, e que todos possuem as mesmas qualidades intelectuais. Que um editor não deveria pautar as matérias, porque seria desnecessário e que os leitores a tudo saberiam descobrir o certo e o errado. Que a inteligência humana é a ferramenta necessária e suficiente para este trabalho. O que é contrário a minha tese de que tanto existem ingênuos, desinformados e que tentam difundir a sua mensagem para os incautos.

Em outro momento, em confabulações no OI com. Ricardo Antônio Lucas Camargo, em 8/1/2008, em que ele aborda na matéria ‘Glosas ao tema do ateísmo‘ em que especula de como as pessoas que não fazem parte do meio podem ter certeza das coisas. A incerteza da verdade não torna a falsidade uma possibilidade. A falta de conhecimento não é suprida pelo discernimento. E pouco conhecimento não equivale a muito.

Método para discernir

A inteligência, ou o QI, não deve ter mudado nos últimos 5.000 anos. Não é por isto que as crenças do passado nos representem tolas e falsas. Mesmo dentro da tradição judaica fundamentalista, não cortar cabelo, manter a barba, se vestir como naquela época foi se modificando com o tempo. Sacrifícios humanos foram praticados por vários povos, e feitiços com sacrifícios animais, ou a oferta de animais mortos, usados em algumas religiões até hoje em dia, não são sinais de falta de inteligência. As pessoas usaram a sangria por milhares de anos acreditando em seus benefícios não por burrice. As mesmas coisas acontecem hoje em dia pelos mesmos motivos. Se a inteligência fosse igual a todos, certamente ninguém diria desinteligências, nem no campo político, erudito, filosófico ou científico. Mas esta não é a realidade. Assim como aquele que não entendeu, se engana, assim será com o leitor mal orientado.

Os gregos, romanos, egípcios, árabes desenvolveram muito conhecimento filosófico e científico, a maioria deles barrados com as religiões que passaram a dominar dentro do monoteísmo ocidental, assim como as demais seitas, credos e pensamentos místicos não aceitos pelos poderosos destas religiões impostas a ferro e fogo, no crê, ou morre visto até hoje usado como método de reforço do proselitismo. No Oriente, com uma tradição mística e uma cultura de ‘vida’ espiritual mais dominante viveu um desenvolvimento diferente. Mesmo assim, chineses e mongóis dominaram a pólvora, desenvolveram o arco antes do ocidente e fizeram grandes construções. Indianos rechaçaram as forças de Alexandre, até então marchando sem ser detido, com uma melhor tecnologia de defesa que os gregos não conheciam.

Mas faltava neste tempo todo um método mais claro para se trabalhar o conhecimento. Apesar de Hipócrates ter enunciado que as doenças eram coisas naturais, que poderiam ser entendidas pela observação, e dominado o seu tratamento, não criou um método para discernir as coisas mais precisamente.

Absurdo quase consumado

A partir de René Descartes (1596-1650) que começa a ser elaborado pela cultura humana um método científico. Apesar de Galileu ter usado o seu, foi combatido pela Igreja com ameaça física. Descartes afirma que ‘o bom senso é a coisa mais bem distribuída do mundo: todos pensamos tê-lo em tal medida que até os mais difíceis de se contentar nas outras coisas não costumam desejar mais bom senso do que têm’. O Discurso sobre o Método, por vezes traduzido como Discurso do Método – ou ainda Discurso sobre o Método para bem conduzir a razão na busca da verdade dentro da ciência (em francês, Discours de la méthode pour bien conduire sa raison, et chercher la verité dans les sciences) – é um tratado matemático e filosófico de René Descartes, publicado em francês em Leiden em 1637. A partir daí vários pensadores e cientistas, aproveitando o iluminismo e a volta da liberdade que se iniciava, e a cultura difundida pelos enciclopedistas, estimulam o debate e o aprimoramento do mesmo.

O Mestre em Neurologia Celio Levyman, em 8/4/2008, discorre em ‘Os professores doutores‘ sobre o significado dos mesmos no mundo cultural e acadêmico. Se todos nascem iguais perante ‘Deus’ ou dos deuses, e se todos são iguais perante a constituição, na esfera da erudição, da cultura e da ciência, não se dá o mesmo. É um erro da democracia que as pessoas confundem as coisas, ao achar que em termos de conhecimento, todos são doutores e professores, sem para tanto terem estudado para tal. Que é um direito natural saber, e não uma aquisição que requer dedicação, esforço e gasto de tempo e dinheiro. Erro conceitual mostrando na sociedade que passa a minimizar a importância do saber, como o pretendido na Universidade de Brasília, na qual estudantes e funcionários desejam votar na mesma para a escolha dos reitores, como se em vez de matéria passiva, os alunos, ou de servidores públicos, se sirvam da mesma como donos, e não como meros produtos da sociedade dentro da mesma, que no final, é quem realmente sustenta a mesma. Aqueles que obtiveram oportunidades de dela participar como alunos ou servidores, desejam assumir a sua propriedade como se fossem os donos da mesma, e não meros beneficiados em detrimento de milhares que lá poderia estar. Absurdo quase consumado ocorrido anos atrás quando um servidor teria sido colocado na lista para aprovação para reitor.

Perseguição às curandeiras

Não vá o sapateiro além das chinelas, diz o ditado. Eis um exemplo do que é permitido pelo editor:

Zero Hora, 12 de abril de 2008 | N° 15569

Artigo

As superbactérias e a busca do equilíbrio, por Virgínia Damasio Pacheco*

Os temores provocados pelas informações sobre as superbactérias resultaram também na divulgação de medidas preventivas contra a ação de microorganismos. Citam-se os exercícios físicos, os cuidados com a alimentação e a ida ao médico regularmente. A estas podemos acrescentar o fortalecimento dos laços afetivos e amorosos, a participação em projetos comunitários e solidários e a busca por autoconhecimento de forma lúdica.

Ao depararmos com a força das superbactérias, encaramos mais um aspecto da fúria da natureza reagindo a nossa teima em nos mantermos submissos às forças do consumo imediatista e da competição destrutiva. Alimentando as superbactérias estão os grandes laboratórios farmacêuticos que nos iludem com pílulas de prazer e soluções imediatas que, ao invés da cura efetiva, debilitam a saúde.

Ao contrário do que a aceleração e o individualismo da vida moderna nos impõem, é necessária uma volta às origens, um resgate da medicina antiga que sucumbiu com a queima das bruxas durante quatro séculos de perseguição às mulheres curandeiras que competiam com os avanços da ciência médica e ameaçavam a centralização do poder econômico e social.

A medicina antiga integra corpo e mente, levando-nos a assumir a responsabilidade por nossa saúde caminhando lado a lado com o curador. Tal medicina não lida com diagnósticos, o que prevalece é o prognóstico. A busca por tratamentos naturais, terapêuticos e preventivos nos fortalece, nos torna críticos de um sistema que vampiriza a saúde e obscurece a sabedoria natural do sistema mente-corpo. Indivíduos em consonância com o ritmo natural do ciclo de vida e do ecossistema vivenciam um sentimento de bem-estar, pertencimento e sentido de realização. Com isso, desenvolvem um sistema imunológico equilibrado, eficaz e inteligente, que mantém sob controle toda ordem de microorganismos que coabitam nosso corpo e o meio em que vivemos.

O uso indevido e indiscriminado dos recursos científicos nos conduz ao lado sombrio do conhecimento, que, ao longo da história, esteve ligado a extermínios em massa, guerras e catástrofes naturais. A reinserção da medicina preventiva, dos cuidados familiares e comunitários, com o resgate do prazer, da solidariedade e do respeito à natureza, pode ser a saída para a dissociação que se estabeleceu entre os seres humanos e seu ambiente. Longe de desmerecer os avanços da ciência, a sabedoria natural e intuitiva se soma à tecnologia para restabelecer a saúde física, emocional e planetária.

*Psicóloga

Flagelos da humanidade

Diz-se popularmente que a memória é curta das pessoas que logo esquecem até mesmo em quem votaram ou o que já ocorreu. ‘Aqueles que esquecem o passado estão condenados a repeti-lo’, escreveu há 100 anos o filósofo hispano-americano George Santayana. É o que me ocorre quando pessoas alegam que a volta aos anos das trevas nos tornarão mais felizes e a nossa vida mais protegida pelo desconhecimento salutar. Realmente estamos enfrentando um desafio terapêutico com as bactérias selecionadas pelo uso de antibióticos e desinfetantes. Mas não podemos esquecer que não fizemos esta seleção para diletantismo, muito menos para vender produtos de laboratórios farmacêuticos. Usamos os mesmos que resultaram nesta seleção dentro das UTIs para salvar pessoas que estavam condenadas a morrerem por serem politraumatizadas, pacientes de cirurgias extensas, pacientes graves de todas as idades com infecções que os levavam certo para a sepultura no passado recente. Mesmo assim, ainda se salva mais do que se perde para estas bactérias resistentes no momento.

Este alegado tempo da felicidade brindado pela ignorância nunca existiu! Bruxas nunca curaram ninguém, e muito menos pessoas que desconheciam a ciência biológica, a medicina científica, e muito menos a alma humana curaram mais do que o acaso. As maiores epidemias registradas pelos historiadores ocidentais foram a peste de Atenas, a peste de Siracusa, a peste Antonina, a peste do século 3, a peste Justiniana e a Peste Negra do século XIV, que duravam décadas. No interregno entre as citadas epidemias, outras de menor vulto foram registradas. Ainda no século 19 Samuel Hanenmann via na simples e banal sarna, vista assim hoje em dia, o mal de toda a humanidade, pois nenhum tratamento existia para solucionar as suas complicações desconhecidas, como a cardiopatia reumática, a febre reumática, a glomerulonefrite, a osteomielite, a erisipela e a sepsis, de que ela era porta de entrada. Pulgas e piolhos infestavam ricos e pobres transmitindo as mais diversas doenças contagiosas, a malária dizimava soldados e trabalhadores, a varíola devastava o mundo em surtos e a água do Tamisa matava mais pela cólera do que as guerras. Nenhuma mandinga usada pelas bruxas holísticas jamais foi eficaz para qualquer destes flagelos da humanidade. Não seria a solução sugerida por quem nem mesmo conhece a história que faria hoje uma solução holística por meios irracionais para enfrentarmos os desafios científicos e tecnológicos atuais.

******

Médico, Porto Alegre, RS

Todos os comentários

x

Indique a um amigo

Este é um espaço para você indicar conteúdo do site aos seus amigos.

O Campos com * são obrigatórios.

Seus dados

Dados do amigo (1)

Dados do amigo (2)

Mensagem