Segunda-feira, 09 de Dezembro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1066
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Carnaval em junho

Por Maria Stella Faciola Pessoa Guimarães em 20/06/2005 na edição 334

‘O jogo de dados de um destino é irracional?

É impiedoso’.

(Clarice Lispector, ‘Restos do Carnaval’)

A Directv avança na sua coleção de episódios em torno de Chico Buarque de Hollanda com recursos da Agência Nacional de Cinema (Ancine). Agora é o quinto da série, veiculado desde 8 de junho e programado até o dia 22. O Estação derradeira, especial para TV, é dedicado à relação do artista com a Mangueira, que teve, como momento mais marcante, o desfile do carnaval de 1998. Chico Buarque de Hollanda se confundiu com Chico Buarque da Mangueira…

Falar da Mangueira, mesmo em junho, é falar de carnaval. Falar da Mangueira e do Chico, mesmo em junho, é falar de carnaval. Aliás, aquilo que acontece fora do tempo próprio já foi tema da obra de Chico: Outra noite do CD Paratodos. Um trecho: Mordo a fruta / Outro é o sumo / Ando pela casa / Com outro prumo / Outra sombra, outono / Chuva temporã. E mais: Outros olhos / No teu rosto / Vou falar teu nome / E já teu nome é outro / Outra bruma / Sombra de outro sonho, alguém / Na manhã de junho / Outono, outubro, além. Portanto, benvinda a extemporaneidade!

Falar da Mangueira e do Chico, mesmo em junho, é falar de um samba de carnaval. Como, por exemplo, Quem te viu, quem te vê… Por que não lembrar agora, em 2005, de Quem te viu, quem te vê, samba de 1966? Quase 40 anos e parece que foi ontem!

Indisfarçável e sublime amor

Volto minha atenção para o Quem te viu, quem te vê. Não posso deixar de ficar embevecida frente a demonstrações do lado sublime de um amor. Especialmente quando é o amor de um casal que não está mais junto e, pelo menos um lado do antigo par, continuando indisfarçavelmente apaixonado pelo outro, canaliza esse sentimento de forma positiva: tanto para predizer felicidade ao ex-amor em novos caminhos e companhia, como para ter os velhos tempos em boa conta quanto a recordações e saldos da vida. Sei que é difícil encontrar tal sentimento, mas, quando acontece, esse amor não pode deixar de ser bonito. É sublime.

Acho – muitos discordam – que é isso que o Chico Buarque de Hollanda apresenta em Quem te viu, quem te vê, cuja letra está rendilhada do romantismo de um indisfarçável e grandioso amor:

‘Você era a mais bonita das cabrochas dessa ala

Você era a favorita onde eu era mestre-sala

Hoje a gente nem se fala, mas a festa continua

Suas noites são de gala, nosso samba ainda é na rua

Hoje o samba saiu procurando você

Quem te viu, quem te vê

Quem não a conhece não pode mais ver pra crer

Quem jamais a esquece não pode reconhecer

Quando o samba começava, você era a mais brilhante

E se a gente se cansava, você só seguia adiante

Hoje a gente anda distante do calor do seu gingado

Você só dá chá dançante onde eu não sou convidado

Hoje o samba saiu procurando você

Quem te viu, quem te vê

Quem não a conhece não pode mais ver pra crer

Quem jamais a esquece não pode reconhecer

O meu samba se marcava na cadência dos seus passos

O meu sono se embalava no carinho dos seus braços

Hoje de teimoso eu passo bem em frente ao seu portão

Pra lembrar que sobra espaço no barraco e no cordão

Hoje o samba saiu procurando você

Quem te viu, quem te vê

Quem não a conhece não pode mais ver pra crer

Quem jamais a esquece não pode reconhecer

Todo ano eu lhe fazia uma cabrocha de alta classe

De dourado eu lhe vestia pra que o povo admirasse

Eu não sei bem com certeza porque foi que um belo dia

Quem brincava de princesa acostumou na fantasia

Hoje o samba saiu procurando você

Quem te viu, quem te vê

Quem não a conhece não pode mais ver pra crer

Quem jamais a esquece não pode reconhecer

Hoje eu vou sambar na pista, você vai de galeria

Quero que você assista na mais fina companhia

Se você sentir saudade, por favor não dê na vista

Bate palmas com vontade, faz de conta que é turista

Hoje o samba saiu procurando você

Quem te viu, quem te vê

Quem não a conhece não pode mais ver pra crer

Quem jamais a esquece não pode reconhecer’.

Ressentimento ou nobreza?

Alguns admiradores do Chico já me disseram que o aspecto predominante do samba Quem te viu, quem te vê é o ressentimento do cantor – eu-poético masculino na primeira pessoa. Eu discordo. Penso que há na letra uma dose – às vezes sutil – de mágoa, sem dúvida. Porém, no caso, mais forte que a dor, é a nobreza. O que prevalece é o amor sublime. Eu acho assim.

Não sei o que pensam os internautas e outros que estão lendo este artigo agora. Comunico a vocês que o principal argumento em defesa do meu ponto de vista é o trecho: Se você sentir saudade, por favor não dê na vista / Bate palmas com vontade, faz de conta que é turista. É puro amor sublime!

O poeta valoriza e enaltece a mulher quando se despoja de sua visão masculina e ressentida para aceitar e assumir o interesse feminino.

É lógico que esse ângulo de visão marcante do autor em defesa do feminino – aliás, uma tônica na obra de Chico – não anula o sentimento de dor e carência masculinas, mas parece prevalecer sobre este.

Leio, portanto, como se o cantor admitisse a perda da amada, mesmo com sofrimento, mas aceitasse o engajamento da cabrocha em outra esfera social – ela acostumou de princesa e dá chá dançante onde ele não é convidado.

Todos vêem que a obra de Chico descreve um casal que já esteve junto e se separou. Hoje pertencem a sociedades diferentes, mas antes estiveram lado a lado no mundo de uma escola de samba. A moça, depois da troca de vida, fica irreconhecível – daí a expressão Quem te viu, quem te vê –, mas ainda gosta de samba e assiste de camarote. Gostar de samba aí pode ser uma metáfora e significar que ela ainda ama o antigo amor – o mestre-sala -, mas que razões outras não detalhadas na canção (talvez um mundo mais rico, talvez outro companheiro) teriam indicado a separação do casal.

Observem o quarteto que é estribilho. Notem que, apesar da letra usar o tratamento de você, há exceção: Quem te viu, quem te vê. No verso principal, que dá nome à canção, o cantor transgride regras gramaticais, talvez para concentrar a atenção dos ouvintes e admiradores – a rotina gramatical é quebrada -, mas também para manter íntegro e inalterado em sua forma o adágio mais popular que é Quem te viu, quem te vê.

Entendo até que no verso Quem te viu, quem te vê está inserida toda a explicação para a separação do casal: ela não é mais a mesma, não é possível recuar no tempo e nem desfazer as circunstâncias que ele gerou. Mas isso não mata o amor, mesmo que sua fruição seja sui generis, à distância, como lembrança agradável de um grande passado que, no entanto, não pode ser presente. Vejo uma espécie de cumplicidade e forte solidariedade embutidas no verso Se você sentir saudade, por favor não dê na vista / Bate palmas com vontade, faz de conta que é turista. É o apogeu da canção, com nova transgressão gramatical.

Leio, dessa forma, que o cantor tem quase certeza de que é correspondido nos seus sentimentos, mas é solidário com a amada e diz Se você sentir saudade, por favor não dê na vista / Bate palmas com vontade, faz de conta que é turista. Nesses versos, possivelmente os mais bonitos da obra de arte, fica plantada uma dúvida: o retorno à vida a dois é, paradoxalmente, ao mesmo tempo, iminente e impossível, face às circunstâncias do destino. É uma espécie de limbo: tudo ou nada por um pouco, tudo ou nada por um triz.

Enfim, não tiro o peso e a importância do lado musical de Quem te viu, quem te vê no trabalho de Chico. É possível, também, que o sambinha gostoso contribua, na minha cabeça, para eu enxergar menos a mágoa e mais a sublimidade. Assim, decididamente, insisto que não vejo o cantor dar no samba um troco amargo da sua dor, por mais impiedoso que seja o destino.

Forma e paralelos musicais

Quanto à forma, a letra de Quem te viu, quem te vê tem 10 estrofes, cada uma composta de 4 versos. Dentre as estrofes, que são quartetos, há dois tipos: as de ordem ímpar possuem métrica perfeita (são isométricas) – 15 sílabas por verso – e as de ordem par são todas 5 iguais, correspondem ao estribilho ou refrão, recurso que, nos intervalos regulares, valoriza e ajuda a fixar a canção: Hoje o samba saiu procurando você / Quem te viu, quem te vê / Quem não a conhece não pode mais ver pra crer / Quem jamais esquece não pode reconhecer.

O poeta não descuidou das rimas. Elas ocorrem em todos os versos. São rimas paralelas do tipo ‘AABB’ que garantem sons iguais nos finais dos versos, dois a dois.

Como os versos são longos, é possível notar no desenvolvimento das sílabas, a cesura, uma espécie de pausa que divide versos em partes.

Quem te viu, quem te vê foi construída quando Chico era muito moço – 22 anos – e mesmo assim já fazia sucesso com um acervo musical brilhante e vasto. Na ocasião, Chico foi muito comparado ao compositor Noel Rosa, tanto por essa produção fecunda em tenra idade, como pela escolha de sambas na linha de Quem te viu, quem te vê.

Outros paralelos eram feitos entre Chico e Noel: ambos pertenciam à classe média, estudaram em bons colégios, fizeram faculdade sem concluir. Vejam a observação da escritora Maria Helena Sansão Fontes: ‘Noite dos mascarados e Quem te viu, quem te vê, ambas de 1966, são canções em que Chico Buarque parece ter bebido da mesma fonte de Noel Rosa’. A autora fundamenta seu raciocínio nos temas abordados nas composições de Chico e de Noel: casal de apaixonados de classes sociais distintas, opção pela vida simples e valorização do samba nas letras.

Quem te viu, quem te vê está no segundo LP de Chico, cujo nome é Chico Buarque de Hollanda – Vol. 2, de 1967. Depois, com outro arranjo, Chico gravou a canção no CD Uma palavra. Foi cantada no show ao vivo de Chico e Maria Bethânia em 1975 e em As cidades, também ao vivo, de 1999. Quando Almir Chediak produziu o songbook da obra de Chico, a sambista Beth Carvalho foi a intérprete escolhida para cantar Quem te viu, quem te vê. Gosto muito de outras gravações, como a de Gal Costa no disco Mina d’água do meu canto, a de Leila Pinheiro em Coisas do Brasil, a de Simone no CD Simone Bittencourt de Oliveira, e a de João Nogueira na série Letra e Música de Almir Chediak. Reparem um detalhe: há muitas mulheres que cantam Quem te viu, quem te vê, apesar do eu-lírico masculino.

Chico Buarque e Rubem Braga

O capixaba Rubem Braga (1913 / 1990) foi escritor e jornalista. É considerado por muitos críticos e estudiosos o maior cronista brasileiro de todos os tempos. Suas crônicas, simples e despojadas, são baseadas no dia-a-dia.

Cronista diário, portanto, Rubem publicou várias coletâneas de crônicas. Dentre elas, O Verão e as Mulheres – cujo nome em edições anteriores é A Cidade e a Roça – reúne trabalhos organizados em 1956. Foi considerado por Manuel Bandeira o melhor livro de Rubem Braga.

No exemplar, destaco Encontro de 1953. São páginas de encantador lirismo. Tratam do reencontro fortuito de um casal, muitos anos depois do fim do caso de amor.

Quando ocorre o encontro, vejam como o autor descreve esse momento:

‘Com atenção não seria difícil descobrir pequenas mudanças: os cabelos mais claros, e entretanto com menos luz e vida; a boca pintada com um desenho diferente, e o batom mais escuro. Impossível negar uma tênue, fina ruga – quase estimável. Mas naquele instante, diante da antiga amada que não via há muito tempo, não eram essas pequenas coisas que intrigavam o seu olhar afetuoso e melancólico. Havia certa mudança imponderável, e difícil de localizar – a voz ou o jeito de falar, o tom ao mesmo tempo mais desembaraçado e mais sereno?’

Isso é como Quem te viu, quem te vê, não é?

Nesse encontro retratado por Rubem, na crônica em que está presente a figura do narrador, o antigo casal faz parte de um grupo maior, eles não estão sozinhos. Pinço mais um trecho:

‘Ele tentou imaginar que impressão teria agora se a visse pela primeira vez, se aquela imagem não estivesse dentro dos seus olhos e de sua alma, fundida a tantas outras imagens dela mesma perdidas no espaço e no tempo. Não tinha dúvida de que a acharia muito bonita, pois ela continuava bela, talvez mais bem vestida; não tinha dúvida mesmo de que, como da primeira vez que a vira, receberia sua beleza como um choque, uma bênção e um leve pânico, tanto a sua radiosa formosura dá uma vida e um sentido novo a qualquer ambiente, traz essa vibração especial que só certas mulheres realmente belas produzem’.

No meio de outras pessoas, o casal se despede sem ter chance de conversar. Nesse momento da despedida, vejam como o cronista fecha seu texto:

‘Quando estendeu a mão àquela que tanto amara, e recebeu, como antigamente, seu olhar claro e amigo, quase carinhoso, sentiu uma coisa boa dentro de si, uma certeza de que nem tudo se perde na confusão da vida e que uma vaga mas imperecível ternura é o prêmio dos que muito souberam amar’.

Eu repito: ‘nem tudo se perde na confusão da vida’. E repito mais: ‘uma vaga mas imperecível ternura é o prêmio dos que muito souberam amar’.

Fecho com Clarice: retorno à epígrafe

Concordem com a minha leitura de Chico Buarque e de Rubem Braga: não é só quando um casal vive e permanece junto que o amor é grande. Certo? Ele pode ser até maior quando há separação. Especialmente aquela em que os dois, mesmo se amando, vislumbram motivos fortes para não continuarem lado a lado. E aí cada um deseja a felicidade do outro. E ambos, renunciantes, por circunstâncias (às vezes, inexplicáveis) da vida, seguem seus caminhos individualmente e distantes. Mas o amor pode continuar e ficar guardado como coisa boa em cada coração. Permanece como sentimento. Para quem tem estesia, para quem vê com sensibilidade – Chico, Rubem, seus simpatizantes e tanta gente mais -, ele é indisfarçável e sublime. Mesmo sendo impiedoso o destino. Ah! Impiedoso destino do jogo de dados que é a vida… Como no texto clariceano da epígrafe.

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