Sexta-feira, 15 de Novembro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1063
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Lutero, Século XXI

Por Lycio de Faria em 30/10/2006 na edição 405

Lutero nunca havia se preocupado com seu nome, inclusive porque nenhum amigo o chamava por ele. O que prevalecia, desde sua infância, era o apelido: Lulu.

Aquela indiferença desapareceu com a coincidência de ele ter lido, quase simultaneamente, uma biografia do fundador do protestantismo e um livro sobre a doutrina da reencarnação.

A partir de então, não pensava em outra coisa. Naquele dia, enquanto caminhava pelo calçadão de Copacabana com seu amigo Frederico, comentou:

– Sabe o que eu estive pensando? Eu talvez seja a reencarnação de Martinho Lutero, que morreu em 1546.

– Tá ficando maluco, Lulu?

– Não, eu falo sério. São impressionantes as coincidências, a começar pelo nome.

– Deixa de besteira, os Luteros de hoje são milhares, talvez milhões. Por que você seria diferente de todos os outros?

– Não é só o nome. Eu, como o Lutero medieval, sou um intelectual. Você bem sabe que, antes de me casar e passar a trabalhar como jornalista, eu era um monge. Havia me dedicado profundamente ao estudo de filosofia, direito e teologia. Entretanto, apesar de toda a sapiência adquirida, eu sinto certa frustração por não saber como combater o que de errado vejo à minha volta, especialmente no próprio setor onde trabalho.

– E o que tem isso de novo? Sócrates, muito antes de teu pretenso antepassado, já dizia: ‘só sei que nada sei’.

– A questão não é temporal, é de identidade de sentimentos. Eu sinto exatamente o que o meu ‘ancestral’ sentia. A rigor, porém, não se trata de ancestralidade, pois não me considero um descendente do famoso reformador. O que creio é ser uma reencarnação de sua alma.

– Você se diz intelectual e me vem com essas baboseiras espiritualistas. Esse negócio de reencarnação não existe. Ouça a sabedoria popular. Quando a gente morre vai é para o beleléu. Finis, já era e pê tê, saudações.

– Não adianta argumentar com você. Você é um bruto, um materialista sem o menor vestígio de sensibilidade metafísica. Eu, não, eu creio na transcendência da condição humana.

– Pirou de vez!

– Pode debochar que eu nem me importo. O certo, porém, é que eu, como o meu homônimo, sinto que os ‘papas’ de minha ‘igreja’, a mídia, estão traindo os seus mais sagrados princípios, usando-a apenas para a satisfação de sua ânsia insaciável de riqueza e poder.

– Cuidado, Lulu, se seus superiores souberem dessas suas idéias você acabará sendo excomungado e morrerá à míngua, como um cão sarnento.

– Não creio. O Lutero original enfrentou forças mais poderosas e mais vingativas do que a dos pecadores atuais e acabou bem sucedido. A própria Igreja reconheceu seus erros e corrigiu a maioria deles, para o bem da Humanidade. Sinto-me um predestinado e se conseguir êxito, minha existência não terá sido em vão.

– E o que você vê de tão errado na mídia?

– A lista de deformações é imensa, mas o principal da ação deletéria sobre a mente das pessoas ocorre quando ela (sobretudo em seu segmento televisão):

** glorifica o sucesso (especialmente o financeiro), não se importando em apurar como (e à custa de quem) ele foi obtido; Assis Chateaubriand, por exemplo, é um ícone da inescrupulosidade, mas até hoje sua memória é reverenciada como a de um expoente de nossa cultura;

** eleva a esperteza (leia-se: egoísmo) ao pódio máximo das virtudes brasileiras;

** adota a permissividade e a violência como formas quase exclusivas de entretenimento;

** debocha da disciplina, do respeito aos pais, aos professores e a qualquer forma de autoridade legítima – ‘ninguém é de ninguém!’; debocha do civismo e de praticamente todos os valores morais que são os fundamentos da civilização;

** mente, despudoradamente, ou deforma sutilmente a verdade, sempre que isso convém a seus interesses.

– Qual! Você é um caso perdido. Acho que está mais para Dom Quixote do que para Lutero.

Lulu não se ofendeu com a observação do amigo. Foi para casa, trancou-se no escritório e de lá só saiu quando acabou de redigir e imprimir 95 teses expondo suas idéias.

No dia seguinte, logo cedo, afixou o documento na porta de entrada da ABI.

Um faxineiro que o observava perguntou:

– Moço, por que o senhor emporcalhou a porta que eu tinha acabado de limpar?

– Eu quero que o mundo veja como os Templos da Notícia estão infestados de vendilhões e me ajude a expulsá-los de lá.

– Ah, moço, o mundo não passa por aqui. Se o senhor quer encontrar o mundo, por que não usa a televisão?

– Eu não tenho dinheiro para isso.

– Então use a internet. As mensagens ali ainda são de graça…

******

Administrador de empresas aposentado, escritor, Rio de Janeiro

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