Quarta-feira, 18 de Julho de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº996
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MOSAICO > MÍDIA DO ESPETÁCULO

O jornal nosso de cada dia

Por Oscar Araripe em 11/04/2005 na edição 324

Pois que então o jornalismo enfim chegou ao sacerdócio? Já desconfiava, diria um velho jornalista, para o qual esse sempre fora um sacerdócio. Um perigoso sacerdócio, sempre. Mas qual sacerdócio? Que perigo?

Jornalismo e religião vêm sendo atachado ao dinheiro, às armas, à justiça e à política do sacerdócio do poder político, os pais e as mães deste mundo horrível, onde somos atores à força, via cruz de adagas terríveis, cuspindo fogo nos restaurantes, tudo sendo e não sendo.

Desinformados na essência e na superfície, estamos todos virando soldados da religião, de idades bárbaras, cegos e carbonários, que a tudo destroem com seus dedos de clicks. Onde estamos, onde estávamos? E quousque tandem? E onde está a tevê que não me vê? Estaria eu, sábio velho Don Quixote, mudo e surdo e sem visão, ali naquela Roma Imperial, aos funerais do papa das religiões? O papa dos Estados Unidos, o papa de todos? O papa do jornalismo, da WWW Brasil, o papa do Brasil e do mundo? O papa do México e do Muro do México? O Pai. O nosso e de todos os dias.

Simples caixão

Grande pai, belo pai, porém, que trazia algo de arte e paralelismo do fundo de sua intuição polonesa, algo muito pessoal, étnico, secreto, místico – um imenso paradoxo de universos universais, abismal. Talvez Cristo estivesse querendo dizer por seu pontífice máximo que os homens já não precisariam das religiões, doravante, ou dessas religiões, e que devessem apenas ser coisas do passado. Exceto a pessoal, que ele, o último papa, tinha nata e naturalmente. Último papa? Papa rebelde. Seria ele então o primeiro?

Grande papa do paradoxo, hamletiano ator, renascerá certamente em glória, no sétimo dia, reabrindo a Teologia da Libertação, de páginas tão belas e inadiáveis, libertando a pessoa para suas decisões pessoais e intransferíveis, fraterno e verão amor, capaz de nos acessar à célula-mater, intimamente, à íntima religião, ao íntimo amor. Qualquer amor. Um antipapa? Clássico papa.

A arte parece criar a vida e esta as cores, apagando as rudes tintas e fazendo da vida cor. Tudo vida. Por certo que a arte popular é a arte dos pobres, embora a arte contemporânea, ainda que seja para os ricos, não é a arte dos ricos. Paradoxos paradoxais. Amar a si e ao próximo. Tortas linhas tão sábias. Fora da arte não há salvação. Ela, que a tudo redime e dá direção. Caminhos impensáveis, maquinações naturais, tudo movendo a arte do mundo.

Pobre mundo sem arte, onde arte e cultura ainda permanecem fora do Primeiro Caderno, abrindo caminho para o valoroso Caderno do Espetáculo. Paulo Coelho. Nobre cruz, papa da arte, estranho cálice, o que fazer senão morrer? Morrer para espetacular, em caixão simples, simples caixão para uma cripta de santos. Script e espontaneidade. Ordeiro povo sofrido de poloneses, geração de idos, como nós, inocentados homens das cavernas, mulheres barradas no baile, tudo passa sobre a Terra, que a tudo engole. Impecável o povo.

Ou estaria eu mais uma vez enganado?

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Pintor e escritor

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PRIMEIRAS EDIçõES > VÍCIO ITINERANTE

O jornal nosso de cada dia

Por lgarcia em 23/10/2002 na edição 195

VÍCIO ITINERANTE

Paulo Rebêlo (*)

Dizem que ler jornal todos os dias é um vício similar ao fumo: quando você consegue parar, fica se achando um tolo porque vê que não é tão difícil assim e que aquele vício, na prática, não lhe acrescentava nada e você pode viver muito bem sem ele. Talvez seja por isso que, em alguns locais do Brasil, o jornal-papel é carinhosamente apelidado de "o mentiroso". Chegou o mentiroso, cadê o mentiroso, embrulha o peixe com o mentiroso.

No início, você acorda, toma café e sente falta de algo ? mas não tem o jornal para ler, então termina se acostumando, mesmo que a duras penas. Pensa em ir até a esquina comprar, mas dá preguiça e você disse a si mesmo que tem força de vontade em resistir.

Depois, chegam as conhecidas crises momentâneas de abstinência, o organismo (no caso, aqui, o intelecto) sente falta. É quando começa a sensação de ser um alienígena ? no caso, aqui, um alienado.

Com o passar do tempo, mesmo já habituado à liberdade, as crises às vezes voltam. Você vê uma pessoa lendo o jornal na praça e tenta não cair em tentação, que significa pegar um caderno qualquer e proferir a clássica: "Você já leu esse?"

Acontece que o mal está sempre nos detalhes. No táxi, o motorista indaga se você viu a "última da Regina Duarte".

? Morreu?

? Não! Falou que o Lula era analfabeto, ou algo parecido.

? Mas ela não é atriz? O que tem a ver com eleição?

? Botaram ela para falar no guia eleitoral e está todo mundo comentando. Você não viu mesmo? Foi há três dias e até hoje não param de comentar nos jornais!

? Ah… não vi. Muito trabalho, sabe?

? Pensei que o senhor estivesse de férias aqui nesse fim de mundo. Trabalha com quê?

? Eu sou jor….alheiro. Bom, acho que desço aqui mesmo, obrigado.

Um alienado total, é assim que você se sente em plenas férias depois de um diálogo do gênero. E fica pensando se foi uma boa idéia a resolução de que, durante as férias, o mínimo que você poderia fazer era se distanciar dos jornais para não continuar com a cabeça tão focada em lides, aspas, personagens etc.

Como o disco rígido mental parece ser mais burro do que o de computador, você aproveita as férias para procurar pautas interessantes nas cidades de interior por onde passa. Mas consegue resistir. Dá uma canja e chega a tirar as teias de aranha da câmera fotográfica, tenta se sentir menos extra-terrestre e, quando perguntam, responde que é repórter-fotográfico. Ou joalheiro…

E na última semana de férias, vê que não tem mais jeito. Chega à conclusão de que é um viciado, drogado, dependente, e que não adianta resistir. A crise é terminal. Já não é mais o intelecto que sente falta, é o organismo.

Não é o lirismo de segurar o papel, sujar as mãos, dobrar as páginas. É o de manter-se informado (apesar do "mentiroso"), de saber os acontecimentos e mazelas da sua cidade, onde estão as exposições de arte, as peripécias políticas, as enchentes, assaltos, o dólar brincando de gangorra. Mesmo que tudo isso não mude em nada a sua vida.

Mas o pior ainda está por vir.

Você pega o mapa e percebe que ainda está a 4.000 km de casa. Conclui que, pegando a estrada naquela mesma hora, ainda irão faltar seis dias (sem pausas para fotos) até chegar em casa, à poltrona confortável de leitura (parcelada em 6 vezes sem juros) e à internet rápida que lhe permite, diariamente, "perder" três a quatro horas da sua manhã para ler os principais jornais do país e das gringolândias, à distância de um clique. Sem contar os semanários e as boas revistas eletrônicas na web.

É um vício. Uma droga. E multiplicando por dez e elevando ao cubo, é o resultado da maioria dos joalheiros, digo, jornalistas, que trabalham em redação. O organismo não sabe mais viver sem. Será que a solução é pedir demissão? Mas aí vai sobrar tempo para ler ainda mais. Mudar de ramo, talvez?

Só se for para comprar uma banca de revistas ou virar gazeteiro.

(*) Jornalista, correspondente no Brasil da Wired.com e subeditor do Webinsider.com.br; <www.rebelo.org>

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