Quinta-feira, 23 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

MOSAICO > ENCÍCLICA PAPAL

O papa e o amor

Por Gabriel Perissé em 30/01/2006 na edição 366

O papa Bento 16 acaba de publicar sua primeira encíclica: Deus caritas est. A versão em português encontra-se no site do Vaticano, ao lado do original em alemão, e das demais traduções para o latim, espanhol, inglês, francês etc. Tema central: o amor.

O pano de fundo não é o amor. O papa está preocupado com doutrinas fanáticas e terroristas, que não poucas vezes se referem à Divindade como princípio inspirador. De fato, se em nome de Deus fala-se em vingança e até no dever do ódio e da violência, a mensagem papal ganha atualidade e urgência.

A parte inicial do texto é especulativa. Ratzinger não nega sua trajetória intelectual, seu diálogo com a filosofia. Traz uma consideração de Nietzsche sobre a relação entre eros e cristianismo, e a partir daí analisa o amor, trazendo, evidentemente, a contribuição da teologia católica.

No segundo momento do texto refere-se aos aspectos práticos do amor num mundo em que prevalecem o interesse e a busca do poder. O amor cristão purifica-nos da cegueira ética? Pode a mensagem evangélica livrar-nos do egoísmo? O papa aposta que sim. Por isso menciona três vezes Madre Teresa de Calcutá (já beatificada), símbolo contemporâneo da entrega incondicional aos mais pobres entre os pobres.

O de sempre

Caridade é importante, mas justiça também. Amor reduzido a esmola não é caridade perfeita. O papa puxa (de leve) a orelha dos cristãos leigos que devem lutar por estruturas sociais justas, o que, por outro lado, jamais resolverá nossa íntima necessidade de amor.

A encíclica não é nada do outro mundo. O papa não escreveu para causar polêmicas. Até mesmo sua referência ao marxismo é serena, quase anacrônica. Está preparando o terreno para novas cartas, mais incisivas? O vaticanista Luigi Accatoli considerou o texto pouco acessível para o leitor médio. O caráter marcadamente teológico não deixa em evidência que rumos concretos o pontificado quer tomar.

A encíclica reafirma o papel de homem de transição que Bento 16 assumiu. Não há o que inventar: Deus é amor. Sem grandes condenações, trata-se de assegurar o essencial, e o essencial é o de sempre: as virtudes, a oração, o exemplo dos santos.

João Paulo II lamentava que poucos lessem (e entendessem) suas encíclicas. Ratzinger conhece o seu ‘leitorado’. Esta primeira encíclica, com quase 80 páginas, não será best-seller, nem mesmo dentro da Igreja.

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Doutor em Educação pela USP e escritor; www.perisse.com.br

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