Domingo, 19 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

CIêNCIA > EDUCAÇÃO E FUTURO

Os novos escravos

Por Gabriel Perissé em 25/10/2005 na edição 272

Palavras de Cristovam Buarque no Jornal do Commercio (Recife, PE) de 21/10/05:




Os dias 12 e 15 de outubro ainda não são datas iguais ao 13 de maio, porque apesar de ter ficado incompleta, a abolição foi proclamada. Mas ainda não proclamamos a libertação das crianças e professores. O Brasil ainda tem tempo de salvar seu futuro. O futuro que passa pelas crianças, o futuro construído pelos professores. Temos os recursos para fazê-lo. Temos a consciência da necessidade. Precisamos despertar.


Despertar? Logo, estamos dormindo. Ou distraídos. E como despertar? Cristovam Buarque, discípulo confesso de Darcy Ribeiro, poderia liderar uma revolução educacional como o seu mestre tentou fazer?


Outras perguntas. Se precisam de libertação, professores e alunos são escravos, mas escravos de quê? Ou de quem? E, proclamando sua libertação, como completaremos o processo libertador, que incompleto ficou no caso dos negros? Libertados, os professores poderão construir o futuro? Como pode um ex-escravo construir seu futuro se até ontem seu presente estava enclausurado?


E as crianças, como libertá-las? E do quê? O futuro das crianças é o futuro do país. A criança semi-analfabeta está presa, e acorrentado está o país em que ela habita.


A mentalidade escrava é a pior das escravidões, pois faz do escravo um eterno escravizado, mesmo depois de rompidas as algemas. A libertação para valer deve prevalecer antes da proclamação. A alforria se adquire antes que o escravocrata, tolerante como ele só, aceite conceder ao escravo os benefícios da liberdade.


O ex-ministro afirma: temos recursos e consciência. Não temos forças, porém, para descruzar os braços, seguir a consciência, aplicar os recursos. Estamos paralisados. Ou quase. Na realidade, não só professores e alunos são escravos. Também escravos (da letargia) são os que poderiam proclamar a libertação daqueles outros escravos; faltam-lhes forças até para proclamar…


Nemo dat quod non habet… Ninguém dá o que não tem. Como podem os escravos da inércia libertar os escravos da ignorância? Como podem os escravos da malícia… libertar os escravos das contingências históricas? Quem é autenticamente livre para libertar?


Este artigo já esgotou sua cota de perguntas. Há limites para tudo, até para a perplexidade.


Discordo de Cristovam Buarque num ponto – já não temos tempo de salvar o futuro do Brasil. Sabendo que o prazo acabou, veremos claramente a necessidade de escolher: a liberdade ou a morte…

******

Doutor em Educação pela USP e escritor; (www.perisse.com.br)

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