Quarta-feira, 19 de Setembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1005
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MOSAICO > MARGUERITE DURAS

Sobre o jornalismo

13/04/2004 na edição 272

Não há jornalismo sem moral. Todo jornalista é um moralista. É absolutamente inevitável. Um jornalista é alguém que observa o mundo e o seu funcionamento, que diariamente o vigia de muito perto, que faz ver e rever o mundo, o acontecimento. E não consegue fazer este trabalho sem julgar o que vê. É impossível. Em outras palavras, a informação objetiva é um logro total. Uma impostura.

Não há, de fato, jornalismo objetivo. Consegui desembaraçar-me de muitos preconceitos dentre os quais este é, em minha opinião, o principal. O de acreditar na objetividade possível do relato de um acontecimento. Escrever para um jornal significa escrever de imediato. Sem esperar. Daí o fato de a escrita ter de ressentir-se desta impaciência, desta obrigação de andarmos depressa e de sermos um pouco descuidados.

Esta idéia de negligência na escrita não me desagrada. Sabem, às vezes eu fazia artigos para os jornais. De vez em quando, escrevia para o exterior, quando esse exterior me submergia, quando aconteciam coisas que me deixavam louca, outside, na rua – ou quando não tinha nada melhor para fazer. Acontecia. Foi assim que, por diversas razões, apareceram artigos meus nos jornais. A primeira dessas razões era sem dúvida para me obrigar a sair do quarto. Nessa altura, escrevia livros oito horas por dia. Enquanto escrevia livros não fazia artigos. Era nos espaços livres, nos momentos vazios que me sentia agarrada pelo exterior. Creio que enquanto escrevia livros nem mesmo lia jornais. Isso não se coadunava com o resto, eu não compreendia o que se passava.

Escrever artigos era sair para o exterior, era meu primeiro cinema. Havia outras razões, uma das quais a falta de dinheiro. Qualquer artigo da Vogue é importante para a subsistência. Além disso, era solicitada, prometia fazer crônicas regulares para o France Observateur e, depois, era obrigada a respeitar os prazos, como aconteceu com o Libération em 1980. As razões que me levaram a escrever para os jornais advêm também da mesma força irresistível que me encaminhou para a resistência francesa ou argelina, antigovernamental ou antimilitarista, antieleitoral etc., e que me arrastou tal como a vocês, como a todos, para a tentação de denunciar o caráter intolerável de qualquer espécie de injustiça, quer sofrida por um povo inteiro quer por um único indivíduo: força que igualmente me conduziu ao amor quando ele se torna louco, quando abandona a prudência e se perde no crime, na desonra, na indignidade, e quando a imbecilidade judiciária e a sociedade se permitem opinar sobre isso, a natureza, como se estivessem opinando sobre a tempestade ou o fogo.

Penso, por exemplo, no primeiro artigo que escrevi e que desejaria que iniciasse o livro: “As flores do argelino “; em Nadine d’Orange, no “Viralatas” e no “Tabuinha”, crianças da Assistência Pública decapitadas aos dezoito anos, em 1958, bem como em todas as entrevistas com George Figon, meu amigo, libertado após quatorze anos de prisão; penso também muito em Simone Deschamps de Choisy-le-Roi. Houve artigos provocados pelo exterior e que gostei de fazer. Houve também as chatices feitas por razões de subsistência para a Constellation, que eu assinava com o nome de minha tia Thérèse Legrand, e hoje desaparecidas.

E todos aqueles romances que nós, um grupo de jovens que não voltaram a encontrar-se, escrevemos durante a guerra para podermos comprar manteiga, cigarros e café no mercado negro. Vários artigos se perderam, entre os quais um sobre Callas, que eu nunca vira cantar e que, à falta de melhor, me ajudou a viver durante um ano. Esqueci outros tantos. O que não aconteceu com os livros.

Nunca esqueço os livros. Esqueci bastante da minha vida. Salvo a minha infância e as aventuras que pude viver para for a das normas do cotidiano. Da vida de todos os dias não sei quase nada. Exceto da minha infância. O resto representa uma massa de acontecimentos paralelos à minha vida. Tem a ver com os motivos acima apontados e outros mais, sempre diferentes, como diferentes são os encontros, as amizades, as circunstâncias do amor ou da tragédia.

É claro que a idéia de publicar estes textos não foi minha, jamais teria pensado numa coisa dessas. Foi de Jean-Luc Hennig, diretor da coleção Ilustrations da editora Albin Michel, a idéia desta publicação. E pergunto a mim mesma: por que não? Por que este pudor repentino? Se apenas se publicasse o que se escreve hoje, e não o que se escreveu ontem, não haveria escritores; se se gostasse somente dos assuntos de hoje e não dos de ontem, nada existiria, senão a esterilidade do presente, este também um logro.

Ainda uma observação: enganei-me várias vezes. Reivindico esse direito. Não revi os artigos, nem voltei a lê-los. Foi Yann Andrea quem o fez por mim. Deixei que o fizesse. Isso já não me diz respeito.

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