Terça-feira, 21 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

MEMóRIA > J.D. SALINGER (1919-2010)

O ícone recluso

02/02/2010 na edição 575

Escritor que ajudou a redefinir o sentido da adolescência e, por extensão, também da vida adulta no século 20, J.D. Salinger expôs as hipocrisias da sociedade moderna em seus livros e rejeitou-as de maneira radical em sua vida, fechando as portas para o mundo depois que seus livros se tornaram best-sellers aclamados por críticos e leitores. Após quatro obras que lhe valeram a reputação de mais talentoso autor americano surgido no pós-guerra, Salinger publicou apenas mais uma história na revista New Yorker (em 1965) e desde então recolheu-se ao silêncio numa casa em New Hampshire, evitando o assédio dos fãs e da imprensa e rejeitando ofertas de adaptações de seus livros para o cinema – o que apenas aumentou a curiosidade em torno de sua figura.

Jerome David Salinger nasceu em 1º de janeiro de 1919, em Manhattan, Nova York. Seu pai era judeu, filho de um rabino, e sua mãe, escocesa, de ascendência irlandesa. Ele teve apenas uma irmã, Doris, que morreu em 2001. Salinger se tornou um escritor famoso com seu livro de estreia, o romance O apanhador no campo de centeio, de 1951. Seu protagonista era o adolescente Holden Caulfield, de 17 anos, que narrava em tom coloquial a história da crise nervosa que o levara a ser internado numa clínica psiquiátrica. Assumindo o ponto de vista do rapaz para descrever, em primeira pessoa, uma vida financeiramente confortável, mas emocionalmente abalada, Salinger deu expressão à alienação de toda uma geração de adolescentes diante dos valores da sociedade americana e construiu um personagem que se tornaria um ícone da juventude e da contestação da vida burguesa.

Obra inspirou filmes e músicas

Estima-se que O apanhador no campo de centeio tenha vendido 60 milhões de exemplares, número que cresce ano a ano. Quando ele foi lançado, o Clube do Livro dos EUA o recomendou dizendo que seria para ‘qualquer um que já tivesse criado um filho, uma fonte de maravilhas, deleite – e preocupação’. As reações enfáticas de Holden a tudo que lhe parecia phony (falso, fingido) à sua volta, suas pragas constantes (goddamn, algo como ‘maldito’) e alguns palavrões, além do próprio enredo sobre uma crise nervosa, contribuíram para que o livro recebesse críticas de conservadores. Entre 1961 e 1982, a obra foi a mais censurada nas escolas e bibliotecas dos EUA, onde, no entanto, se tornou leitura obrigatória para os estudantes.

Filmes como Rebelde sem causa, A primeira noite de um homem e Sociedade dos poetas mortos foram influenciados por O apanhador

Outros, como Noiva neurótico, noiva nervosa, de Woody Allen, e O iluminado, de Stanley Kubrick, chegaram a colocar o livro na tela. Apesar disso, Salinger se recusou sucessivamente a permitir uma adaptação do livro para o cinema.

Também na música, a influência da obra foi grande.

Canções de grupos como Beastie Boys, Belle and Sebastian, Ace of Base, Green Day e Jonas Brothers, citam O apanhador… ou seu protagonista. O último disco dos Guns ’n’ Roses tem uma canção intitulada Catcher in the rye (o título em inglês do livro é The catcher in the rye). O livro foi citado até como inspiração de um assassinato – Mark David Chapman levava consigo um exemplar do romance em 8 de dezembro de 1980, quanto atirou em John Lennon em Nova York. Mais tarde, ele alegou que aquele ‘livro extraordinário ajudaria as pessoas a entenderem o que aconteceu’.

Logo após O apanhador…, Salinger escreveu uma série de contos para a New Yorker e outras publicações, muitos retratando a fictícia família Glass. Nove deles fazem parte da coletânea Nove estórias, publicada em 1953. Em 1961, ele lançou seu terceiro livro, Franny e Zooey, composto de um conto e de uma novela, ambos publicados anos antes na New Yorker.

Seu quarto e último livro foi Carpinteiros, levantem bem alto a cumeeira & Seymour, uma apresentação, composto de duas novelas. O último texto publicado de Salinger é Hapworth 16, 1924, editado na New Yorker de 19 de junho de 1965. A novela é uma carta escrita por Seymour Glass para casa, aos 7 anos, de uma colônia de férias.

‘Todos que trabalham na New Yorker, ainda hoje, décadas depois do seu silêncio ter começado, o fazem com uma consciência aguda da voz de J.D. Salinger’ – declarou ontem o diretor da revista, David Remnick. ‘Ele é tão lido nos EUA, e com tal intensidade, que é difícil pensar em qualquer leitor, novo ou velho, que não carregue consigo as vozes de Holden Caulfield ou dos membros da família Glass.’

Na web, textos inéditos em livro

Hapworth 16, 1924 é uma das 22 histórias de Salinger publicadas em revistas, mas nunca lançadas em livro. O editor proibiu a publicação dos textos, embora uma edição pirata deles tenha circulado clandestinamente por livrarias dos EUA. Todos os textos podem ser lidos aqui.

Enquanto ia publicando seus contos e novelas, Salinger também foi se afastando dos olhares públicos. Em 1952, ele se mudou de Nova York para New Hampshire. Três anos depois, o autor se casou com Claire Douglas, com quem teve dois filhos, Margaret e Matthew – o casal se divorciou em 1967.

O autor ficou famoso por recusar entrevistas e evitar contato com seus leitores. Parou de publicar e virou quase sinônimo de reclusão artística. Era como se a desilusão de Holden com o mundo tivesse contaminado seu autor. Há vários relatos, porém, de que ele continuou a escrever em seu refúgio.

Também foram notórias as tentativas mal-sucedidas de se lançarem biografias de Salinger. Em 1986, ele entrou na Justiça contra o crítico literário britânico Ian Hamilton – que tentava relatar a vida de Salinger em livro (a biografia foi publicada) – para impedi-lo de usar qualquer citação sobre ele em cartas não publicadas. Em junho do ano passado, o escritor processou o sueco Fredrik Colting, que lançou no Reino Unido uma ‘continuação’ de O apanhador… com o título 60 Years Later: Coming Through the Rye (60 Anos Depois: Atravessando o Campo de Centeio). Ele ia lançar o livro nos EUA, mas Salinger ganhou a causa e a edição foi suspensa.

Título traduzido foi vetado pelo autor

Sobre seus hábitos pessoais, pouco se sabe. Em 1998, Joyce Maynard, com quem Salinger teve um romance nos anos 1970, lançou o livro de memórias Abandonada no campo de centeio, no qual descrevia um homem excêntrico e controlador.

Em 2000, foi a vez de sua filha Margaret publicar Dream catcher, em que ela dizia ter um pai egoísta e com o estranho hábito de beber a própria urina. Nem as revelações pouco lisonjeiras nem a reclusão diminuíram, porém, a popularidade do autor. Ontem seu nome estava entre os tópicos mais citados no Twitter.

No Brasil, O apanhador no campo de centeio foi publicado em 1965 pela Editora do Autor, numa tradução a seis mãos assinada pelos diplomatas Jório Dauster, Álvaro Alencar e Antônio Rocha. Os três queriam dar ao livro o título A sentinela do abismo, mas Salinger proibiu. Dauster e Alencar traduziram em seguida Nove estórias.

Franny e Zooey foi traduzido por Álvaro Cabral e Carpinteiros, levantem bem alto a cumeeira por Alberto Alexandre Martins (com o título Pra cima com a viga, moçada!) e mais recentemente pelo próprio Jório Dauster.

Salinger morreu anteontem de causas naturais, aos 91 anos, na casa onde viveu isolado nas últimas décadas em New Hampshire, de acordo com um comunicado de seu filho e de seu agente.

Um mito que influenciou gerações

** ‘O sucesso de Salinger coincide com a educação em massa nos EUA, quando começa a surgir um adolescente muito mais sofisticado do que aquele formado pelos filmes de Hollywood. Nesse sentido, ele repete na literatura uma sensibilidade que vinha do jazz cool, um certo distanciamento em relação às coisas, muito diferente do jazz tradicional’ (Silviano Santiago, crítico e escritor).

** ‘Li O apanhador no campo de centeio em 1957, nos EUA, aos 19 anos. Foi um impacto enorme, aquele protesto de um adolescente diante das acomodações e falsidades do mundo adulto. Era um livro que minha geração toda queria traduzir’ (Jório Dauster, tradutor).

** ‘Deus deveria ser julgado por crimes contra a Humanidade. Levar J. D. Salinger embora é uma dessas coisas que simplesmente não se faz, ou não se deveria fazer. Dentre inúmeras outras coisas, ele provou que coloquialidade não é sinônimo de desleixo. Pelo contrário: a música de suas construções está entre o que há de melhor na extraordinária literatura norte-americana do século 20’ (André de Leones, escritor).

** ‘Li O apanhador no campo de centeio quando de seu lançamento no Brasil. Foi um impacto, e não só no que diz respeito à sua originalidade como romance de formação, mas em relação à linguagem. Em uma época em que todos queriam escrever à Machado de Assis, aparece um rapaz escrevendo igual ao cara do boteco ou como se conversava na rua’ (Ivo Barroso, poeta e tradutor).

** ‘Salinger se tornou um mito. Ele acabou se inserindo na categoria dos `escritores que não escrevem´, a exemplo de Rimbaud ou Raduan Nassar. É uma categoria que fascina as pessoas. Foi um autor consagrado e um tipo esquisito, provavelmente infeliz, o que prova que a criação literária pouco tem a ver com a figura por trás da qual o escritor se esconde’ (Moacyr Scliar, escritor).

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