Sexta-feira, 17 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

MEMóRIA > TOMÁS ELOY MARTÍNEZ (1934-2010)

Um escritor a serviço da História

Por La Nación em 09/02/2010 na edição 576

O grande escritor e jornalista argentino Tomás Eloy Martínez morreu ontem [domingo, 31/1], em Buenos Aires, aos 75 anos, após uma longa luta contra o câncer.

Reconhecido como um dos mais importantes autores argentinos de sua geração, afirmou um estilo e deixou sua marca em inumeráveis artigos, colunas, ensaios, contos e romances. Sua principal obra, Santa Evita, foi traduzida para mais de 30 idiomas.

Tomás Eloy Martínez era colunista de La Nación, do The New York Times e do El País, da Espanha. Depois do início de sua carreira em La Gaceta, de Tucumán, e de sua passagem por este diário como crítico de cinema, ganhou notoriedade, a partir de 1962, na revista Primera Plana. Também escreveu roteiros para cinema e televisão.

Há três anos radicou-se novamente na Argentina, depois de viver muito tempo nos Estados Unidos, onde foi professor universitário.

Vítima de um tumor cerebral que o abalou nos últimos meses, a doença não impediu que Tomás Eloy, como o chamavam seus amigos, deixasse de escrever e, sobretudo, de pensar a realidade de seu país. A iminência da morte não foi obstáculo para que passasse seus últimos dias escrevendo, rodeado por seus filhos e seus entes queridos.

Nasceu em 16 de julho de 1934 em Tucumán. A literatura o acompanhou desde sempre. Antes dos 10 anos escreveu seu primeiro conto. Foi um sinal de rebeldia. Havia escapado ao circo sem autorização dos pais e, como castigo, encerraram-no num quarto e lhe proibiram de ler. Naquela tarde escreveu a história de um menino que se metia em um selo para poder viajar.

Aquele precoce escritor seria, com o passar dos anos, o autor do romance argentino traduzido para mais idiomas na história. Dono de uma escrita elegante e precisa, seu romance Santa Evita (1995) trouxe-lhe prestígio internacional, o que o colocou ao lado de seus admirados Jorge Luis Borges e Julio Cortázar.

Em 2002 recebeu o Prêmio Alfaguara, um dos mais notáveis concursos literários em língua castelhana, por El vuelo de la reina . Depois, seriam publicados a seleção de ensaios e crônicas Réquiem por un país perdido (2003), El cantor de tango (2004) e El Purgatorio (2008), seu último romance, que conta a história de um casal separado pelo terrorismo de Estado em 1976, que volta a se encontrar 30 anos depois, relato com que tentou resgatar os anos em que viveu longe da Argentina.

O olhar sobre o jornalismo

Obsessivo estudioso do peronismo, conheceu Juan Domingo Perón em fins dos anos 1960. Ganhou sua confiança, e gravou as extensas conversas que mantiveram em fitas que sempre guardou com zelo extremado. Alguns fragmentos aparecem em Santa Evita, em La novela de Perón (1985) e em Las memorias del General (1996), mas boa parte desse material nunca foi publicado. Entretanto, nunca foi peronista.

Entre seus grandes amigos incluía escritores do porte de Gabriel García Márquez, Juan Carlos Onetti e Carlos Fuentes, que confessou ao El País, da Espanha: ‘Sobre o extraordinário Santa Evita, Mario Vargas Llosa, García Márquez e eu dissemos, sem combinar antes, que seria encantador ser os autores de uma obra tão perfeita em sua liga de ficção e história’.

Viveu exilado em Caracas durante a última ditadura militar argentina, após ser ameaçado pela organização paramilitar Triple A, mas não se afastou de sua paixão: foi editor do El Nacional e fundou El Diario, e chefe de redação até 1979.

Seu relato jornalístico La pasión según Trelew (1974), queimado em uma praça de Córdoba durante a ditadura, foi incorporado como prova ao expediente do processo que investiga o massacre. Sua obra Lugar común la muerte (1979) foi apontada como uma contribuição essencial ao novo jornalismo.

Sobre seu oficio de escritor, gostava de dizer: ‘Nós, os narradores, escrevemos sobre o que sabemos para aprender aquilo que não sabemos; para conhecer o que não conhecemos.’

Com uma vasta carreira acadêmica, também foi formador de jornalistas, o que o levou a passar grande parte de sua vida nos Estados Unidos, onde dirigiu o Programa de Estudos Latino-americanos da Universidade Rutgers, em Nova Jersey, além de professor da Universidade Maryland, e dar conferências e cursos em universidades de todo o mundo

O reconhecimento

O diário madrilenho El País outorgou-lhe o Prêmio Ortega y Gasset de Periodismo, em 22 de abril de 2009, uma distinção dirigida aos trabalhos em espanhol publicados na mídia mundial. Em 24 de junho do mesmo ano, foi incorporado à Academia Nacional de Periodismo. ‘É uma grande honra que se deve, acredito, à persistência com que venho trabalhando há mais de meio século’, disse naquele momento a este diário.

Foi também autor de dez roteiros para cinema, três deles em colaboração com o romancista paraguaio Augusto Roa Bastos, e de vários ensaios, incluídos em obras coletivas. Em 2008, ganhou o Prêmio Cóndor de Plata pela trajetória, entregue pela Associação de Cronistas Cinematográficos da Argentina.

Teve sete filhos. Tomás, Gonzalo, Ezequiel e Paula nasceram durante seu primeiro casamento. Blas e Javier são fruto do segundo, e de sua terceira união nasceu Sol Ana.

Após a divulgação de sua morte, numerosas personalidades do mundo da cultura, da literatura e da política entraram em contato com a redação de La Nación para comunicar suas condolências.

O velório será realizado amanhã [2/2] no Parque Memorial (ruta Panamericana, acesso norte, ramal Pilar, km 47) de 8.30h a 16h. Em continuidade, seus restos serão cremados, como era seu desejo, e as cinzas ficarão ali.

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