Segunda-feira, 18 de Fevereiro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1024
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Um fazedor de espantos

Por Ferreira Gullar em 15/02/2011 na edição 629

Quando escrevi, na crônica anterior, que mal suportara a notícia da morte de Dias Gomes, numa noite de 1999, jamais imaginaria que outra notícia igualmente doída me atingiria poucos dias depois: a morte de Reynaldo Jardim num hospital de Brasília. Mas não vou falar aqui dessa dor, e sim, da pessoa que ele foi, ousada, criativa e, particularmente, em paz com a vida.

Creio que não ocorreria a ninguém normal propor-se reformular um suplemento feminino de um jornal que era, na verdade, um boletim de anúncios classificados. Mas ele o fez: foi à sede do Jornal do Brasil, que era ali na avenida Rio Branco, pediu para falar com a condessa Pereira Carneiro, dona do jornal, e fez a ela a proposta. Aceita, pôs mãos à obra, começando por publicar um molde de vestido em cada número do suplemento. Em breve, acrescentava entre as matérias comuns um conto, um poema, criando, assim, uma seção literária. Dessa seção nasceria o Suplemento Dominical do Jornal do Brasil. Isso foi em 1956. Teve então a ideia de manter nele uma página de artes plásticas, uma de poesia e outra de ficção: a de poesia foi entregue a Mário Faustino por indicação de Oliveira Bastos, paraense como ele, e que também me indicou, amigos que éramos, de morar junto.

A ideia inicial era fazermos, os dois, a tal página, mas terminei assumindo o encargo sozinho. Ninguém ignora o papel que o SDJB teve na vida cultural brasileira daquela época, tornando-se o veículo da poesia concreta e, em seguida, do movimento neoconcreto.

O ‘livro infinito’

Reynaldo, poeta que era e de muita qualidade, engajou-se, comigo, nos dois movimentos, mas a sua contribuição mais criativa se deu durante o movimento neoconcreto. Como, no fim de 1958, fui demitido do JB, onde ocupava o cargo de chefe do copidesque, passei a colaborar, graças à conivência de Reynaldo, clandestinamente, no SDJB. Pouco mais tarde, com a mudança ocorrida no direção do jornal, a condessa me mandou chamar de volta, mas preferi, em vez de retornar à Redação, ficar trabalhando com Reynaldo como uma espécie de secretário do suplemento.

Isso coincidiu com o surgimento do movimento neoconcreto (começos de 1959), cujo manifesto foi publicado em edição especial numa primeira página, desenhada por Amilcar de Castro, que se tornou um exemplo de inovação gráfica, bela e audaciosa.

O SDJB fervia de novas ideias no campo das artes e da poesia, que, por sua vez, confundia-se com a expressão visual e plástica. Nasceram os livros-poema, os poemas espaciais, o ‘poema enterrado’, os ‘bichos’ de Lygia Clark e os ‘labirintos’ de Hélio Oiticica. Formávamos uma patota que vivia a inventar coisas, propor coisas, discuti-las.

Os livros-poema nos levaram a bolar o ‘livro universo’, que nunca realizamos mas daria origem ao ‘livro da criação’, de Lygia Pape, e ao ‘livro infinito’, inventado por Reynaldo e que nada deveu à nossa proposta original: era um livro com duas lombadas, tornando possível, ao chegar-se ao fim do primeiro ‘volume’, prosseguir na leitura do segundo e assim, ao final deste, recomeçá-la. Inventou-o, realizou-o e o deixou de lado, pois já então o que lhe interessava era o ‘balé neoconcreto’, que bolou com Lygia Pape: um balé sem bailarinos, apenas duas placas retangulares, coloridas, que se moviam no palco. Feito isso, foi em frente, pois era tão criativo que não conseguia deter-se no que acabara de criar.

O abismo encantatório

Os anos se passaram, o Brasil mudou, o mundo mudou, nós mudamos. Reynaldo se mudou do Rio para Curitiba e depois para Brasília, onde desenvolveu intensa atividade como jornalista, realizador e estimulador de várias iniciativas culturais. E se manteve o poeta e o artista inovador que sempre foi.

No ano passado publicou um livro surpreendente, a começar pelo título: Sangradas Escrituras. Um volume grande, pesado, de capa dura e sobrecapa em que reuniu seus poemas e muitas outras invenções, em que se misturam versos, desenhos, figuras inusitadas, experimentos poéticos e gráficos perturbadores e fascinantes. O verdadeiro ‘livro infinito’? Inesgotável, nos arrasta a seu abismo encantatório, do qual talvez não consigamos voltar. Quanto a Reynaldo, é ali que o encontraremos a partir de agora.

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Poeta e escritor

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