Terça-feira, 11 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1016
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O fim da ‘American Journalism Review’

Por Mike Hoyt em 01/09/2015 na edição 866

A American Journalism Review deixou de circular. Talvez você tenha notado, pois da última vez que apareceu, neste verão, tinha poucas páginas. A AJR publicava 11 edições razoavelmente sólidas por ano – com um website decente – depois passou para três edições por ano e em seguida suspendeu a edição impressa e todo o seu conteúdo sobre “inovação na mídia” passou a ser oferecido apenas na internet, num site projetado e criado por estudantes.Noticia do fim da AJR

Agora a revista acabou e você pode muito bem estar entre aqueles que perguntam: e daí? Existe o argumento de que, numa época em que tanta atenção é dada aos veículos jornalísticos pela própria mídia, um órgão independente de crítica da mídia é um luxo. E se fossem dois?

Faça uma avaliação: nós temos o produto da crítica que Jon Stewart faz do noticiário praticamente 24 horas por dia, muitas vezes excelente. Temos os textos reflexivos de Jack Shafer, no site Politico, ou de Jay Rosen e seu Press Think, assim como outras vozes na internet. Temos a mídia cobrindo a mídia o tempo todo. Pensem nas imagens sobre as historias criadas por Brian Williams [apresentador e editor chefe do Nightly News, programa noticiário noturno da NBC] , sobre o caso Megyn Kelly (âncora do Fox News ) vs. Donald Trump, ou ainda, mais recentemente, sobre as discussões em torno dos conteúdos publicados pelo site BuzzFeed. Quem precisa mais do que isso?

Psst! Será que todos nós?

Os polpudos cheques de jornalistas famosos

Veja aqui dois exemplos da AJR. Em 2010, ela divulgou um texto de 11 mil palavras, de Jodi Enda (Capital Flight), documentando a queda abrupta das reportagens em Washington – não em lugares intensamente ativos, em termos políticos, como a Casa Branca, onde os repórteres continuam tropeçando uns nos outros, mas em escritórios, agências e departamentos, onde são tomadas tantas decisões que mudam a vida das pessoas, como nos ministérios da Justiça e da Agricultura, ou na Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos (Environmental Protection Agency). Lugares onde boas matérias podem ter um significado para um mineiro de carvão, um lavrador de hortigranjeiros ou um eleitor negro na Carolina do Norte. O gráfico que comparava o número de repórteres que cobriam várias agências entre 2003 e 2010 era bastante inquietante. Iria esse tipo de análise de mídia ser divulgada no programa Colbert Report [do jornalista Stephen Colbert] ou nos telejornais da noite? É improvável.

Muito fora do contexto? E que tal esta? A análise mordaz e detalhada feita por Rachel Smolkin (Justice Delayed) da cobertura de um caso de falso estupro contra jogadores do time de futebol americano da Universidade Duke, digna de nota porque ela destacou o papel dos repórteres que não foram correndo para o julgamento, daqueles que fizeram o que deveriam ter feito, assim como aqueles – muitos – que fizeram tudo errado. Isso saiu no New York Times?

Ou, há alguns poucos anos, a boa reportagem de Alicia Shepard (Take the Money and Talk) sobre os polpudos cheques que ganham alguns jornalistas famosos para participar de um circuito de palestras. Caso de Cokie Roberts (comentarista da rede de televisão ABC dos EUA) divulgando algumas migalhas de informação privilegiada em Fort Lauderdale, na Flórida, por 35 mil dólares. Seria isso bom negócio? Talvez você não tenha ouvido a respeito no programa All Things Considered.

Em 2012, a AJR começou a encolher

Analisar, divulgar e critica a mídia é um trabalho importante e acho difícil engolir a ideia de que a própria mídia pode ou irá fazê-lo bem e satisfatoriamente, ainda que complementada por veículos independentes. Você precisa de um lugar em que autores e pensadores dedicados exclusivamente a essa missão, possam estar, livres para cobrirem a busca dos veículos grandes e pequenos, de Santa Barbara a Cincinnati e de New York ao resto do mundo. (Você pode ler uma coleção dos “maiores sucessos” da AJR aqui.)

Durante meus dez anos como editor-executivo da Columbia Journalism Review, lembro-me de ter dito, uma ou duas vezes: “Ha, ha! A AJR publicou uma matéria que nós publicamos há dois anos” e eu supunha que a AJR talvez tivesse a oportunidade de dizer algo semelhante a nosso respeito. Mas o que mais me chama a atenção a esse respeito é a ausência de matérias duplicadas ao longo dos anos – de como as diferenças nas personalidades das publicações, assim como a imensa abrangência do ritmo da imprensa, significavam que raramente nos atropelávamos mutuamente. A concorrência era boa para todos. Eles publicavam coisas muito boas.

Então, o que é que aconteceu? Dinheiro. A fundação da Universidade de Maryland, que detinha a propriedade da AJR há vários anos, repassou-a à Faculdade de Jornalismo Philip Merrill, da mesma universidade, em 2011. Isso ocorreu na esteira de uma ação judicial, falsa, mas assustadora (o diretor de um jornal processou um jornalista da AJR e a faculdade e a fundação bancaram os custos, que foram em grande parte ressarcidos quando a ação foi rejeitada pelo tribunal). Em outubro de 2012 ocorreu uma reunião estressante da faculdade, na qual começou a ficar claro que para salvar a publicação seria necessário fazer cortes noutros setores da universidade, segundo a decana Lucy Dalglish, que, apesar de tudo tentou evitá-los. Mas a AJR começou a encolher e, consequentemente , desviar-se do seu projeto. Rem Rieder, editor da AJR havia longos anos, saiu em 2013 e deixou escrito na parede: “Ninguém está mais decepcionado do que eu”, disse Lucy Dalglish.

A importância da qualidade da cobertura

Em seu 25º aniversário, em 2002, a AJR publicou uma boa história da revista, escrita por Lori Robertson, que visto agora em retrospectiva, parece uma espécie de obituário. Nesse texto, Tom Kunkel, ex-decano da Faculdade de Jornalismo da universidade (e atual presidente da universidade de St. Norbert, em Wisconsin), diz que, se você quiser ganhar dinheiro com uma revista, não publique uma revista de crítica ao jornalismo. É um bom conselho. Publicidade, apoio filantrópico e circulação de jornais impressos – nada disso é fácil ultimamente, como você deve ter notado. Rem Rider destacou em seu artigo: “É óbvio que uma revista deste tipo jamais se auto-sustentará. Entretanto, ele prometeu manter a AJR como “vigilante da área” por mais 25 anos. Percorreu a metade do caminho.

Atualmente, portanto, só há uma revista jornalística de crítica à mídia séria no país – esta (N.R. o autor se refere à Columbia Journalism Review) – que vem cumprindo bem suas metas, mas, atenção!, verdade seja dita, também lutou, e bastante, de maneira intermitente, desde que foi fundada, em 1961. Estas revistas precisam agir como um negócio empresarial, mas Rieder tem razão: elas nunca serão auto-sustentáveis. Durante o meu mandato, a ameaça de demissões rosnava sob as tábuas do assoalho. Doadores apareceram em momentos críticos por várias vezes. Alguns tendiam a ficar, outros seguiam em frente. O problema é financiar algo que não é novo nem é embalado com brilho, mas é estável e firme e, se for feito da maneira certa, profundamente valioso. A Faculdade de Jornalismo, evidentemente, tem um dever prioritário muito maior para com seus estudantes e sua educação – e para com suas bolsas de estudo – do que para com uma publicação. Em minha época, a universidade foi frequentemente generosa, embora nunca me tenha convencido de que realmente apreciava o valor de uma revista de crítica saudável à mídia. Nós discutíamos e sobreviemos – e, às vezes, até prosperamos. E olhando de uma distância de dois anos, até me parece uma coisa sólida. Espero que seja.

Não quero dar uma de místico, mas se você for inteligente, você sabe que a cobertura da imprensa é o combustível essencial para a grande conversa cívica que, por sua vez, ajuda a formar nossas comunidades, nossas regiões, nossa nação e nosso mundo. Por isso, me parece difícil exagerar a importância de uma crítica da mídia enérgica, imaginativa e séria para tentar manter a qualidade da cobertura – assim como a da conversa cívica – num alto nível.

E, portanto, por esses motivos, sinto falta da American Journalism Review e a saúdo, e valorizo ainda mais aquela que ficou fazendo o trabalho.

***

Mike Hoyt foi editor-executivo da Columbia Journalism Review de 2001 a 2013, é professor na Faculdade de Jornalismo da Universidade de Columbia e edita o site The Big Roundtable. Jack Murtha contribuiu para este artigo.

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