Segunda-feira, 22 de Julho de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1046
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NA IMPRENSA INTERNACIONAL >

Os dilemas da imprensa norte-americana diante do fenômeno Trump

Por Carlos Eduardo Lins da Silva em 25/08/2015 na edição 865

Os EUA já tiveram um presidente que foi ator de cinema medíocre (Ronald Reagan),um governador de Estado que ficara famoso como lutador de luta-livre (Jesse Ventura, de Minnesota) e outro que se consagrou como campeão de fisiculturismo e depois intérprete de filmes de ação de qualidade discutível (Arnold Schwarzenegger, da Califórnia).

Não é tão inusitado assim, então, que um bizarro empresário que virou astro de TV com um “reality show” (“O Aprendiz”), resolva se aventurar na política e obtenha sucesso, como Donald Trump, líder nas pesquisas de intenção de voto entre os aspirantes do Partido Republicano à candidatura presidencial nas eleições de 2016.

Mas no jornalismo americano há um grande debate sobre se a imprensa deve levar a sério as pretensões de Trump. O “Huffington Post”, um dos mais importantes portais jornalísticos do país, resolveu que a campanha de Trump à Presidência deve aparecer em sua editoria de entretenimento, não na de política, apesar de a ascensão de Trump ser um dos fatos políticos mais importantes do ano.

O chefe da sucursal de Washington do Huffington Post, Ryan Grim, disse ao Washington Post, na semana passada, que a decisão var ser mantida: “Trump é apenas um espetáculo de segunda, não um verdadeiro candidato à Presidência com ideias sérias para o país. Jornalistas sérios estão sendo seduzidos por ele por causa das coisas ultrajantes que ele diz e que por serem ultrajantes se convertem em manchetes e aumento de audiência. Nós não vamos cair nessa armadilha”.

Mas o fato permanece que Trump está há mais de um mês com uma forte liderança entre os 17 pretendentes à legenda republicana em 2016. Ele ainda não foi testado nas urnas porque a temporada de eleições primárias só começa no início do ano que vem. E ele tem apresentado programas de governo, que podem ser extremamente conservadores, mas não deixam de ser propostas de políticas públicas.

Como, por exemplo, no caso da imigração. Não há dúvida de que Trump está expressando os sentimentos e opiniões de uma parcela da população americana, que obviamente não é majoritária, mas nem por isso não deixa de ser expressiva, quando defende, entre outras coisas, que se acabe com o direito de cidadania a todas as pessoas que nascem em território americano.

Foi a presença de Trump que fez com que o índice de audiência do primeiro debate eleitoral da campanha quebrasse todos os recordes para esse tipo de evento neste estágio de qualquer campanha presidencial anterior. E ele não decepcionou a quem queria assistir a cenas inusitadas, com sua agressiva respostas a perguntas incômodas feitas a ele pela jornalista Megyn Kelly.

Não é apenas o Huffington Post que defende que o jornalismo ignore Trump ou o trate como um exotismo curioso. A revista Mother Jones propôs em editorial de capa que simplesmente se deixe de cobrir a campanha dele. O Christian Science Monitor atribui aos próprios veículos jornalísticos a subida de Trump nas pesquisas.

Milionário excêntrico e político bizarro

Trump não se tornou celebridade por causa da política. Como milionário excêntrico, sempre atraiu o interesse do público. Seus casamentos e divórcios, incursões no mundo do “show business”, grandes projetos imobiliários em Nova York e em outras grandes metrópoles sempre foram cobertos com destaque.

Há muito tempo que a cobertura política nos EUA e em muitos outros países deixou de lado a discussão séria e aprofundada de temas e propostas para se concentrar na personalidade dos políticos. Tem sido assim, no caso americano, pelo menos desde a eleição de 1960, quando a figura carismática e telegênica de John Kennedy emergiu.

A hegemonia contemporânea da internet no ambiente da comunicação, com a prevalência dos sites e blogs sobre celebridades só torna mais naturais o interesse e a curiosidade sobre alguém tão extraordinário, para o mundo da política eleitoral, como Donald Trump. Mas não há como evitá-lo.

Reagan, um ator de segunda categoria e garoto-propaganda de marcas de cigarro até se tornar líder sindical na indústria cinematográfica, é atualmente considerado um quase-Deus pelo Partido Republicano e pelos conservadores de quase todas as matizes nos EUA. Schwarzenegger foi um governador muito popular, que só não se candidatou à Presidência (com chances de sucesso) por não ser nascido nos EUA. Ventura foi bem avaliado no seu único mandato de governador (não quis tentar a reeleição) e agora é professor de política na prestigiosa John F. Kennedy School of Government em Harvard.

E se o problema de Trump é sua ignorância política ou o extremismo de quase todas as suas teses ou a falta de respeito aos hábitos do vocabulário e da sintaxe politicamente corretos, ele não está muito distante de Sarah Palin, a então governadora do Alasca que foi candidata à Vice-Presidência com John McCain em 2008. E ninguém jamais discutiu se as notícias sobre Palin deveriam sair na editoria de política ou na de variedades.

A função do jornalismo é reportar e analisar os fatos. Se Trump é um fato relevante na campanha presidencial de 2016 (e por enquanto ele o é), ele deve ser o objeto de uma pauta intensa e crítica de todos os jornalistas que levem sua missão a sério. Se e quando o eleitorado se cansar dele, sairá da pauta por ter deixado de ser de interesse público.

***

Carlos Eduardo Lins da Silva é jornalista e ex-correspondente da Folha de São Paulo em Washington

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