Domingo, 24 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

MEMóRIA > MILLÔR FERNANDES (1923-2012)

Millôr, o cânone do humor

03/04/2012 na edição 688
Reproduzido do blog do autor, 31/3/2012; intertítulos do OI

Toda vez que tentavam lhe colar o rótulo de “gênio“, Millôr Fernandes se esquivava, criando um campo de proteção contra adulações. É comum entre os humoristas mais respeitados esse cacoete, de não se levar a sério e negar louvores. A necessidade de parodiar a tudo e a todos (inclusive a si mesmo) vem sempre à frente. Em suas próprias palavras, o humorista é um “subhomem que escolhe um submomento para falar de um subassunto”. Mas, ao mesmo tempo, tal atitude inibe um estudo mais correto sobre seu trabalho. Não surpreende que o humor, de modo geral, tenha sempre habitado uma espécie de gueto do mundo artístico, literário e intelectual. A aparente falta de seriedade, os chistes e as tiradas desconcertantes escondem uma pesada carga crítica que expõe a mesquinhez da sociedade e o torpor mental das classes dirigentes. Para influentes e poderosos, é mais confortável ver esse tipo de humor associado ao pastelão televisivo do que às rodas literárias e aos formadores de opinião. Ranço típico brasileiro: o que é sério, tem de ser levado a sério.

Nascido Milton Viola Fernandes, em 16 de agosto de 1923 (e registrado quase um ano depois), teve o destino mudado pela má caligrafia do escrivão que, ao errar o corte do “t” e o “n”, deu a senha para que se criasse uma das maiores logomarcas do humor nacional. Filho de um imigrante espanhol, Millôr perdeu o pai em 1925, quando tinha apenas dois anos de idade. Aos dez, teve seu primeiro desenho vendido para O Jornalatravés de um tio. Aos doze, ele perderia a mãe, vítima de câncer aos 36 anos (mesma idade do marido ao morrer).

Estilo único, inimitável

Depois do velório de sua mãe, Millôr deixou de acreditar em Deus. Voltou para casa, deitou-se debaixo da cama e chorou copiosamente. Após horas de choro, sentia-se desamparado, mas também aliviado. Era o marco zero daquilo que posteriormente ele definiria como “a paz da descrença”. Um ceticismo que carregaria por toda a vida e que moldaria sua obra. A maneira como essa descrença se desenvolveu em Millôr pode ser percebida pelo relato – vívido e desprovido de qualquer autocomiseração – de quando ele, já órfão, foi morar com a tia. Nesse “período dickensiano”, como ele define, o bife podia faltar em seu prato, mas nunca no prato dos primos.

Tudo começou a mudar em março de 1938, quando o garoto de quinze anos iniciou como contínuo na pequena revista O Cruzeiro. Começava ali uma das mais longevas e frutíferas carreiras da imprensa brasileira. Sob o pseudônimo de Vão Gogo, ele começava a cavar trincheiras, com criatividade e coragem. Sempre ancorado em sua “paz da descrença”, questionou valores da sociedade, fustigou autoridades de todo o espectro político e criou uma assinatura própria.

Vindo de uma geração fortemente influenciada por André Françoise, principalmente, por Saul Steinberg, Millôr definiu a partir dali com quais texturas e cores viria a trabalhar. A forma de Steinberg transformar experiências sensoriais em arte se tornaria decisiva em sua carreira. Principalmente depois de 1955, quando ele dividiu com o próprio Steinberg o primeiro lugar da Exposição Internacional do Museu da Caricatura de Buenos Aires. O traço de Millôr encontrava similaridades com o de Steinberg, mas sua abordagem – ora ácida, ora agridoce – trazia um estilo único, inimitável, com balões anarquicamente diagramados pelo desenho.

Humor, arma letal

Uma luta constante em sua carreira foi contra a censura. Quando saiu a peça de teatro Por que Me Ufano de Meu País, teve de ser rebatizada para Um Elefante no Caos. Escrita em 1955 – quatro anos antes de a revolução cubana acontecer – , fazia menção a uns barbudos metidos a revolucionários. Era um retrato sombrio do próprio ufanismo do título, desenhado por personagens “tontos, corruptos, marginais ou marginalizados, funcionando dentro de uma aparente normalidade”. Só depois de cinco anos, a peça foi levada aos palcos pelo Teatro da Praça.

Mas a censura que o atingiu de uma forma brutal aconteceu em 1963, na revista O Cruzeiroque, naquele tempo, era a maior do Brasil. Millôr lançou um olhar iconoclasta para a história de Adão e Eva no paraíso e desagradou aos religiosos. Em editorial, a revista se eximiu de qualquer culpa e atacou seu autor por debochar da hagiografia cristã. “Confiamos na honestidade intelectual de nosso colaborador. Confiamos e erramos”, dizia o texto. A atitude, baixa por si só, foi também oportunista, pois aproveitou-se de uma viagem que Millôr fazia a Portugal e, portanto, não estava lá para se defender. Alertado por Juca Chaves, correu para o consulado brasileiro e pegou um exemplar da revista. Ao chegar ao Brasil, depois de 25 anos trabalhando em O Cruzeiro, encontrou sua carta de demissão e uma acusação de fazer uma “matéria insultuosa às convicções religiosas do povo brasileiro”. A censura, dessa vez, não vinha de órgãos do governo ou de partidos políticos, mas de uma sociedade conservadora e de sua revista mais lida.

A reviravolta do caso aconteceu quando setores da imprensa se colocaram contra sua maior publicação e ofereceram um jantar de desagravo a Millôr. Lá compareceram diretores e presidentes dos maiores veículos de imprensa, além de centenas de artistas, escritores e jornalistas como Paulo Francis, Rubem Braga, Otto Lara Resende, Sérgio Porto, Fernanda Montenegro, entre outros. “Me sinto como um navio abandonando os ratos”, disse Millôr, em seu discurso. Embora a vitória moral já tivesse sido conquistada, ele processou a revista, ganhou e saiu-se com mais um de seus epítetos: “a justiça farda, mas não talha”. Na esteira, veio o inevitável declínio da revista, que fechou as portas dez anos depois desse incidente – e trazendo a soldo os Diários Associados. O humor, quando usado de uma forma tão elegante e sofisticada, pode se tornar uma arma letal.

“Sou indecentemente feliz”

Um ano depois, em 1964, apenas quarenta dias após o golpe militar, Millôr lançou a revista O Pif-Paf. Sem propostas políticas ou ideológicas, o mote da publicação era o humor e a liberdade. “Em todos os números do Pif-Paffalaremos de Liberdade. É um assunto que nos tem presos.” Como era de se esperar, quatro meses e oito edições depois, O Pif-Pafbateu de frente com a censura, desta vez oficial, fardada. Mas antes de a publicação deixar de circular – e mesmo enterrado em dívidas –, Millôr não perdeu a piada: “Se o governo continuar deixando que circule esta revista, com toda sua irreverência e crítica, dentro em breve estaremos caindo numa democracia.”

As marcas deixadas dessa experiência ficariam para sempre na imprensa nacional. Sem se dar conta disso, Millôr e seu Pif-Paftinham deixado o caminho aberto para futuros veículos da imprensa alternativa e também a senha para uma reinvenção da grande imprensa. Foi seguindo esse rastro que, cinco anos depois (no auge da repressão), surgiria O Pasquim. O que viria depois é história.

Muitos tendiam a taxá-lo de pessimista, influenciados por sua aparente visão sombria do mundo. Afinal, como alguém que via o homem como “um bípede inviável” e a vida como “um pau de sebo com uma nota falsa em cima” poderia ter alguma esperança na humanidade? Porém, testemunhos de amigos e personalidades apontam na direção oposta. Geraldo Carneiroo define como um “monstro de delicadeza”, mas quem fecha a questão é o próprio Millôr: “Sou indecentemente feliz.”

Gênio de seu tempo

A lição que tiramos disso é que existe, sim, espaço para a felicidade no mundo dos céticos. O fato de não acreditar na virtude do ser humano não o tornou mal humorado, amargo ou ranzinza. A “paz da descrença” é um olhar de distanciamento, um lugar onde as mazelas não o atingem. Em O Mundo Visto Daqui, Millôr dá outra pista: “Sou um cético. Isso quer dizer um homem de profundas e variadas crenças que, porém, nunca estão colocadas numa sigla, numa fé institucionalizada e politizada, num grupo e, sobretudo, numa pessoa.” Já o humor, esse sim, deve sempre ser contra — seja o governo, regime ou valores. E serve também para o jornalismo. Vem daí uma de suas frases mais festejadasentre jornalistas: “Imprensa é oposição. O resto é armazém de secos e molhados.”

Millôr não inventou a roda, mas mudou-a. Anterior a ele, o humor crítico da sociedade e da política era restrito aos grandes caricaturistas e chargistas, como Ângelo Agostini, Nássarae J. Carlosou a sátiros como Barão de Itararé, Bastos Tigree Juó Bananére. Millôr ampliou essa percepção, mostrando uma visão oblíqua do humor, conferindo-lhe um caráter multifacetado e mostrando que não há classificações ou subdivisões possíveis. O humor pode estar no traço, mas está também nas letras, no teatro, na poesia, no soneto, no aforismo, no haicai. Assim, o brilho do humorista Millôr se confundiu com o do dramaturgo, do jornalista, do cronista, do cartunista. E também do linguista. Com aforismos elípticos, jogos de palavras e trocadilhos surrealistas, sua desobediência sintática e semânticao permitiu brincar com as palavras e com as contradições da língua. Sem impor seu estilo como norma, passou por cima das normas do estilo, ignorando regras gramaticais e criando neologismos. Vem daí a sua auto-definição: “um escritor sem estilo”.

Tudo o que foi feito de melhor no humor nos últimos cinquenta anos provavelmente é uma variável (ou resultante) de um conceito que passou pelas suas mãos, com maior ou menor grau de influência. A exemplo do que Machado de Assisé para a nossa literatura ou Heitor Villa Lobosé para a música brasileira, Millôr Fernandes é para o humor brasileiro: um cânone. Um dos maiores gênios de seu tempo, uma referência atemporal. E se, em vida, ele certamente negaria o título por uma questão moral, cabe aos que aqui ficaram reconhecê-lo como tal.

***

[Diogo Salles é cartunista]

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