Quinta-feira, 23 de Maio de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1038
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Réplicas a críticas

21/04/2009 na edição 534

‘Na Antiguidade, a dignidade e a legitimidade da ciência eram minimizadas pelo fato de, mesmo entre os seus mais fervorosos defensores, a aspiração à virtude ser considerada em primeiro lugar, por se acreditar que se tinha feito o mais alto elogio à ciência quando era enaltecida como a melhor maneira para se chegar à virtude. É um acontecimento recente na história que se pretenda que o conhecimento seja algo mais do que um meio‘ (Nietzsche, A Gaia Ciência, # 123, grifos meus).

‘Não existe pior perseguidor de um grão de milho do que um outro grão de milho quando está totalmente identificado com uma galinha’ (Samuel Butler, citado por Isabelle Stengers, A Invenção das Ciências Modernas).

Vou tratar diretamente de três comentários de três leitores feitos a meu artigo publicado no último dia 7. Dos dois primeiros, não para lhes dar quaisquer satisfações, mas para analisar seus comentários. Quanto ao terceiro, aí sim, para tentar esclarecer aspectos básicos daquele artigo que ele talvez não tenha entendido, muito provavelmente por falta de clareza ou de ênfase adequada no texto – aproveitarei para procurar assim retificar, ou minimizar, dentro do possível esses defeitos. Em seguida, na parte final, vou tratar de alguns aspectos do artigo de Bandarra publicado no último dia 14 para tentar desenvolver a discussão.

Um comentário

Tornou-se freqüente alguns leitores que fazem comentários no OI usarem clichês sobre ataques ad hominem e ataques à liberdade de expressão sem, entretanto, demonstrarem conhecer efetivamente o que significa os tópicos envolvidos. Aspectos importantes (sobretudo o referente à liberdade de expressão) são tratados de forma banal, transformados em chavões que se utilizam a esmo. Parece que esses leitores entenderam que dizer ‘ataque pessoal’ e ‘ataque à liberdade de expressão’ poderiam ser formas eficientes de colocar em dúvida textos de que não gostam e, assim, empregam as expressões sem nenhuma preocupação além daquela pretensa eficiência. A dúvida é se fazem isso ingenuamente (se deleitam diante do que consideram ser a força da expressão ‘ataque ad hominem‘, mas não sabem distinguir o que é um ataque desse tipo e o que não o é) ou se é uma mera estratégia dolosa visando desqualificar o texto (gritam histericamente ‘liberdade de expressão’, mas somente quando lhes é conveniente, sem se importarem a não ser com a aparência de defensores da liberdade).

Dessa maneira, fazendo um comentário a propósito do meu texto anterior (dia 7 p.p. no OI), um leitor sentenciou, mas não ponderou, sobre o artigo fazer ataques pessoais e ataque à liberdade de expressão. Precisaria mencionar, ou citar, passagens do texto que pudessem evidenciar sua acusação, de que o artigo faz efetivamente isso. Da minha parte, tenho bem nítido – pelo menos enquanto não se façam argumentos ponderados em contrário, apontando passagens do texto – que não há, no artigo, nenhuma passagem que possa ser considerada seja ataque ad hominem seja atentado contra a liberdade pessoal.

Daí, surge a questão: por que, então, ele sentenciou sem ponderar sobre o artigo? Se o leitor não gostou do texto (e é direito inequívoco seu), não gostou por algum(ns) motivo(s) referente(s) ao que há no artigo. O que o desagradou no texto não pode ter sido qualquer ataque pessoal nem qualquer tentativa de restringir a liberdade de expressão – simplesmente porque no artigo não há nem um nem outra. Desse modo, seu comentário deveria se ater, de maneira ponderada, ao(s) aspecto(s) efetivamente existente(s) no texto que o desagrada, ao invés de gritar contra aspectos inexistentes.

Furiosamente destratadas

Como tentativa mal-intencionada de anular, cancelar, suspender e interditar os aspectos que o artigo procurou suscitar e desenvolver, a estratégia descarada é muito pobre e cai no ridículo (é evidente que dizer isso sequer se assemelha a um ataque pessoal nem atenta contra a liberdade de expressão).

Em outro comentário feito àquele meu texto, outro leitor, declarando não ter interesse na discussão, escreveu criticando a publicação do artigo pelo OI por ter sido escrito por quem estudou filosofia a criticar um médico. A esse respeito, cabem dois tipos de considerações.

Primeiro: o comentário tem caracteres nitidamente paternalistas com relação a Bandarra. Cabe observar, essa proteção paternalista é que leva a discussão para o lado pessoal – não é o meu artigo que o faz. Resta a dúvida se Bandarra aceita ou rejeita essa postura paternalista em relação a ele.

Segundo: no entender do leitor que fez o comentário, quem estudou filosofia não poderia criticar o médico que ataca a religião, devendo não participar da discussão. Então, cabe a pergunta: quem, no entender de quem fez aquele comentário, pode participar da discussão com quem escreve contra religião? Talvez todas aquelas pessoas que, antes, discordaram do médico e que foram furiosamente destratadas por ele: o leitor que fez o comentário não parece ter restrições contra a participação daquelas pessoas. É claro então que, no seu entender, todas essas pessoas seriam mais fracas que o médico. Assim, só quem poderia participar da discussão são aqueles que, no seu entender, seriam supostamente mais fracos do que o médico hostil a todas formas de religião.

Exigência de critério único

Nesse sentido, o leitor não faz restrições a que Bandarra enfatize a formação/profissão de quem ele ataca; o médico procede dessa maneira, por exemplo, com relação a uma ‘analista de TI’ e a um ‘administrador’ (tal qual ele fez em seu artigo do último dia 31), assim como em relação a uma ‘administradora’, tratada com nítido desdém por Bandarra ao ressaltar sua profissão (conforme nos comentários ao meu artigo do último dia 7). Para Bandarra, então, a ‘administradora’ está do lado da opinião, enquanto ele, ‘médico’, está do lado da razão; ele combina, assim, dois preconceitos (ambos muito professados por filósofos por séculos!): o que opõe opinião e razão (entendida essa como universal e generalista) e o preconceito antigo contrário às ‘massas’ (para Bandarra, a ‘administradora’ faz parte da ‘massa’, diferente do médico que defende a ciência entendida como fonte da redenção da humanidade). Mas, é preciso contrapor, ser ‘administrador’ só é pejorativo para Bandarra no caso em que a profissional de administração discordar dele (ou melhor, no caso de ele discordar da administradora; que ela discorde dele não importa porque é ‘mera opinião’; que ele discorde dela, sim, isso é que é relevante); o caráter pejorativo não vale se o profissional de administração concordar com ele.

Fica também a pergunta: no entender daquele leitor, quem estudou filosofia e tiver uma concepção essencialista da religião e da ciência (entendidas seja como ‘a fonte da intolerância’ seja como ‘a fonte redentora da humanidade’) pode participar ou não da discussão? É só quem estudou filosofia e não partilha da convicção essencialista que não deve intervir no debate? Não parece que ele tenha restrições à participação de quem estudou filosofia e que concorde com ele. Tudo isso é argumento no sentido de que o comentário do leitor pretendeu obstruir a efetiva discussão do assunto.

Na verdade, o problema para o leitor não é simplesmente o fato de quem escreve ter estudado filosofia. O problema efetivo é que ele quer que a discussão seja feita por quem partilha de seu critério único (não é difícil perceber que é o mesmo de Bandarra: o critério que caracteriza religião e ciência respectivamente como fonte da intolerância e como fonte redentora da humanidade) ou por quem se opõe a seu critério único com outro critério único (ou por quem ele pensa que faz isso). Quem não tiver critério único deve ser excluído do debate. Pura pretensão à esperteza autoritária. Ao invés de contrapor, aos argumentos formulados em meu artigo, seus próprios contra-argumentos, ele tentou excluir a priori os meus argumentos. Acuso e rejeito com veemência o golpe pretensamente esperto: a única pessoa que ele pode efetivamente excluir da discussão, se ele assim quiser, é ele próprio. O pretenso esperto iniciou seu comentário dizendo não ter interesse na discussão. Puro fingimento, pois não demora para, logo depois, ficar claro que ele tomou o partido de Bandarra. O que não interessa ao pretenso esperto é que a discussão inclua os argumentos que eu apresentei, que se tenha que contrapor aos meus argumentos, que seja necessário responder com contra-argumentos; enfim, ele tem interesse, referente à discussão, em excluir a priori os argumentos que não se submetem à sua exigência de critério único.

A relação de causa e efeito

É claro, as duas considerações acima não são excludentes: a proteção paternalista coaduna-se com a tentativa de blindar os discursos de Bandarra recheados com a intolerância anti-religiosa que os pauta e os caracteriza. A tentativa de blindagem e de obstrução e a estratégia paternalista possuem caracteres autoritários na medida em que não se harmonizam com a discussão democrática, aberta. Em tempo: deveria ser desnecessário observar que a informação publicada pelo OI sobre a formação/profissão de quem escreve deve servir para que o eventual leitor tenha alguma informação a mais sobre a perspectiva de quem escreve; não deveria servir para desqualificar numa postura de soberba (‘eu sou médico, você é só uma administradora, então se você conhecer um por cento da wikipédia já seria muito para você’; ‘eu sou médico, você é publicitário, logo eu sei o que você faz’).

Por fim: esses dois comentários – o que grita sobre ‘ataques ad hominem‘ e sobre atentado contra a liberdade de expressão e o que procura fazer a proteção paternalista e fazer a exclusão liminar dos argumentos que não se sujeitam à exigência de critério único – que se pretendem em defesa de Bandarra é que levam a discussão para o âmbito pessoal, tentando, assim, obliterar os aspectos efetivamente importantes da discussão. Cada um dos dois comentários não diz efetivamente nada sobre o suposto objeto (meu artigo) de seus discursos, mas é esclarecedor sobre o próprio discurso.

Um outro leitor fez mais um comentário, ao meu artigo publicado no último dia 7, dizendo que a ciência não causa o mal. Não entendi porque ele ressalta isso, já que o artigo, nem nenhum comentário, sugeriu algo assim, de modo ninguém jamais fez qualquer afirmação nesse sentido: ele critica uma idéia que ninguém defende. O artigo não defende que a religião seja fonte de alguma essência e a ciência de uma essência oposta; também não defende o contrário. O artigo não advoga a superioridade de pessoas religiosas sobre cientistas nem o contrário. É Bandarra (entre outros) quem critica os que pensam que a religião seja fonte de tolerância e afirma o contrário, reservando o privilégio para a ciência. Meu artigo não inverteu a formulação de Bandarra. Ao inverter a relação de causa e efeito da formulação de Bandarra, o artigo não obteve uma outra relação de causa e efeito, invertida em relação à primeira. Tampouco advogou uma formulação relativista sobre religião e ciência (a recusa ao relativismo está explicitada no artigo).

Formas religiosas não-intolerantes

Meu artigo não se situa no plano realista em que se colocam tanto o esquema de interpretação de Bandarra quanto o esquema contrário que Bandarra pretende criticar. O leitor que fez aquele comentário talvez não tenha entendido que o modelo interpretativo que contrapus àquele modo de esquemas é nominalista, portanto, não trata nem a religião nem a ciência como fontes de essências, quaisquer que sejam essas. No modelo nominalista, as formações religiosas e as práticas científicas só podem ser tidas pelas suas imanências, não por supostas essências da religião e da ciência. Concordo com o leitor que a ciência não causa o mal; mas práticas científicas podem provocar males e sofrimentos. Não há atributos da ciência em princípio (essencialista) antes das formulações e práticas dos cientistas.

Não há dúvidas sobre o serviço prestado pelos cientistas às atividades científicas e pelas atividades científicas e pelos cientistas às pessoas. Mas a formulação de Bandarra vai além, muito além, disso. A pretensão é referente aos serviços prestados pela ciência e pelos cientistas à humanidade. A pretensão seria embasada pela essência a que a ciência tenderia, se deixada livre: a redenção da humanidade. A religião aparece como a contraposição à ciência: nesse esquema, a religião seria, mais do que uma fonte de intolerâncias, a ‘fonte da intolerância’ por excelência – a expressão é empregada por Bandarra num artigo; a idéia aparece claramente formulada em diversos artigos seus. Então, segundo esse esquema interpretativo, é preciso eliminar a religião para que a ciência possa, livremente, ser de maneira mais efetiva o instrumento preferencial da redenção da humanidade. Enquanto a religião existir – e enquanto houver religião, sua conseqüência necessária (a intolerância) também existirá –, ela permanecerá obstruindo o desenvolvimento dos efeitos da ciência e, portanto, bloqueando a redenção da humanidade.

Ainda uma observação sobre a religião definida como ‘fonte da intolerância’. Enquanto no esquema essencialista de Bandarra cada forma de religião é causa suficiente para a intolerância e essa é efeito direto (conseqüência necessária) da religião, é possível pensar um modelo nominalista em que as formas de intolerância (e a aversão à sociedade aberta e a intransigência) são condições de possibilidade de formas religiosas e essas são conseqüências possíveis da intolerância. Nesse modelo, a religião não é decorrência necessária da intolerância; então, esse modelo permite considerar tanto as formas de intolerância não-religiosas quanto as formas religiosas não-intolerantes negligenciadas no esquema interpretativo de Bandarra.

Incisões cirúrgicas

Então, tanto cada formulação religiosa quanto cada prática científica deve ser avaliada pela sua conseqüência – isso é muito diferente de pensar em termos de um pretenso princípio de uma essência para a qual a religião ou a ciência tenderia. Para Bandarra, a essência da religião é que ela tende à intolerância – a religião é tida como fonte de ódio e de sofrimentos – e a essência para a qual a ciência tende (se deixada livre) é a redenção da humanidade. A questão adequada não é se essas são as essências da religião e da ciência Precisamente, a questão não é a referente ao princípio inerente à religião e à ciência tidas de forma generalista, mas a do valor da conseqüência efetiva de cada formulação e de cada prática.

No meu texto anterior, tratando da formulação essencialista de Bandarra a propósito da religião e da ciência, eu escrevi que em sua concepção a ciência é tida como o instrumento de redenção da humanidade. Me expressei de maneira incorreta: a ciência não é tida como um meio. Assim como para essa formulação a religião é ‘a fonte do sofrimento e do ódio’, a ciência é a fonte redentora da humanidade. Nesse sentido, cabe ressaltar o final do aforisma nietzshiano anteposto aqui como epígrafe.

Bandarra ataca meu artigo por esse atribuir à sua formulação a idéia de que toda intolerância resulta da religião. Esse é o único momento do texto dele em que ele se refere a algum argumento do meu artigo. Entretanto, ele faz um corte no meu argumento para, evitando a parte principal do argumento, concentrar-se em tentar provar que eu cometi um erro de interpretação. Ele opera meu argumento, retalhando-o com sinistra imperícia médica. Senão, vejamos. A parte importante do argumento em questão não é atribuir à concepção dele a idéia de que toda intolerância é efeito direto da religião. É precisamente o contrário: a parte principal do que eu escrevi é que, para ele, toda formulação religiosa é causa direta que tem como efeito direto a intolerância. Ele nada menciona sobre essa parte porque não tem reparos a fazer. Contrapus, a essa sua idéia, que ela exclui todas as formulações religiosas tolerantes. Ele nada menciona sobre essa parte porque não tem contra-argumentos – por isso a elimina com incisões cirúrgicas.

Caracteres intolerantes

De fato, eu não atribuí peremptoriamente o que ele alega. Eu disse que sua formulação sugere que toda intolerância decorre da religião. É por isso que ele trata o nazismo como ‘tentativa cristã’ de eliminar todos os judeus: o nazismo é um fenômeno intolerante, então, para ele, tem como causa a religião; logo ‘tentativa cristã’. Para ele, a religião é tida como causa da intolerância (não apenas condição possível de intolerâncias); a intolerância é efeito direto da religião (e não: intolerâncias são possibilidades de formações religiosas). Afinal, ele define religião como ‘fonte da intolerância’ (não apenas uma fonte possível de intolerâncias): então, qual é a parte da definição dele que ele não entende?

Quando ele insiste em atacar a parte do meu argumento que ele não eliminou (a parte do meu argumento que restou em seu texto depois que ele operou minha argumentação), ele acaba ressaltando a existência de um paradoxo na formulação dele: apesar de a religião ser tida como causa direta da intolerância e de haver a sugestão (usada quando lhe é conveniente) de que toda intolerância é causada pela religião, de fato para ele nem todo caso de intolerância é causada pela religião. Existe pelo menos um caso de intolerância que, no seu entender, não decorre da religião. Qual? Ele próprio.

Assim, convém ressaltar: quando é chamado de intolerante, ele não responde furiosamente por ser chamado de intolerante. Ele responde desrespeitosa e descontroladamente porque não se concorda com sua intolerância. Ele nada teria a opor se alguém que concordasse com ele o chamasse de intolerante. Assim, ele elogia ateus (na verdade, referindo-se a ele próprio), mas quando alguém que se diz ateu discorda dele (conforme o primeiro comentário feito ao meu artigo publicado no dia 7), ele rapidamente o ofende como não sendo um bom ateu e reage raivosamente como a pretender expulsá-lo do clube do bom ateísmo. Uma excomungação atéia?

Ele não contra-argumenta efetivamente aos argumentos apresentados em meu artigo. De fato, parece que ele não discorda dos meus argumentos. Bandarra e eu estamos de pleno acordo. Eu disse que ele é intolerante em relação às religiões. Não há dúvidas: antes, ele escreveu sobre isso. Ele não tem que concordar comigo quando eu digo que ele é intolerante; sou eu quem concordo com ele sobre seus caracteres intolerantes. Ele se apresenta intolerante e eu concordo com ele que ele o é.

Tradições multiseculares na Inglaterra

Nesse ponto, cabe citar as palavras de Stengers, na passagem em que ela se refere à frase de Butler anteposta aqui como epígrafe. Escreve ela: ‘nada é mais temível […] que […] o convertido que se volta ferozmente ou devotamente contra aqueles que permaneceram na ilusão da qual ele acaba de se afastar’. Aqui, não se trata de apontar que a linha que separa a intolerância religiosa e a intolerância anti-religiosa é tênue. Dizer isso não é suficiente. A propósito da intolerância religiosa, o que é relevante é ser intolerância – o mesmo quanto à intolerância anti-religiosa. A intolerância anti-religiosa expressa nos textos de Bandarra é do mesmo tipo que ele atribui à religião como um todo. A intolerância atribuída de forma generalista e universal à religião é reflexo da sua própria intolerância. O discurso de Bandarra não esclarece nada sobre o seu pretenso objeto (a religião), mas é eloqüente sobre o sujeito do discurso (a formulação de intolerância anti-religiosa). Ainda: a ciência entendida de maneira essencialista, formulada nesse discurso, é do mesmo tipo que o discurso dele atribui à religião.

Há muito tempo que Bandarra tem enumerado, sucessivamente, exemplos que vinculam práticas (discursivas e não-discursivas) de caracteres religiosos com ódio e sofrimento. Tornou a fazer isso em seus comentários no meu artigo em resposta a outros leitores. Entretanto, mesmo que ele pudesse elencar todos os exemplos existentes em que ocorre esse vínculo, levando o rol que ele se esmera em fazer ao tamanho máximo imaginável, isso não autoriza a relação de indução que ele pretende fazer entre esses exemplos e o princípio essencialista de sua formulação que considera a religião como a ‘fonte da intolerância’. O procedimento indutivo não é válido, tanto porque a indução feita depende do princípio essencialista que ela pretenderia induzir quanto porque o procedimento exclui todos os exemplos de práticas religiosas tolerantes. Esse é um dos aspectos principais, senão o principal, do meu artigo anterior, aspecto do qual Bandarra se esquiva em seu texto por não ter contra-argumento (me arrisco a dizer que esse aspecto suscitado por meu artigo foi o que fez um leitor fazer um comentário, de forma gentil e com palavras generosas, em que se dizia de alma lavada com o artigo).

Bandarra, efetivamente, acha fácil fazer induções: assim, constatando a existência de tradições cristãs na Alemanha é que ele justifica sua conclusão de que o nazismo é uma ‘tentativa cristã’ de eliminar definitivamente os judeus. É claro, ninguém pode negar que a Alemanha tinha tradições cristãs multisseculares, mas é igualmente óbvio que isso não é suficiente para ele induzir o vínculo direto entre as tradições cristãs e o nazismo. Não é a predominância de tradições cristãs na Alemanha que justifica a indução; é o seu dogmatismo que explica a indução. Ele parte de exemplos para operar induções feitas a seu bel-prazer: ‘tradições históricas’, em particular, são ótimas para serem empregadas em induções feitas de maneiras espúrias. Então, é fato que a Inglaterra também tem tradições cristãs multiseculares, de modo que Bandarra tem que se haver com o argumento de que a resistência que Churchill fez a Inglaterra opor à Alemanha hitlerista foi efetivamente uma tentativa cristã eficientemente sólida de barrar o avanço da barbárie nazista contra a civilização (incluindo os judeus). Coaduna-se mais com o que ocorreu. Um leitor do meu artigo anterior fez um comentário ressaltando que o texto sempre se manteve respeitoso, por mais contundente que tenha sido. O respeito que me esforcei por manter não significa compromisso em ser transigente com a intolerância. Popper estabelece que a primeira diretriz da sociedade aberta deve ser sempre tolerante. A segunda diretriz é que a primeira diretriz não obriga, pelo contrário, a ser tolerante com quem é intolerante.

Papaguear informações

Agora é possível entender melhor o que ocorreu em 2006, na ocasião em que Bandarra mencionou um suposto relatório de uma comissão da Unicamp como se o relatório fosse a palavra derradeira a seu favor. Em seguida, foi desmascarado que o relatório não era o que ele dizia (ele fez uma das suas ilações açodadas e demasiado livres sobre o relatório). Exposta a fraude, Bandarra não contra-argumentou: calou-se sobre o assunto. Essa situação está documentada na seção de comentários do artigo (aqui, o artigo é totalmente dispensável). Estão lá na seção de comentários o primeiro comentário de Bandarra e, pouco depois, a desmontagem da impostura; também está lá na seção o silêncio de Bandarra sobre o desmascaramento.

Bandarra pretende criticar Popper num ataque sem sentido a propósito de uma balela esdrúxula sobre tuberculose: o aspectozinho irrelevante não diz nada sobre os trabalhos de Popper. Ele insiste demasiadamente em atacar Popper sem ter o quê dizer a respeito: ficou completamente descontrolado no esforço, que é visivelmente vão, de atacar Popper. Esse é um dos motivos, entre muitos outros nesse texto de Bandarra, que levaram um leitor a apontar que seu artigo é desconexo, marcado pela falta de sentido e que ele fica escrevendo, escrevendo, a esmo.

Ainda: ao contrário do que Bandarra pode ter achado, eu não tenho identificação com Popper – certamente, não tenho convergência com Popper nas suas questões epistemológicas sobre ciência. De todo modo, a tentativa feita por Bandarra de minar o nome de Popper devido à citação – não sobre ciência, mas sobre intolerância – que eu fiz mostra algo. O problema dele com a passagem citada de Popper não é que ela exponha que ele é intolerante; o problema, para ele, está em Popper se situar contra as intolerância como a dele. Então, estamos de acordo que ele é intolerante. Provavelmente, depois deste texto, Bandarra vai procurar catar informações na internet sobre Stengers e Butler – citados acima – para tentar arranjar algo (qualquer coisa) para tentar desqualificá-los. Se não conseguir, ele se dará o direito de inventar algo como costuma despudoradamente fazer. Ele adora fazer isso, catar informações na internet, e papagueá-las, mesmo que elas não façam nenhum sentido para ele.

O epíteto anti-positivista

Quando ele me trata como anti-positivista, é fruto de uma ilação tão açodada quanto implausível tirada de poucas informações, imprecisas porque incompletas, que ele conseguiu catar na internet. Ele viu, entre as palavras-chaves do meu trabalho de mestrado, a expressão ‘história positivista’, o que não permite induzir nenhuma conclusão minimamente precisa (‘história positivista’, no meu trabalho, é expressão consagradamente usada por importantes historiadores do século 20 para se referirem a importante parcela de historiadores do século 19 que efetivamente não eram positivistas; eu não trato de positivismo, ao contrário do que ele deduziu ao ler as palavras-chaves referentes ao meu mestrado).

Além disso, ao catar informações sobre Popper, ele deve ter visto que Popper é um anti-positivista. Ele tanto se equivoca ao me associar mecanicamente a Popper (só porque eu o mencionei num aspecto) quanto se engana ao acreditar na informação catada por ele: a discussão epistemológica de Popper se dirige preferencialmente contra os chamados positivistas lógicos de Viena, o que não é suficiente para caracterizá-lo (pelo menos não corretamente) como anti-positivista.

Ao me tratar como anti-positivista, simplesmente não disse nada relevante sobre mim, mas é relevante sobre ele que ele considere me ofender quando pretende lançar o epíteto sobre mim.

Disparates e falácias

Então, ele me trata como anti-positivista: não é verdade. Ele me acusa de suspender minha visão crítica frente a alegações sobrenaturais, imaginando que, por eu tê-lo criticado, ele pode automaticamente dizer isso: trata-se de ilação saída de uma imaginação delirante que nada tem a ver com a criatividade (ou imaginação) científica. Ele não tem elementos, seja no meu artigo seja em informações que ele possa catar por aí, para manter isso. Ele diz, de maneira capciosa, que eu defendo ‘que elas [as Universidades] sejam pautadas pelo irracional e que dê [sic] as costas ao conhecimento científico e filosófico para criar belas páginas épicas falsas e belas mentiras piedosas’. Isso é uma atribuição meramente fantasiosa que não se sustenta em pé e que é tão cabeçuda quanto é descerebrada. Ele escreve que eu me engano porque eu supostamente acho que a falta de provas sobre a existência de deuses seja uma questão científica, quando é uma questão filosófica. Quando ele acha que eu teria cometido esse engano? Quando eu pelo menos disse algo a esse respeito? Ele mostrou, novamente, descontrole. Ele não pode ter certeza dessas afirmações que ele faz, mas tem convicção dogmática demais para fazê-las mesmo assim. Não há no meu texto nada que o autorize a achar, como ele açodadamente achou, que o artigo defende a religião. O texto não defende nada, a não ser a tolerância (mas a resposta de seu artigo mostra que é totalmente incapaz de entender isso). O propósito principal do artigo não era defender o que quer que fosse, mas criticar a intolerância, notando os caracteres que pautam seu dogmatismo maniqueísta e sua irracionalidade. É disso que ele devia ter tratado se queria se referir ao meu artigo ao invés de tergiversar, tergiversar, tergiversar.

Não vou me dar ao trabalho de desafiá-lo a fundamentar esses disparates: o comportamento dele no caso do relatório da Unicamp é significativo; ele teve comportamento semelhante recentemente, quando o leitor o desafiou a provar a falácia que ele disse. O comportamento é típico de quem acha que assusta os outros esganiçar-se desentoadamente, mas se gritar com estridência não der certo depois não morde (isto é, depois não tem contra-argumentos racionais para apresentar). Tanto na vez em que denunciaram a falácia de sua interpretação sobre o documento da comissão da Unicamp quanto na recente ocasião em que foi desafiado a provar o que disse ao fazer uma calúnia tola e disparatada, ele, bem-treinado, se fingiu de morto.

Uma grande imodéstia

Um leitor sugeriu – e outro concordou com ele – que Bandarra escreveria suas diatribes contra a religião só porque quer aparecer. Seria bem melhor se fosse apenas isso. Discordo respeitosamente. Não penso que seja isso – certamente, se isso tivesse me ocorrido antes eu não teria escrito meu artigo anterior (ou pelo menos não da mesma maneira) e se eu concordasse com isso talvez nem escrevesse agora. Se fosse apenas questão de querer aparecer, ele não seria tão coerente ao longo de tanto tempo (há bastante coerência interna em seus discursos, embora suas relações de causa e efeito, suas induções e todos os demais elementos de sua formulação sejam inconsistentes; sempre que se indica a inconsistência de sua formulação, ele se limita a apontar para a sua coerência interna). Parece ser evidente que Bandarra escreve porque ele acredita, com convicção dogmática, que a essência da religião é ser fonte da intolerância e que a essência da ciência é vir a ser fonte da redenção da humanidade. Bandarra escreve o que escreve sobre religião devido a seu dogmatismo em relação à religião e à ciência. Hitler queria aparecer (não só para alisar seu ego, mas porque era político e platéia é necessária), mas evidentemente não é que ele quisesse e precisasse aparecer que é o mais relevante a dizer sobre ele. E que haja algo mais relevante a dizer sobre Hitler além de que ele queria platéia não é favorável a ele.

Não é que Bandarra seja dogmático, intolerante, irracionalista e prepotente porque quer aparecer. É precisamente o contrário e é preciso inverter: se ele quer aparecer (o que não importa muito), é por ser dogmático, intolerante, irracionalista e prepotente.

Em tempo: o Sócrates que Bandarra admira não é o personagem histórico, que foi humanista e racionalista, mas é o personagem criado por Platão, que era um irracionalista e anti-humanista que fingia não o ser. Bandarra terá dificuldade de saber sobre essa diferença se se limitar a perseguir informações e catar grãos de milho na wikipédia, sua leitura preferencial. Para conhecer essa diferença, é preciso ler livro bom (sendo que livro bom não é aquele com que concordo muito menos o que oferece um critério único, mas é o livro que pode nos ajudar a aprendermos e a nos tornarmos pessoas melhores). Bandarra deve ter medo de pegar tuberculose se entrar em contato com livro bom. Ele está duplamente enganado: não apenas ninguém pega tuberculose lendo livro bom como ele nem tuberculose é capaz de pegar de livro bom. Cabe acrescentar, nenhum dos dois Sócrates nem Platão eram ateus, de modo que é plausível pensar que a pretensa humildade com que Bandarra recusa se comparar ao seu Sócrates platônico (irracionalista) talvez seja uma grande imodéstia (caro leitor, não se iluda com o post scriptum dele).

Assinalar o irracionalismo

Tão vaidoso ao extremo quanto é irracionalista radical, ele achou que meu artigo anterior queria mandar ele se calar. Não há, no meu artigo, nada que fundamente essa sua pretensa alegação (completamente sugerida já no título de seu texto): novamente, o que ele pretende alegar decorre somente de sua imaginação excessivamente fantasiosa. Não existe leitor universal, de modo que quem escreve se dirige para o leitor que ele escolhe (o que não garante que será lido pelo leitor pretendido nem assegura que não será lido por leitores não pretendidos, mas o mais importante é que para quem ele escreve deve ser considerado na leitura para se entender melhor o texto). O artigo se dirigia a pessoas ponderadas, não-dogmáticas e tolerantes que pudessem se interessar pela argumentação ali formulada e, assim, ponderar com respeito sobre seus argumentos (e ponderar com respeito não significa concordar, embora Bandarra possivelmente não entenda essa diferença, já que ele não costuma mostrar respeito, sequer educação, ao lidar com quem discorda dele). Dessa maneira, não tive nenhuma intenção em mandar ele se calar. Não tenho nenhuma preocupação que ele se cale. Mais ainda: não tenho nenhum interesse que ele se cale. Concordo com ele quando ele diz: ‘caro leitor, não se iluda com o título’ do artigo dele. Por mim, ele pode continuar escrevendo, escrevendo, escrevendo. Por que o presunçoso se enganou e achou o contrário? Certamente, não se trata de um mero equívoco de leitura do meu texto e, pelo menos em parte, a resposta está na pergunta. Não é uma mera questão de interpretação, é uma questão eminentemente política.

Então, fica combinado: toda vez que ele enumerar exemplos de vínculos entre prática religiosa específica (seja prática discursiva ou prática não-discursiva) e intolerância para tentar induzir a conclusão generalista de que toda religião é ‘fonte da intolerância’, poder-se-á ser observado que ele desconsiderou os exemplos em contrário dados pelas práticas religiosas tolerantes, de modo que a indução é inadequada e, talvez, desonesta. Sempre que, a quem com ele não concordar, ele reagir agredindo de maneira absurda e ridícula (tal como ‘você é publicitário e eu, o sábio socrático, sei o que você faz’, como ele acusou recentemente), poder-se-á ser lembrado que não respondeu ponderada e racionalmente aos argumentos, mas tratou de elidi-los. Assim, ficará cada vez mais difícil ele dar credibilidade a seus discursos pretensamente em favor da razão se ele não consegue contra-argumentar ponderada e racionalmente aos argumentos (afinal, pelo menos para as pessoas sensatas, não-dogmáticas e tolerantes, racionalidade se relaciona com argumentação ponderada). Toda vez que ele falar em razão de uma maneira irracionalista, poder-se-á ser assinalado seu irracionalismo.

A máquina escrevinhadora de Bandarra parece desgovernada porque seu proprietário está se mostrando descontrolado. Repito: não me interessa que ele se cale e certamente não me preocupa que ele fale, fale, fale.

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Bacharel em História e doutor em Filosofia pela FFLCH-USP, Campinas, SP

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