Observatorio da Imprensa - Materias - 22/5/2002

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OTTO LARA RESENDE
Os fantasmas do asilo de órfãos

Octavio Mello Alvarenga (*)

"Acaba de morrer seu amigo Otto Lara Resende". A notícia chegou a Veneza como um tiro pelo telefone, quase às vésperas do Ano Novo: dia 28 de dezembro de 1992. Como poderia estar morto quem, conversando comigo às vésperas de minha viagem, dizia ter sido bem sucedida sua operação?

Meu amigo Ivo Barroso sugere aprofundar esta questão da responsabilidade médico-hospitalar naquela morte, de sete anos atrás.

Vamos aos fatos. O conhecido cirurgião Paulo Niemeyer Filho, foi o responsável por duas intervenções na coluna do escritor. Quando constatou-se que as coisas não iam bem, e foi lembrado o nome do competente clínico Abdon Issa para uma junta médica, ele teve insólita reação: "Se o Issa entrar, eu largo o caso". Os familiares, fragilizados, baixaram a cabeça. Otto morreu.

Helio Jaguaribe, cuja filha Cláudia é casada com o primogênito André Lara Resende, no dia do enterro, não teve papas na lingua: "Otto foi assassinado". O filho Bruno dizia ter certeza de que o pai contraíra infecção hospitalar na Beneficência Portuguesa.

Primeira questão: houve Erro médico, por parte do cirurgião? Se houve, trata-se de crime culposo. E quem comete falta deve ser processado e julgado. No caso de Otto, o assunto é contornado nas conversas e jogado para debaixo do tapete.

Outro sanjoanense que morreu do mesmo jeito foi Tancredo Neves. Ao publicar Tancredo Vivo: Casos e Acaso, Ronaldo Costa Couto prestou inestimável serviço à história do Brasil e da medicina brasileira. Várias páginas do longo capitulo "Crime? Imolação? Destino?" podem ser aplicadas àquilo que sucedeu no Hospital da Beneficência Portuguesa do Rio de Janeiro, a partir do dia 9 de dezembro de 1992. O calvário de Otto se deu entre os dias 19 e 28. Internado inicialmente dia 9, para uma cirurgia de hérnia do disco lombar, obteve alta dia 14. Nós nos falamos dia 15 ou 16. Viajei para a Europa quando Otto retornava para o hospital. Otto viajou para sempre dia 28. De acordo com o laudo assinado pelo Dr. Niemeyer, "o paciente desenvolveu uma complicação renal que resultou em grave distúrbio hidroeletrolítico". Morreu de "súbita cardiorespiratória, por provável embolia pulmonar". Provável...

Estranha senhoria

Curvo-me agora sobre seus livros. Converso com parentes e contemporâneos. Folheio uma pilha de artigos de O Globo e da Folha de S.Paulo. Vale o escrito, ensinam os bicheiros. Tratemos, pois, dos escritos que nos legou. Onde está o Otto verdadeiro? Mesmo os mineiros mais atilados não apontam no mesmo rumo. Ao recebê-lo na Academia Brasileira de Letras, Afonso Arinos de Melo Franco foi taxativo: "Sua verdade está na sua ficção". Porém o historiador Francisco Iglésias (destinatário feliz de mais de duzentas cartas de Otto) conclui de outro modo afirmando que "Otto foi sobretudo jornalista". Seus companheiros da Folha de S.Paulo celebraram-no com imensa efusão. Matinas Suzuki Jr, então editor-executivo que o contratou, Gilberto Dimenstein seu companheiro de página, E Janio de Freitas, que para sempre agradece a experiência fundamental de ter integrado a equipe de Manchete, em 1955 quando Otto foi diretor da revista.

Por ocasião do lançamento de Bom Dia para Nascer, em junho de 1993, a Folha promoveu uma reunião em seu auditório com a participação de Moacir Werneck de Castro, Antônio Cândido, Janio de Freitas e Antonio Callado. A angústia de Otto foi ressaltada por Moacir Werneck. Antônio Cândido insistiu na influência de Georges Bernanos na ficção de Otto, "com seu catolicismo passional, com senso do mal e senso do pecado". Callado desenvolveu a tese de que O Braço Direito "é o maior romace católico apostólico romano da literatura brasileira".

Faltou a esta mesa o jornalista Wilson Figueiredo, companheiro de Otto desde Belo Horizonte e no Jornal do Brasil. Wilson se detém na permanente angústia existencial de Otto, sua capacidade de conviver com a UDN e o PSD, com O Globo e o JB, não havendo, contudo, registro de conivênia com nenhuma das formas de intolerância praticada nos ásperos tempos da censura autoritária. "A indignação cívica era a face da sua intransigência visível", afirma Figueiredo.

Tornou-se clássico o episódio na TV Globo, quando Walter Clark pediu a Otto que escrevesse sua carta de demissão enquanto, do outro lado, os diretores-destinatários deram ao funcionário Otto a incumbência de redigir a carta de aceitação.

É inevitável recordar o conversador engraçado e espirituoso, "tentado à maledicência – mas não à malevolência", como acrescenta Hélio Jaguaribe. Otto iniciou cedo sua fama de bom causeur desde os anos 30, nos bancos noturnos da Praça da Liberdade e nas redações de O Diário e Folha de Minas, em Belo Horizonte.

A trajetória existencial de Otto não tem mistérios: de São João del Rei, onde nasceu e completou o curso secundário, vai para Belo Horizonte. Ali faz o curso de Direito e se inicia no jornalismo. Na época era inevitável tentar a travessia da Serra do Curral para sentar praça no Rio de Janeiro, capital da cultura, da política e das mulheres bonitas.

De acordo com Jacques do Prado Brandão, pajé secreto de minha geração, esse salto de Minas para o Rio só não era dado por quem tivesse defeito de fabricação. A afirmativa é verdadeira até a geração que tem ou está perto dos 70 anos. Hoje gente excelentemente fabricada reside em Minas, existindo também alguns "retornados" – mas isso é outra história. O salto dado por ele é idêntico ao de todos (ou quase todos) os que em 1946 freqüentavam a Leiteria Nova Celeste, na esquina da Rua Bahia com Goiás, quartel general do grupo "Edifício" – já focalizado em Palavra, por Humberto Werneck.

A escritora Zora Seljan, hoje casada com Antônio Olinto e a primeira mulher de Rubem Braga, se recorda bem dos primeiros tempos de Otto no Rio – tempos bicudos em que ele passa dificuldades, circulando pelas redações. Nessa época mora sucessivamente na casa de Rubem, de Lucio Cardoso, Pontes de Paula Lima e Murilo Rubião. Helena, viúva de Otto, conhece todos os endereços e recorda o episódio da estranha senhoria que certa noite, ao abrir a porta para o inquilino retardatário, exclama surpreendida: "Mas o senhor já tinha chegado! Eu mesma vim abrir a porta, tenho certeza". Otto mudou de casa. Arranjou um apartamento num prédio da Avenida Atlântica, de frente para o mar.

O acadêmico Antonio Olinto se lembra de Otto já bem situado na Última Hora e na revista Flan, na roda dos que comandavam. Ali também trabalhava Nelson Rodrigues numa mesa ao lado do autor de A casa da Água".

Há mineiros aquáticos e solares, como Ivo Pitanguy e Fernando Sabino, que em suas juventudes foram campeões de natação na piscina do Atlético e depois no Minas Tênis Clube, onde havia uma "missa dançante", a partir das 10 da manhã, para os que retornavam da missa das 9, na Igreja de Lourdes.

Outra família é a dos mineiros noturnos. A ela pertence Otto. A mesma família de Lúcio Cardoso, Cornélio Penna, Alphonsus de Guimaraens. Alguém vislumbrou um calção de praia no guarda-roupa de Otto? Helena confirma que o marido detestava banho de mar e nadar em piscina, mesmo as que construiu em casa, onde os filhos todos, André, Bruno, Cristiana e Heleninha se esbaldavam. É impossível imaginá-lo de sunga olímpica, disputando crawl com Ivo Pitanguy, ou nado de costas com Fernando Sabino, nos campeonatos de natação do Minas Tênis. Em casa de praia ou de montanha , Otto preferia um livro para ler, e se queixava dos malditos mosquitos que lhe picavam as canelas.

O severo professor Antônio Lara Resende, criador do Instituto Padre Machado, residente na Rua do Matola, em São João del Rei, teve 20 filhos com sua mulher, dona Julieta, dos quais vingaram 14: dez homens e quatro mulheres. Otto foi o terceiro da série, nascido em 1o de maio de 1922, depois de Gilberto e Olavo. Em seguida vieram Vicente, Maria, Fernando, Geraldo, Márcio, Terezinha, Julietinha, Acílio, Maria Lúcia, Maria da Glória e Luís Gonzaga.

Jackson de Figueiredo, líder católico de grande influência no seu tempo, foi padrinho de bastismo de Otto. A crônica de 6 de novembro de 1988 – "Amigos nem sempre simpáticos"– recorda essa "figura apaixonada e apaixonante" que tanta influência exerceu, e sua morte trágica, aos 37 anos, por afogamento. Em crônica anterior – "A remota e duvidosa vaquinha" (27/9/87) Otto alude ao inglês Lawrence Hallewell que "sem qualquer prova diz que Jackson de Figueiredo se suicidou em 1928. Leviandade de schollar" (sic).

O frasista e o ficcionista

A convivência com Otto era uma festa, um jorro continuado de mordacidades, provocando inevitavelmente o riso. Ele gostava de ser o centro das atrações, cultivava o dom inato da convivência, apurada com a leitura incessante.

Essa lendária situação valeu-lhe um epitáfio de Fernando Sabino: "Aqui jaz Otto Lara Resende/ Mineiro ilustre, mancebo guapo/ Deixou saudades, isso se entende/ Passou cem anos/ batendo papo".

Não é verdade. Otto foi sempre um escritor. Ficcionista de um pessimismo continuado, como se a graciosidade a que se obrigava na vida social o impelisse permanentemente à rota do maltrato e da violência quando dedilhava a máquina de escrever.

Ao lançar o romance O Braço Direito, em 1962, Otto já era autor de três livros de contos: O Lado Humano (1942), Boca do Inferno (1958) e O Retrato na Gaveta (1962).

O Braço Direito, cujo texto estava sempre reecrevendo, narra a vida infeliz de um diretor de asilo de órfãos, no interior de Minas, que deixa de ser vendedor de botões e, aos 43 anos, solteirão e católico, aceita ser "o braço direito do vigário". O asilo está instalado precariamente. Tudo é pobre, paupérrimo. Em torno dessa carência permanente, o autor vai construindo sua trama: as doenças, as crendices, o sexo camuflado, coisas com as quais o personagem jamais se dá bem. Ele vai anotando no diário sua existência miserável, suas incompetências, dúvidas e arrependimentos.

Aqui tocamos num ponto fundamental para analisar a personalidade do ficcionista Otto Lara Resende: a violência centrada contra os órfãos do asilo tem como nítido contraponto a obsessão em maltratar ou liquidar com os animais – de todas as espécies – quadrúpedes, pássaros ou insetos. Como começa o romance? Quando o personagem principal se encontra com o vigário da localidade. E de que fala o reverendo? De caça. Ensina como matar onças e perdizes.

O livro é um repositório de epitáfios. Chega ao asilo uma porca prenhe, que dá a luz a vários bacorinhos. O personagem a mata com sete tiros na cabeça. Mais adiante o menino Chico Rita come um rato vivo. Há percevejos e baratas naquele lugar onde o telefone está quebrado e falta até termômetro.

Será que os animais domésticos, cachorros e gatos, terão melhor sorte na mão do ficcionista? Qual nada! Exemplo bem característico é o episódio em que o diretor do asilo sai à rua com um dos órfãos e dá de frente com dois vira-latas. Ele escreve no diário: "Deparei com um espetáculo perturbador e nauseante. Os cães engatados, língua de fora, resfolegantes de sensualidade. (...) Meu ímpeto foi de entrar no asilo, apanhar o revólver e liquidar a tiros com os animais".

Se o leitor reparar bem, todos os gatos referidos por Otto acabam sendo mortos. No romance, os órfãos suspeitam que um gambá tinha matado a galinha-choca e alguns pintinhos. Descobre-se que o gato é o verdadeiro culpado. Entra em cena o diretor do asilo: "Daí a pouco, o ladrão estava em cima do muro, lambendo os bigodes, a barriga cheia. Bem na minha mira. O primeiro tiro acertou-o na cabeça, derrubou-o do outro lado". Ainda no clima felino: " (...) uma gata entendeu de deixar uma ninhada de filhos no porão do asilo. Recolhi com nojo os recém-nascidos, meti num saco de aninhagem e mandei o Zé Corubim levar à noite para jogar na Gameleira, bem no fundo".

Um sabiá

Comentei com Helena sobre essa persistência anti-felina e ela garantiu que na vida real ocorria o contrário: Otto gostava muito dos gatos que surgiam na casa da Rua Joaquim Campos Porto, apesar de atacarem os passarinhos. E quando foram morar na última residência do casal – uma casa confortável na Gávea –, tentaram levar o gato siamês Zano para lá. O gato sumiu, depois voltou e afinal desapareceu de todo. Otto escreveu uma crônica sobre o bichano de olhos azuis. Está na coletânea Bom Dia para Nascer, publicada postumamente: "Volte, Zano".

Reli O Carneirinho Azul texto com passagens de lirismo largado, onde Rita Maria irá iluminar, por tempo bastante limitado, o horizonte dos capiaus retratados por Otto. Ela é "espontânea" e "veraz", ao contrário da família do narrador, hipnotizado, em seu apagado cotidiano, "com intimidade, da moça, vinda de fora" que os trata "de uma forma compassiva, ao mesmo tempo carinhosa e superior". Me fez recordar a personagem Ana Maria, de Cyro dos Anjos, que pode ser considerada a flor de A Montanha. Essa Rita Maria, com sua envolvente personalidade, será para sempre uma rosa de alegria na alma tristonha do quase adolescente narrador de O Carneirinho Azul. É um capítulo antológico a descrição da nudez de sua parente, num banho de rio, justamente na véspera de sua partida – para nunca mais dar notícias – para o Rio de Janeiro. Transcrevo algumas linhas, de puro deleite:

"De repente, Rita Maria, ela mesma, a prima, a deusa carioca, surgiu diante de mim, inteira, total, verdadeira – e despida. Meu Deus, estava nua! Que choque, que susto o meu! Estava de maiô. Mas para mim que me deitava no chão para ver-lhe os pés, era como se estivesse nua. Para mim, invadido e obcecado por ela, para mim, que nunca tinha visto um maiô, estava nua! Meu coração disparou, batia no meu pescoço, pulsava dentro de minha boca, me engasgava. E Rita Maria veio se movendo, se melomovendo, e parou bem junto de mim, monumental: ergueu os braços como se eu não existisse."

Duas páginas além, o demônio sadista ataca novamente: o menino-adolescente ao encontrar seu amigo Edu, que o obriga a participar da tortura e morte de um gato, agarrado a força e colocado dentro de um caixote: "Vítima que saltava lá dentro, sufocada, miando e rosnando de raiva e pavor" até o final da operação de envenenamento por aspersão de formicida, de um fole de matar formigas.

Em O Braço Direito há referência a "uma história do tempo antigo, de dois meninos que se meteram no porão da casa de um deles e (...) um matou o outro sem qualquer motivo".

É o tema do conto "O Porão", inserido em Boca do Inferno: dois meninos, Floriano e Rudá, são os protagonistas. Floriano atrai Rudá para o porão de sua casa e o mata a canivetadas.

Bicho que deixou de ser morto em O Braço Direito, o gambá tem morte lenta, pausada e magistralmente descrita no conto do mesmo nome (inserido em O Retrato na Gaveta), quando o Corcundinha, depois de liquidá-lo a cadeiradas, constata tratar-se de uma fêmea e, então, "metodicamente, maciamente, pisou um a um os filhotes que se moviam em várias direções".

"Gato gato gato", em O Retrato na Gaveta, será, possivelmente um de seus mais perfeitos contos. Recorda o comportamento policial do torturador, de fala mansa e gestos aveludados, antes de desfechar a pancada brutal. (É o caso do menino Edu, de O Carneirinho Azul: "Edu foi se aproximando, acariciou com mão amiga as costas de um gato, os olhos semicerrados pela preguiça e pela carícia. De repente, agarrou-o, eu agarrei o outro – e saímos correndo".)

Em "gato gato gato" Otto antepõe um menino a um gato, caminhando em cima de um muro. O felino consegue escapar da pedrada do bodoque, mas termina morto a tijoladas. (De quebra há o detalhe do menino esmagando, com o pé, uma "procissão de formigas atarantadas").

Para redimir-se de tantas mortes de animais, Otto inseriu um sabiá no conto "Mater Dolorosa" retrato de uma constelação familiar aniquilada, vista pela ótica de um menino que vê como tudo passou a girar em torno da doença irremediável da mãe. Ele ganha um sabiá, que "espanadejando asas penas contra as paredes da gaiola" recusava-se a cantar. Afinal, quando a mãe morre, "de novo emplumado e saltitante, em plena aleluia, meu sabiá começou finalmente a cantar".

Raízes sertanejas

No depoimento publicado no segundo número da revista Edifício, em 1946, Otto Lara Resende inicia a lista dos autores que mais o influenciaram citando André Gide. Foi a febre gideana de toda uma geração empapada de Marx e temperada por Freud, mais simpática à foice e o martelo do que à cruz de Cristo.

Para dar maior fidelidade a esta brevíssima análise panorâmica da temática de Otto (claro que é brevíssima, pois nem sequer foram chamados à cena os meninos de "Boca do Inferno", por exemplo), mais do que Gide interessa aqui o filósofo Henri Bergson. No seu belo ensaio "Le rire", Bergson pretende determinar "os procedimentos de fabricação do cômico"; e no capítulo relativo ao cômico de situação e o cômico das palavras, observa: "Tudo que há de sério na vida decorre de nossa liberdade. Os sentimentos que amadurecemos, as paixões que cultivamos, as ações deliberadas, estancadas, executadas, enfim aquilo que vem de nós, ou que nos pertence, eis o que dá á vida seu comportamento às vezes dramático e geralmente grave. O que será preciso para transformar tudo isso em comédia?"

Otto se propôs à perpetuação dessa pergunta, durante toda a vida – e sua obra nos conduz à perplexidade.

Como pode coexistir numa mesma pessoa, numa mesma pena, numa mesma máquina de escrever, essa exacerbada dualidade? Um causeur sedutor e um noturno compositor de textos onde os personagens disputam com os do Marquês de Sade? Pela volúpia de ferir-se? Amava os gatos, asseguram seus próximos – e se comprazia em matá-los, respondem seus leitores. Vale o escrito ou vale o eco das gargalhadas, como as de (cito o mais recente exemplo) Antonio Barros de Castro, então presidente do BNDES, cuja musculatura facial tinha ficado doendo, de tanto rir, da conversa que teve com Otto no avião que os trouxe de São Paulo para o Rio?

Umberto Eco, no seu famoso O Nome da Rosa, ao deslindar o mistério das mortes que se foram sucedendo num convento, "descobre" um texto de Aristóteles. Ali é feita alusão a um livro anterior, que trata da tragédia, e de como ela, suscitando piedade e medo, leva à purificação de tais sentimentos. O livro fatal examina a comédia e os modos pelas quais ela suscita o riso.

Eis aí uma trajetória filosófica que não esperava encontrar, ligando Aristóteles a Umberto Eco.

É possível que essa trajetória também não tivesse ocorrido ao professor Antonio Lara Resende, quando trancafiou seu terceiro filho no Internato do Instituto Padre Machado, em São João del Rei. Esta informação de Helena Pinheiro Lara Resende me supreendeu. "Internado?" "Sim, senhor! Otto foi interno no colégio do próprio pai, e é muito provável que mantivesse contato com os meninos órfãos do Asilo Santo Antonio".

Vou à Notícia de São João del Rei, de Augusto Viegas, e lá está uma sugestão para o início do "comportamento dramático" aludido por Bergson. Diz Viegas: "O prodigioso espírito do Patriarca de Assis, refletindo-se no coração de piedosos confrades da Venerável Ordem Terceira de S. Francisco nesta cidade, os levou a fundarem aqui, em 1888, o Asilo de S. Francisco de Assis, destinado á educação de órfãos". E mais adiante: "De 1921 até 1939, por contrato celebrado entre a Administração da Ordem e o Instituto Padre Machado, neste acreditado educandário, a que se anexara, recebiam o ensino doze asilados".

Os doze apóstolos que seguiram, vida afora, como fantasmas inexorcisáveis, a sensibilidade do escritor Otto Lara Resende. Os efeitos de Aristóteles sobre Tomás de Aquino são questões de Filosofia aplicada. Nunca se sabe a quantas fica a cabeça de um menino, afilhado de Jackson de Figueiredo, na Minas Gerais abissal que acompanha cada um dos que nascidos do lado de lá da Mantiqueira vão cumprindo seu fado à beira mar.

As raízes sertanejas da família Lara Resende foram salientadas por Otto no artigo "Verde é verba", que escreveu em novembro de 1991 para a revista A Lavoura, da Sociedade Nacional de Agricultura: "Não nasci nem fui criado em fazenda, mas sei que o meu umbigo está na lavoura, da qual todos acabamos de sair. Brasileiro é tudo cabra do eito".

Aliás nesta revista todos os quatro "cavaleiros do apocalípse mineiro" – Paulo Mendes Campos, Fernando Sabino, Otto Lara Resende e Helio Pellegrino – juntaram-se aos mais característicamente cavaleiros do Edifício: Francisco Iglésias, Sábato Magaldi, Wilson Figueiredo.

Na familia de Otto, quem sempre freqüentou e amava a vida de fazenda é sua mulher Helena, cujos pais foram proprietários rurais em Paracatu e Caeté.

"Sinistra alternativa"

Ao regressarem ao Brasil, depois de cinco anos na Europa, como adido cultural na Bélgica e em Portugal (onde Helena ficou grávida da caçula Heleninha), o casal foi obrigado a morar um ano com os sogros, num último pavimento de um triplex na rua Assis Brasil, onde Israel Pinheiro fizera um canteiro de alfaces, rabanetes, salsa, cebolinha, tomates. Essa miniatura de fazenda transposta para Copacabana parece ter valido como o grão de mostarda da Bíblia, que cai em terra fértil. André, primogênito de Otto e Helena, acaba de comprar uma fazenda no interior de São Paulo.

A saída de Otto das Organizações Globo, determinada por Roberto Marinho, provocou repercussões da mais variada espécie, inclusive um artigo irado de seu filho Bruno. O editor José Mario Pereira, em texto ainda inédito, aponta como um dos motivos da demissão de Otto o fato de ele não resistir ao talento histriônico e ter passado a imitar seu chefe, mesmo em público. A versão é plausível. Contudo, não há mal que sempre dure. E o triste transmudou-se em alegre quando o cronista, demitido da Globo, foi convidado para escrever uma crônica diária para a Folha de S.Paulo . Otto conquistou mais leitores e mais amigos.

Poucos se dão conta de que embora tenha se estabelecido no Rio de Janeiro, hoje todos os seus livros e todos os seus arquivos transferiram-se para São Paulo. Estão no Instituto Moreira Salles. No Rio, só ficaram retratos em albums da família.

Comecei esta conversa citando Otto na Academia, me esquecendo de mencionar a angústia de que foi tomado, e da qual foi testemunha Afonso Arinos Filho, hoje acadêmico, e que na juventude foi chaperon de Helena quando ela começou a namorar o Otto. No caso da ABL, quem lhe deu o primeiro sinal verde foi o próprio presidente Austregésilo de Atayde, tão logo faleceu Elmano Cardim. Austregésilo telefonou ao futuro acadêmico, com a ajuda do genro Cícero Sandroni, que escutou a conversa e ficou a par da secreta esperança de Austregésilo de que O Globo iria apoiar ostensivamente a candidatura. Como nenhum sinal disso ocorria, o presidente da ABL suspirava: "Mas, o Roberto [Marinho] não se mexe!" Agora se sabe por quê.

Anos depois, quem se candidatou à vaga de Otto? O próprio presidente das Organizações Globo, que só teve palavras de elogio para seu antecessor.

A elegância de Otto, na soleira da Academia, correspondeu à finura de Roberto Marinho, deixando para trás quaisquer ressentimentos. Talvez por inefável vibração do espírito de Elmano Cardim, durante muitos anos diretor do Jornal do Commercio, um dos poucos órgãos da imprensa brasileira onde Otto não colaborou.

Na sessão solene de 2 de outubro de 1979, já titular da cadeira 39, o novo acadêmico arrebataria das mãos do poeta João Cabral de Melo Neto o cetro de benjamim da Casa. Otto deixou anotado: "Na altura em que nos encontramos, temo ao menos por mim, que já não seja um cetro, mas seja antes um cajado em que prestes se arrime a idade provecta a que todos estamos condenados, a menos que optemos pela única sinistra alternativa".

Coisa estranha! Se auto-intitulando sempre de "velho" Otto fala em chegar á "idade provecta" E pela primeira vez (que me recorde) refere-se ao suicídio. Nenhuma das alternativas se concretizou. Uma operação considerada simples, feita para atenuar a dor que a maioria das pessoas aos 70 anos sente, resultou no final de sua vida.

Pode ser que o médico-cirurgião tenha sido tomado pela alma penada do órfão que morreu de pneumonia – e entortou o bisturi, ou cuspiu na cicatriz da ferida. O diabo atenta sem aviso prévio.

(*) Escritor, advogado e presidente da Sociedade Nacional de Agricultura

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