Observatorio da Imprensa - Materias - 02/09/2003
 
  02/09/2003 3/4

Envie para um amigo  Procure no arquivo

O POVO
Roberto Maciel

"No terreiro da cópia", copyright O Povo, 31/8/03

"O Guia de Redação e Estilo do O Povo traz esta definição: ‘Plágio – O Povo considera prática inadmissível de seus jornalistas a utilização de textos, idéias ou trabalhos de levantamentos de pessoas ou instituições, sem que se atribua à verdadeira fonte. Essa prática constitui crime, mesmo que apenas partes tenham sido copiadas’. Mais do que norma interna, é uma questão ética que envolve também a legislação internacional sobre propriedade intelectual. E, até sem depender da extrema atenção dos gestores da Redação, os repórteres sempre citam a origem de informações que inserem nas matérias. Contudo, textos do francês Pierre Verger (1902-1996), um dos mais respeitados pesquisadores da cultura negra e das religiões afro-brasileiras, estavam sendo, digamos, incorporados pela página ‘Ocultismo’, do caderno Buchicho, escrita pela mãe de santo Jussara Camargo – que assina como Mãe Jussara. Radicado em Salvador (BA), o francês adotou o nome de Pierre Fatumbi (‘renascido do Ifá’) Verger ao abraçar o candomblé como fé. Entre seus livros, ‘Orixás – Deuses Iorubás na África e no Novo Mundo’ e ‘Notas sobre o culto aos orixás e voduns’, frutos de anos de pesquisas e viagens por dois continentes, são referências da área.

Terça-feira passada, Jussara me disse por telefone que não tem ‘a obrigação de saber’ sobre as leis que regem os direitos do autor. Daí não ter hesitado em usar a produção de Verger. Ela admitiu que baixa dados de diversas fontes – na Internet, inclusive, onde há vários sites com os mesmos textos, alguns também sem menção ao autor –, mas garante que faz uma ‘triagem’. ‘Coloco (no O Povo) só algumas partes. Não coloco tudo porque, dentro do meu aprendizado com meu pai de santo, nem tudo que se vê é correto para a gente’, disse. Segundo ela, das quatro edições publicadas até a semana passada, apenas as de 17 e 24 de agosto usaram trechos alheios. Jussara Camargo se diz também psicóloga. Abstraindo-se, então, o fato de uma profissional de nível superior afirmar que ignora regras relativas à propriedade do autor sobre a obra, cabia aos editores do Buchicho orientá-la sobre isso. O que, conforme o editor Marcos Tardin, está sendo feito agora. Em tempo: ainda na terça, a mãe de santo e psicóloga Jussara Camargo me garantiu que se esta Coluna a ‘pichasse’ ela passaria a ter ‘problemas pessoais’ comigo.

Velho estado

O estado paternalista, mantenedor de privilégios, foi o principal alvo das gestões neoliberais do Governo brasileiro. Fernando Collor de Melo e Fernando Henrique Cardoso assumiram um ideário de franca oposição ao modelo de antes, promovendo o criticado ‘enxugamento’ do patrimônio público. O tucano FHC deu a martelada final, desfazendo governos estaduais e União das estatais que pôde leiloar – parte do empresariado aplaudiu entusiasticamente, chamando as medidas de modernas. Sexta-feira última, a matéria ‘Dívida ativa – Empresários dizem que cobrança vai prejudicar negócios’, em Economia, que tratava de reações à decisão do Governo do Ceará de protestar dívidas tributárias de empresas, trouxe a seguinte informação: ‘O presidente da Federação das Indústrias do Estado do Ceará (Fiec), Jorge Parente, avalia que as empresas não estão em condições de pagar os valores que devem por conta da conjuntura do País. Para ele, as taxas de juros ainda estão entre as mais altas do mundo e a carga tributária também prejudica a saúde financeira do setor produtivo’.

É óbvio que não se pode tomar a análise como uma defesa de sonegadores – nem de longe Jorge Parente diz isso. Mas O Povo deixou de perguntar a ele se a avaliação serve também para consumidores que, por dificuldades financeiras, deixam de pagar às empresas. Na mesma matéria, o presidente da Federação do Comércio do Estado do Ceará (Fecomércio), Gastão Bittencourt, se expressou assim: ‘Não se deixa de pagar por pirraça. Ou a saúde financeira da empresa impede a quitação da dívida ou o valor cobrado está sendo questionado na Justiça’. Nenhuma pergunta também lhe foi feita – afinal, os meios de proteção ao crédito, que colocam na lista negra, por exemplo, inadimplentes com o comércio, não consideram se falta dinheiro ao devedor. Afinal, em que diferem ou se assemelham, em meio à crise, pessoas jurídicas e pessoas físicas?

Golpe de vista

A imagem acima é a da metade da capa do O Povo de quarta-feira. No jargão das redações, chama-se essa parte de primeira dobra – é a primeira visão que o leitor costuma ter do exemplar, é onde habitualmente está a manchete. Mas, ao contrário do que muitos podem ser levados a supor, a foto do poste sobre a motocicleta nada tem a ver com a manchete. O poste caiu em cima da moto porque estava com a base enferrujada, conforme se pôde ler no texto que ficou sob a dobra. Não foi um acidente de trânsito, mas um acidente no trânsito. A Redação garante que a disposição de imagem e texto não foi deliberadamente confusa nem uma coincidência.

A propósito dessa manchete, O Povo não indagou o básico aos gestores da Autarquia Municipal de Trânsito – e, conseqüentemente, não informou ao leitor: por qual motivo as mortes no trânsito diminuíram?

NO e NE, não: N e NE

Pode parecer confuso o título acima, mas se refere à manchete da página 24 (Economia) de quinta-feira: ‘Crédito – NO e NE lideram ranking do cheque sem fundo no País’. Houve um erro. A matéria referia-se às regiões Norte e Nordeste. Mas, em Geografia, ‘NO’ é a abreviatura de Noroeste. Norte é simplesmente ‘N’. O Povo não publicou correção."

Mande-nos seu comentário


Observatório | Índice da edição | Busca
Objetivos | Purposes | Edições anteriores
Modo de Usar | Banca | Jornalistas na Net | Equipe