REDE BANDEIRANTES

Mulheres ricas, a ostentação na TV

Por Francisco Fernandes Ladeira em 10/01/2012 na edição 676

O Brasil apresenta uma das piores distribuições de renda do planeta. Segundo estudo realizado pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), nosso país tem o terceiro pior índice de desigualdade do mundo. Aproximadamente 10% da população concentra cerca de 44,5% da renda.

De acordo com o economista Celso Furtado (1920-2004), alguns hábitos da classe dominante podem explicar a vertiginosa disparidade social que impera no Brasil. A elite brasileira tem como padrões de consumo os países de renda bem mais elevada que o nosso. Assim, para sustentar esse alto padrão de consumo, é necessário que essa parcela da população concentre grande parte da riqueza gerada no país. Outra característica de nossa elite econômica é o seu caráter ostentatório. Não basta ser rico, é preciso demonstrar rotineiramente o seu status social através da exibição de bens materiais e imateriais (mansões, carros importados, roupas de grife, joias, possuir vários empregados e adotar certos hábitos e costumes).

Nos últimos anos essa elite econômica tem sido exaustivamente retratada nas principais telenovelas globais. Trama após trama, principalmente durante o horário nobre, milhões de telespectadores deparam com a exibição de um estilo de vida impossível de ser atingido pela esmagadora maioria da população. Como “pobre gosta é de luxo, quem gosta de miséria é intelectual” (lembrando a clássica frase de um carnavalesco); a TV Bandeirantes resolveu ir além da emissora da família Marinho e apresentou na segunda-feira (02/01) o programa Mulheres ricas, o reality show que acompanha o cotidiano de cinco milionárias – Val Marchiori, Narcisa Tamborindeguy, Brunete Fraccarolli, Lydia Sayeg e Débora Rodrigues.

“Eu sou amazing

Val Marchiori – linda, loira, alta e magra, segundo definição da própria – é apresentadora, empresária e a mais nova emergente da alta sociedade paulistana. A rotina da oligofrênica milionária, sempre acompanhada do cabeleireiro e maquiador Dudinha, é dividida entre compras, eventos e apreciar bons champanhes (qualquer semelhança entre Dudinha e o personagem Clô, da novela Fina Estampa, não é mera coincidência).

Enquanto o brasileiro comum sonha com um transporte público de qualidade para que possa se deslocar de casa para o local de trabalho com o mínimo de conforto, a principal preocupação de Val é comprar um avião novo (preferencialmente que não faça escalas, pois ela odeia parar). Dinheiro não é problema para a apresentadora. Adquirir um avião de 30 milhões de reais é como comprar uma blusa nova.

Narcisa Cláudia Saldanha Tamborindeguy (“Saldanha da alta aristocracia portuguesa”, faz questão de ressaltar) é advogada, jornalista e autora de dois livros. “Eu sou amazing, fantástica, intensa. Devo ser tratada como uma pérola”, diz sem modéstia. A socialite é presença constante em revistas e programas de televisão sobre celebridades. Entre suas principais fontes de entretenimento estão viagens para a Europa e EUA, se divertir na piscina do Copacabana Palace e frequentar as festas mais badaladas da noite carioca.

Automóveis luxuosos

Brunete Fraccaroli é uma famosa arquiteta paulistana que não larga a cadela maltês, não fica sem água mineral Perrier e vive como uma verdadeira boneca (inclusive há uma boneca Barbie que leva o seu nome). “Nasci nos Jardins (região nobre da capital paulista) em uma família muito rica”, faz questão de frisar. Para a milionária, luxo é poder sair com a sua cadela Cissi no colo e poder ir trabalhar com ela. “Cissi é uma cachorrinha feliz, criada feito gente, com todo o amor do mundo, vive melhor que muita gente, infelizmente”, assevera. Realmente, o Brasil seria um país muito melhor se os seus pobres tivessem o mesmo padrão de vida da cadela Cissi.

Já Lydia Leão Sayeg é gemóloga e proprietária da famosa Joalheria Leão. “Eu nasci em um berço de ouro, literalmente”, salienta. Entre as extravagâncias da joalheira estão tomar banho com água mineral, alugar uma Ferrari para “dar uma voltinha”, colecionar vestidos Chanel e possuir dois seguranças pessoais; “coisas simples”, segundo ela. Lembrando o padrão de consumo da elite brasileira, segundo Lydia “o rico tem a obrigação de gastar, se o rico não gastar, o dinheiro não gira, se o dinheiro não girar, o pobre não ganha”.

Por sua vez, Débora Rodrigues é a única participante do programa a ter uma origem humilde. É filha de um caminhoneiro e de uma dona-de-casa. Já trabalhou como babá, frentista, motorista de ônibus de bóias-frias e de caminhão, recepcionista e secretária. “Eu não tinha dinheiro para comprar um fósforo”, relembra. Débora causou grande polêmica nos anos 90 ao deixar o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e posar nua para uma famosa revista masculina. Posteriormente foi apresentadora no SBT. Atualmente é piloto de automobilismo e moradora de Alphaville, bairro nobre da Região Metropolitana de São Paulo. Como boa parte dos brasileiros que ascendem economicamente, a forma encontrada por Débora para legitimar a sua nova condição social é adquirir automóveis luxuosos.

Afronta a milhões de brasileiros

Em suma, o que se viu ao longo do primeiro episódio do reality show Mulheres ricas foi um festival de extravagâncias escalafobéticas. Ou seja, um retrato fiel do estilo de vida da elite econômica brasileira. Parafraseando o tema de uma conhecida campanha publicitária de cartão de crédito, existem coisas que o dinheiro não pode comprar, e o bom senso, certamente, é uma delas.

Por outro lado, o programa pode ensejar importantes reflexões sobre as facetas mais cruéis de nosso capitalismo periférico. De um lado, está uma minoria que possui os meios (materiais e imateriais) necessários para realizar todas as suas aspirações e desejos. De outro lado, invisíveis para os meios de comunicação e excluídos pelo sistema vigente, estão os indivíduos que levam uma existência deletéria, caracterizada por todo tipo de privação.

Sendo assim, exibir em rede nacional um programa marcado pelo esbanjamento, futilidade e ostentação é, no mínimo, uma afronta a milhões de brasileiros miseráveis e famélicos.

***

[Francisco Fernandes Ladeira é especialista em Ciências Humanas, Brasil, Estado e Sociedade pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) e professor de História e Geografia em Barbacena, MG]

ATENÇÃO: Será necessário validar a publicação do seu comentário clicando no link enviado em seguida ao endereço de e-mail que você informou. Só as mensagens autorizadas serão publicadas. Este procedimento será feito apenas uma vez para cada endereço de e-mail utilizado.

Nome   Sobrenome
 
     
E-mail   Profissão
 
     
Cidade   Estado
 
     
Comentário    

1400
   
Preencha o campo abaixo com os caracteres da imagem para confirmar seu comentário, depois clique em enviar.
Recarregar imagem
   
   



Este é um espaço de diálogo e troca de conhecimentos que estimula a diversidade e a pluralidade de ideias e de pontos de vista. Não serão publicados comentários com xingamentos e ofensas ou que incitem a intolerância ou o crime. Os comentários devem ser pertinentes ao tema da matéria e aos debates que naturalmente surgirem. Mensagens que não atendam a essas normas serão deletadas - e os comentaristas que habitualmente as transgredirem poderão ter interrompido seu acesso a este fórum.

 

 renato reis
 Enviado em: 10/01/2012 10:37:46
A programação da televisão aberta brasileira precisa da passagem de um tsunami que nos ajude a reformular a programação, implementar valores eticos na programação e ajudar nossa sociedade a crescer, refletir e se intreter com qualidade e esse programa "criado" pela BAND realmente vai na contra mão do que o mundo que pensa e é realemnte humanizado vem buscando. Estamos querendo achatar a desigualdade social, buscar valores éticos, padrões de consumo sustentáveis. É lamentável que milhares de pessoas tenham suas casas e vidas invadidas por programas como este.
 Luiz Maia
 Enviado em: 10/01/2012 14:26:31
Eu também encaro um programa desse tipo como uma afronta!Vi apenas o episódio de ontem (09/02) para não dizerem que eu não sei se gostei ou não porque não vi! Essas pessoas como a Val não tem valor nenhum para a sociedade! "Aqui pobre não vem!"Isso é algo que se diga em rede nacional?Fora muuitas outras coisas ditas por todas elas,principalmente Lydia! Não dou mais 0,5 ponto de audiência a essa emissora deplorável,que vai cair ainda mais com esse tipo de programação!
 ANGELICA MORAIS GOMES
 Enviado em: 10/01/2012 19:51:22
É lamentável ver tanta bobagem junta. A televisão brasileira perdeu o senso do rídiculo, como podem nos agridir com tamanha atrocidade. Tudo bem tenho o controle remoto na mão e o livre arbitrio para trocar de canal quando quiser e fiz isto no momento em que percebi que asneira era aquela de Mulheres Ricas. Tenha paciencia, este programa é no mínimo idiota, com pessoas que ostentam o luxo e só. Foi lamentavel ver como uma das participantes tratam seus subordinados. A band terá minha eterna antipatia devido a falta de senso do ridiculo ao exibir este lixo luxuoso, onde a futilidade dita as regras. À proposito quem será a mais futil de hoje?
 Barbara Cerqueira
 Enviado em: 11/01/2012 16:50:38
Infelizmente a tv Bandeirantes só está mostrando o que é realidade em nosso Brasil. Ou cada um de nó pensa que os ricos do nosso país não vivem aquilo tudo que aquelas mulheres estão mostrando no programa de tv? Afronta também é um menino de 19 anos de idade receber 3 milhões de reais por mês e muitos acharem que isso é normal, pois estamos no ex país do futebol. E como fica um pai de família assalariado? Para pagar contas, supermercado, aluguel...?é uma verdadeira injustiça social.
 silvio tavares
 Enviado em: 12/01/2012 11:50:28
assisti a um pedaço do programa. De imdediato sensibilizou-me as atitudes das protagonistas. Lembrei-me de uma antiga entrevista com o genial arquiteto Oscar Niemeyer em que ele comentava "...as elites no Brasil são dadas a gargalhadas, jóias exuberantes, champagne, mas são muito mal preparadas, muito ignorantes. Em nada colaboram para reduzir a miséria que nós, comunistas de carteirinha, sempre sonhamos eliminar"...É uma pena toda essa perda de tempo na televisão brasileira, independentemente do respeito que as moças merecem como seres humanos que são.
 suzana seguro
 Enviado em: 15/01/2012 22:38:07
O artigo é ótimo. Gostaria de acrescentar que ao copiar o padrão de consumo de outros países condenamos mais ainda nosso planeta. Não temos recursos naturais para manter esse padrão de consumo por muito tempo. Então, estamos condenando as futuras gerações. Minha mãe tinha um ditado "dias de muito....vésperas de nada"!!!
 suzana seguro
 Enviado em: 15/01/2012 22:48:11
O artigo é ótimo. Gostaria de acrescentar que ao copiar o padrão de consumo de outros países condenamos mais ainda nosso planeta. Não temos recursos naturais para manter esse padrão de consumo por muito tempo. Então, estamos condenando as futuras gerações. Minha mãe tinha um ditado "dias de muito....vésperas de nada"!!!
 Jordão Calátroia da Rocha
 Enviado em: 21/05/2012 19:55:52
Olá! Gostaria que vcs me indicassem um libro onde eu possa me basear nas reportagens, sobre o "programa mulheres ricas". Gostaria de encontrar um teórico que fale sobre a coroa portuguesa e a influência desta na elites brasileiras etc... Desde já agradeço.

Francisco Fernandes Ladeira

CAMPANHA ELEITORAL

Marina, a grande imprensa e a mídia pelega

Francisco Fernandes Ladeira | Edição nº 815 | 09/09/2014 | 3 comentários

‘ESQUENTA’

A queda da qualidade da programação

Francisco Fernandes Ladeira | Edição nº 814 | 02/09/2014 | 0 comentários

INDÚSTRIA CULTURAL

Adorno e a decadência dos programas de TV e rádio

Francisco Fernandes Ladeira | Edição nº 813 | 26/08/2014 | 0 comentários

CORRIDA ELEITORAL

Parcialidade midiática

Francisco Fernandes Ladeira | Edição nº 812 | 19/08/2014 | 1 comentários

REDES SOCIAIS

Como o Facebook vem mudando a nossa existência

Francisco Fernandes Ladeira | Edição nº 810 | 05/08/2014 | 1 comentários

Ver todos os textos desse autor