CASO CESARE BATTISTI

Um peso e várias medidas

Por Francisco Fernandes Ladeira em 31/01/2012 na edição 679

Historicamente, a grande imprensa brasileira (leia-se famílias Marinho, Civita, Saad e Frias) está acostumada a manipular boa parte da população e a impor a sua ideologia conservadora como “verdade inquestionável”. Todavia, nos últimos anos, nossa “mídia oficial” vem sofrendo importantes derrotas: nas últimas três eleições presidenciais, por exemplo, não conseguiu eleger os seus candidatos preferidos e, mais recentemente, não pôde impedir a grande repercussão e sucesso de vendas do livro Privataria Tucana, do jornalista Amaury Ribeiro Júnior. Quando contrariados, os poderosos conglomerados do setor de comunicação não se furtam em procurar distorcer a realidade e despejam todo o seu ódio contra aqueles que não compactuam com suas ideias. Chegam até, em alguns casos, a tentar passar por cima da justiça brasileira. Um caso emblemático dessa prática nefasta foi a cobertura midiática sobre a negação do governo brasileiro ao pedido de extradição do escritor e ex-ativista político italiano Cesare Battisti.

Battisti, que durante a década de 1970 militou na organização de extrema-esquerda Proletários Armados pelo Comunismo (PAC), foi condenado pela justiça italiana à prisão perpétua, acusado de envolvimento no assassinato de quatro pessoas entre 1977 e 1978. No entanto, o julgamento ocorreu à revelia (portanto, sem a presença do acusado), apresentou algumas falhas técnicas e contou com a participação de testemunhas que se beneficiaram de delação premiada. Segundo a opinião de vários especialistas em Direito, a condenação do ex-ativista atendeu mais a objetivos politícos do que propriamente judiciais.

As contradições do julgamento

Por ser perseguido em seu país, Battisti atravessou os Alpes e se estabeleceu na França (posteriormente, ele chegou a morar no México). Os pedidos do governo de Roma pela extradição do ex-ativista foram negados pela Corte de Acusação de Paris em duas ocasiões, até que, em 2004, durante o governo JacquesChirac, o Conselho de Estado da França analisou novo pedido e autorizou que Battisti fosse extraditado. Entretanto, antes que o decreto fosse assinado, Battisti fugiu para o Brasil. Em 2007, o governo da Itália apresentou o pedido de extradição de Battisti ao governo brasileiro. No mesmo ano ocorreu a prisão preventiva do ativista. Em 2009, o Supremo Tribunal Federal autorizou a extradição, mas definiu que a decisão final, conforme promulga a Constituição Federal, caberia ao presidente da República. Sendo assim, em 31 de dezembro de 2010, último dia de seu mandato presidencial, Lula anunciou que não concederia a extradição do ex-militante. Porém, devido a algumas pendengas judiciais, Battisti continuou preso e, finalmente, no dia 8 junho de 2011, o Supremo Tribunal Federal decidiu, por seis votos a três, pela sua libertação.

Concomitantes à decisão da justiça brasileira, as grandes emissoras de televisão e os principais jornais e revistas de circulação nacional prontamente iniciaram uma ostensiva campanha contra o governo brasileiro e Cesare Battisti. Praticamente toda a edição do Jornal da Globo do dia 8 de junho foi utilizada para difamar o italiano. Para a revista Veja, porta-voz do pensamento ultrarreacionário no Brasil, a decisão sobre o caso Battisti é um símbolo da política exterior hipócrita do governo Lula (qualquer forma de diplomacia independente e que não se submeta incondicionalmente aos interesses dos países centrais é mal vista pela publicação da família Civita). Até o SBT, tradicionalmente uma emissora alienada politicamente, se manifestou sobre o caso: “Tão absurdo quanto dar abrigo a carrascos nazistas e ditadores sanguinários é receber de braços abertos terroristas como Cesare Battisti.”

Boris Casoy foi taxativo em seu comentário no Jornal da Noite, da TV Bandeirantes: “O ex-terrorista Cesare Battisti e seu grupelho se insurgiram contra a democracia italiana e fizeram dos assassinatos, sequestros e roubos a sua bandeira. Não lutavam contra uma ditadura, mas sim, contra um país, sem dúvida, democrático. Battisti foi submetido a processo legal pela justiça de um país livre e foi condenado em todas as instâncias. Dar refúgio político a um criminoso, cuja pena é prisão perpétua devido a quatro assassinatos, é uma verdadeira ignomínia.” No entanto, o veterano âncora, que em certa ocasião chegou a afirmar que “os lixeiros” representam “o mais baixo da escala do trabalho”, não mencionou uma frase sequer sobre as várias contradições que envolveram o julgamento do ex-ativista. Também é importante salientar que a mobilização pela extradição de Battisti foi um oportuno pretexto para o neofascista Silvio Berlusconi escamotear os inúmeros casos de corrupção envolvendo o seu mandato como primeiro-ministro.

Opiniões ignoradas

Não obstante, semana passada, após um encontro informal com o governador gaúcho Tarso Genro na terça-feira (24/1), Battisti voltou aos noticiários e, como era de se esperar, mais uma vez foi vítima de um massacre midiático. Reinaldo Azevedo,paladino da direita brasileira e articulista da revista Veja, afirmou em seu blog que Tarso abriu as portas do Palácio Piratini (sede do Poder Executivo do Rio Grande do Sul) para um assassino.

Em seu Jornal da Noite, a Rede Bandeirantes questionou o fato de o governo brasileiro ter abrigado o italiano e, em contrapartida, autorizar a extradição de atletas cubanos que pediram asilo político durante os Jogos Pan-Americanos de 2007. Ora, Battisti é perseguido político e corria sério risco de vida se retornasse ao seu país. Pelo que consta, os atletas da ilha caribenha não eram perseguidos pelo governo de Havana e tampouco poderiam ser mortos ao retornarem a Cuba.     Já o colunista Claudio Humberto, do Jornal do Brasil, que não titubeou em se referir a Battisti como ex-terrorista, asseverou que o governo petista “envergonhou” o país ao “garantir impunidade ao italiano”.

Para a grande mídia brasileira, opositores a regimes políticos considerados abjetos pela “comunidade internacional” (eufemismo para designar a ideologia dos Estados Unidos e seus aliados) são “dissidentes”; por outro lado, os indivíduos que são contrários aos governos atrelados aos interesses de Washington são qualificados como “terroristas”. Por que dois pesos, duas medidas?

Ademais, o que se pode esperar de uma imprensa que criminaliza movimentos sociais (notadamente o MST), que já tentou manipular um processo eleitoral (contra Leonel Brizola em 1982) e contribuiu para a eleição de um presidente altamente corrupto (Fernando Collor em 1989)? Em última instância, é preciso questionar o porquê de a grande imprensa brasileira apresentar quase sempre uma visão unidimensional da realidade. Apenas determinado ponto de vista tem espaço nas maiores emissoras de televisão e nos principais jornais e revistas do país. Opiniões alternativas ao status quo são, propositalmente, ignoradas. Afinal, não vivemos em um país democrático? Diante dessa realidade, não é por acaso que o acrônimo PIG – partido da imprensa golpista – tem sido cada vez mais utilizado no Brasil.

***

[Francisco Fernandes Ladeira é especialista em Ciências Humanas, Brasil: Estado e Sociedade pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) e professor de História e Geografia em Barbacena, MG]

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 PEDRO HERMES FILHO
 Enviado em: 05/02/2012 22:30:18
Professor, quando a mídia gritou junto com todo mundo para derrubar o Collor? Ela fez certo ou não? Sem ela, esses patetas da UNE seriam apenas uma nuvem espalhada pelo primeiro vento da hora. Quando a VEJA publicou a entrevista do Pedro Collor detonando o esquema PC Faria, ela fez certo? Quando Élio Gáspari metia um pau por artigo em FHC, inclusive cunhando o termo "privataria", a Folha era boa? - Apesar da educação fundamental de qualidade estar privatizada nas escolas particulares e a saúde melhorzinha estar privatizada nos plantos privados, seguros e convênios, Élio Gáspari nunca referiu a esse aleijão nacional como "privataria". Quando Josias de Souza, Clóvis Rossi, Cony, Ancelmo, Veríssimo,etc., metiam o pau em FHC sistemáticamente a mídia brasileira tinha a medida certa? Professor, qual jornalista brasileiro é bom? Cite o nome de alguém. Procure a mídia brasileira de antes de 2003 e veja como ela tratava o governo FHC. Mídia é para dar opinião. Não existe mídia que não tenha preferência política , ideológica e partidária. É assim com Gramna, Pravda, VEJA, Reinaldo Azevedo, etc.. O vergonhoso é a mídia comprada, aquela que coloca o dinhairo acima da informação e da educação da massa. Quando Lula gastou bilhões de reais com propaganda durante seu governo, a mídia foi boa? O senhor a criticou também por isso? Vamor ver.

Francisco Fernandes Ladeira

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