JORNALISMO CIDADÃO

A cobertura da rebelião e da repressão

Por Sergio da Motta e Albuquerque em 14/02/2012 na edição 681

“Um jornalista cidadão não pode ter acesso aos acontecimentos e eventos mais importantes da sociedade”, dizem alguns opositores deste novo personagem do mundo das notícias. “Eles não têm credenciais”, argumentam eles. Mas este argumento é falho. Não resistiu a realidade dos fatos. Como disse Jay Rosen, em 2009, “não sei de onde vem a ideia de que o jornalista é alguém com o nome na lista, ou com credenciais do departamento de polícia, e todos os outros são impostores”, comentou o prestigiado crítico de mídia.

Anderson Cooper, um repórter da CNN que vem cobrindo sistematicamente os eventos trágicos na Síria, em uma reportagem (6/2) entrevistou um ativista local, Zaidan, por telefone. O diálogo todo prosseguiu em off. Enquanto conversavam, filmes amadores postados no YouTube eram exibidos, expondo a brutalidade da repressão em duas cidades da Síria. Denúncias do massacre em Homs (cidade que fica a quase 30 km da fronteira com o Líbano) foram ao ar, entremeadas por filmagens ligeiras de cidadãos desesperados pela fúria dos asseclas de Bashar Al-Assad em Daraya e Homs. Poucos dias depois, a mídia mundial comprovaria a brutalidade da repressão do regime contra a população e os dissidentes armados no país. Os jornalistas-cidadãos, em colaboração com profissionais, soaram o alarme ao mundo antes das redações convencionais.

O trabalho com imagens (fotos e filmes) e os artigos enviadas pelo público participante, executado pelo iReport desde o ano passado na CNN, tem demonstrado qualidade. A emissora foi inteligente. O iReport não edita o material que é enviado. Prefere que o público decida o que vai para o ar, e o que não, o que permanecerá no site, e o que será apagado: em baixo de cada matéria a emissora de Atlanta colocou uma barra, onde está escrita a pergunta: “Isso pertence ao iReporter?” Os leitores vão decidir se o material tem qualidade ou não para permanecer publicado, clicando nas opções a favor ou contra a presença do artigo na página deste braço cidadão da CNN que é o iReport. Posteriormente, a CNN faz uma checagem das matérias mais importantes, que recebem o selo vermelho de aprovação, e passam a fazer parte da programação normal da emissora.

Atentado contra a profissão

A única coisa que podemos lamentar, no caso do iReport, foi a perda de emprego de 50 profissionais de jornalismo fotográfico e outros profissionais ligados à área das mídias visuais para transmissões ao vivo, como câmeras, operadores de áudio e outros. Mas o iReport tem uma função estratégica dentro da CNN: penetrar onde jornalistas credenciados não podem.

A imprensa tradicional é uma instituição da sociedade. Seus membros portam dísticos, crachás, e outros símbolos identificadores. Mas um cidadão não. Não pode ser reconhecido. Um simples cidadão é uma criatura universal. Um jornalista, não. Estar na “linha de frente” de uma rebelião pode custar caro a um profissional. Anderson que o diga: foi atacado na Praça Tahir por uma multidão enfurecida. E nunca mais tentou cobrir pessoalmente as manifestações no mundo árabe. Cobrir rebeliões locais pode custar a vida a um profissional da imprensa. Os jornalistas cidadãos, apesar de toda a má fama injusta, vão a lugares onde a imprensa oficial não pode mais ir. Podem não cobrir guerras ou conferências internacionais. Mas Anderson aprendeu da pior maneira possível que, em certos momentos, estar no meio do povo rebelado pode ser perigoso demais para alguém credenciado pela imprensa tradicional.

O que as revoltas árabes ensinam é que o jornalismo cidadão é a melhor e única maneira do jornalismo estar presente em situações de conflitos urbanos em países estrangeiros. Desconsiderar sua importância e retirar seu espaço seria um atentado contra a própria profissão. O jornalismo cidadão já provou várias vezes no Oriente Médio que pode estar no lugar onde acontece a ação.

Falso privilégio de acesso

Primeiro, quando o Digital Journal conseguiu contornar a proibição da cobertura da imprensa e cobrir os conflitos na Faixa de Gaza, em 2007. E agora, com todo o material enviado pelos povos árabes (que não estão a transmitir notícias a soldo, mas por sede de justiça e para pedir a ajuda do mundo), a importância de blogueiros independentes e do jornalismo participativo cresceu em quantidade e qualidade. Lila King, diretora do iReport, comentou ao Pointer (01/08/2011): “Editores na CNN aprenderam a transformarem-se em curadores e coletores de notícias, enquanto trabalham com iRepórteres para cobrir histórias onde nós não temos câmeras, em lugares onde você precisa de câmeras.” O programa da emissora de Atlanta tornou visível ao mundo a importância da contribuição dos cidadãos que arriscam suas vidas para postar um vídeo na web. Eles não estão ali por motivações egoístas, ou para receber créditos de uma grande emissora internacional. Eles não estão ali por dinheiro ou glória pessoal: estão ali porque suas vidas estão em perigo. Suas liberdades foram esmagadas. Seus direitos, suprimidos. Eles estão ali movidos por uma mistura de desespero e coragem.

O que os detratores do jornalismo-cidadão de perfil cívico precisam entender é que hoje o jornalismo televisivo internacional tem uma grande dívida com a contribuição cidadã. É fato corriqueiro e deve ser aceito sem ressentimento nas redações: os elaboradores das reportagens internacionais agora recolhem material de gente que simplesmente esteve onde um jornalista profissional não poderia estar. E o que é pretensiosamente entendido como privilégio de acesso muitas vezes pode acabar terminando em interdição.

***

[Sergio da Motta e Albuquerque é mestre em Planejamento urbano, consultor e tradutor]

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