MÍDIA & CRIME

A imprensa trágica e pouco informativa

Por José Cleves em 21/02/2012 na edição 682

Tenho birra de jornalista que encerra a reportagem com base naquilo que foi divulgado oficialmente, mesmo quando o assunto foge à normalidade. Tivemos, dias atrás, um caso raríssimo em Belo Horizonte, uma tragédia shakespeariana que, se não fosse a abundância de provas de sua concepção, entraria para a história como um dos crimes mais cabulosos e misteriosos do estado. Ainda assim, o caso teve um tratamento factual, sem que houvesse, por parte da imprensa, uma abordagem mais aprofundada sobre a causa deste fato raro na literatura criminal.

O gerente de uma locadora de veículos (que os jornalistas insistem em chamar de empresário), Djalma Brugnara, 49 anos, matou a procuradora federal, Ana Alice Moreira, de 35anos, e se matou a seguir, picando o corpo com uma faca até cravá-la no peito – algo raríssimo na literatura criminal e, por essa razão, digno de registro para estudos criminológicos, antropológicos, sociológicos e psicanalíticos, sobre os limites da mente humana. Se Émile Durkheim (1858-1917) estivesse vivo, ele, que foi um dos pais da sociologia moderna e um estudioso do autoextermínio (Suicídio, 1987), certamente faria um tratado sobre o assunto.

Não sou um durkheimiano qualquer. Estudei as obras deste francês à exaustão; não apenas as dele, como também as de vários outros iluministas da época – o próprio Freud que, como ele, obcecou-se por outro assunto complexo para a ocasião – a sexualidade – e tirou disso um bom proveito para a evolução da humanidade. A questão do suicídio, que é um dos tabus da sociedade moderna – e da imprensa –, merece um estudo que vai além das formalidades policialescas e jornalísticas.

Babá e dois filhos testemunharam

Digamos, pois, que tais fatos devam ser analisados dentro de um contexto individual, e não coletivo. No caso ocorrido em Belo Horizonte, envolvendo personagens da alta sociedade – ele, de família tradicional, um bon vivant, aparentemente sem maiores problemas, e ela uma jovem mulher bem-sucedida, ambos vivendo, há anos, numa mansão de luxo em um condomínios da região metropolitana, onde gozavam de conforto, privacidade e segurança.

O casal tinha dois filhos e uma vida aparentemente pacata, mas marcada pelo ciúme. Começaram as brigas e ameaças até que, no dia 25 de janeiro, Alice resolveu dar queixa do marido na polícia. Ainda assim, continuaram vivendo sob o mesmo teto até que no dia 1º de fevereiro a procuradora foi assassinada por volta das 4h pelo marido, que enfiou-lhe várias facadas no peito, no quarto do casal.

O crime foi testemunhado em outro cômodo fechado, pela babá e os dois filhos do casal – de sete e três anos que, naturalmente, já estavam acostumados com as brigas. Djalma fugiu no seu carro, andou poucos quilômetros e entrou em um motel à margem da BR 356, onde ocupou a suíte de número 16 e foi encontrado morto quase 20h depois.

Crime passional ou loucura?

Pelos levantamentos periciais divulgados extra-oficialmente, o corpo apresentava 28 perfurações à faca – cinco deles mais profundos: dois nas virilhas, dois no pescoço e um no peito. À primeira vista, tudo leva a crer que ele se autoflagelou, picando o corpo em busca das veias femorais e do pescoço para se matar e, não obtendo êxito, apunhalou o peito, tendo morte agonizante e em horário não presumível – o corpo foi encontrado já em estado rígido, não permitindo aos legislas determinar a hora de sua morte.

Crime passional? Não sabemos, embora seja este o tratamento dado ao caso pela imprensa, mas segundo o próprio William Shakespeare, ao definir os chamados crimes de sangue, o homicida passional é movido por amor e ódio – e não pelo dinheiro ou poder – e nem sempre pela loucura, como ele ilustrou em suas magníficas obras Otelo, Macbeth e Hamlet, uma verdadeira descrição psicológica da arte ocidental sobre estas três modalidades de criminosos.

No primeiro caso, Shakespeare relata um crime passional (Otelo matou a mulher por um ciúme doentio e depois se matou com a mesma faca); em Macbeth, que destronou e matou o rei da Escócia, foi pela volúpia do poder e do dinheiro; e em Hamlet foi um ato de loucura, conforme gritou o personagem para a plateia após matar o enganado Polonius, que ele imaginava ser o seu tio (que caçava por ter matado o seu pai): “Não foi Hamlet que matou; foi a sua loucura”).

A função de prevenir

O que eu quero, com isso, é tirar a dúvida do leitor sobre o que de fato levou Brugnara a matar Alice: se foi pelo dinheiro (não há registros, nas reportagens que li, sobre as reais condições financeiras do criminoso), se foi por amor e ódio, mais provavelmente por ódio, pois não acredito na pessoa que mata por amor – quem ama não mata, é o que penso – e/ou por loucura, porque o público não foi informado direito sobre a personalidade do criminoso – se ele era, de fato, um homem violento, brigão, destemperado, com episódios de loucura em sua vida cotidiana etc.

A única coisa que sabemos, mesmo à distância dos laudos, é que ele se penitenciou de forma extremamente violenta, ao picar o corpo com a faca, de forma agonizante, em um ato de loucura repentina que merece estudos pela raridade deste gesto. Eu, por exemplo, que tenho 40 anos de jornalismo a céu aberto e que já vi e li quase de tudo neste mundo (depois do 11 de setembro, ninguém pode duvidar de mais nada), garanto que este tipo de crime é atípico mesmo nas tragédias gregas, fartas em relatos do mundo cão, como a incestuosa, fraticida e infanticida Medea, que inspirou Eurípedes, e Fedra, também imortalizada por seus escritos, pela crueldade descabida.

Faço essas reflexões para despertar, na sociedade, uma prevenção coletiva contra pessoas de sentimentos exagerados, dentro daquele princípio de que, mesmo nas tragédias, tiramos alguma coisa de proveito, que é o exemplo. E, para que esta análise seja possível, é necessário que a imprensa, que tem a responsabilidade de retratar fatos com fidelidade, exerça o seu papel de informar bem a sociedade sobre as impurezas da mene humana. As obras de Shakespeare, por exemplo, tinham essa finalidade, em uma época em que a melhor forma de se comunicar com o povo era através da arte cênica. Esta é a grande contribuição que o teatro deu e vem dando à ciência, ao reproduzir episódios da vida cotidiana como, aliás, fez o dramaturgo Nélson Rodrigues, em A vida com ela é.

O que não pode a imprensa fazer é dar a fatos desta relevância um tratamento comum, banal, cotidiano, registrando-os nos limites das formalidades policialescas e jornalísticas. Ora, repórter que se preze tem que esmiuçar os fatos e estudá-los para informar o público com mais qualidade. O jornalista cubano Ricardo Cardec escreve que as generalidades servem para obscurecer os fatos. Portanto, quando contextualizamos uma notícia de forma genérica, inespecífica, pouco explicativa, deixamos muitas dúvidas a serem dirimidas pelo leitor e isso faz um mal muito grande a ele porque o objetivo dos meios de comunicação é dissecar fatos quando estes exigem reflexões que vão além de seu registro sucinto.

***

[José Cleves é jornalista, Belo Horizonte, MG]

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