PLANETA DIGITAL

Google usa navegador da Apple para espionar usuários

Por Sergio da Motta e Albuquerque em 21/02/2012 na edição 682

A reportagem do Wall Street Journal (16/02) sobre as alterações que os engenheiros do Google fizeram na segurança do navegador da Apple deixou a companhia de Brim e Palmers em contradição com seu próprio lema: “Don’t be evil”, que significa algo como não seja mau, ou malicioso. O gigante das buscas da internet foi pego em flagrante pela reportagem a bloquear as configurações especiais de segurança do Safari, o navegador da Apple, que faziam dele um dos mais seguros na web. A notícia espalhou-se rapidamente pela imprensa deixando a empresa numa situação difícil: foi flagrada no ato de violar a privacidade online dos usuários e retirou o código espião de circulação desde que fato vazou para a imprensa. O que despertou ainda mais o interesse da mídia.

No dia seguinte, a empresa respondeu, numa declaração publicada também no Wall Street Journal, que “o jornal descaracterizou o que aconteceu porque nós usamos a conhecida funcionalidade do Safari para prover recursos que usuários registrados do Google tenham habilitado. É importante advertir que esses cookies de anunciantes não coletam informação pessoal” (cookies são minisoftwares em forma de texto, que são plantados em um navegador para tracejar hábitos e gostos de usuários da web).

Mas por que deveríamos acreditar no Google, que já mentiu uma vez e deixou o navegador da Apple vulnerável aos espiões colocados nos browsers dos internautas por engenheiros do Google para beneficiar os anunciantes parceiros do gigante das buscas na web? O site da Globo G1 (17/02) contatou o Google e obteve uma explicação mais ampliada da empresa. A companhia declarou ao jornal online que havia explorado algumas características do navegador da Apple. Para habilitar recursos dos usuários do Google, criou uma “comunicação temporária” entre o Safari e os servidores do Google. Mas este link “provisório” foi criado para tornar as ligações entre os dois anônimas. “Entretanto”, diz o comunicado do Google, “o Safari contém uma funcionalidade que então habilitou outros cookies de publicidade do Google dentro do próprio navegador. Nós não antevimos que isso poderia acontecer e agora começamos a remover esses cookies de publicidade do Safari. É importante frisar que, assim como em qualquer outro navegador, esses cookies de publicidade não coletam informações pessoais.”

Segurança, privacidade e proteção de dados

Eles alteraram configurações de segurança padrão do browser da Apple e ainda tentaram passar a culpa para ela e seu navegador. É muita desfaçatez. Talvez, se ele não fosse tão seguro assim, os engenheiros espiões do supermotor de buscas não teriam que se dar o trabalho de introduzir um código espião no navegador... O Safari ainda é um navegador relativamente pouco usado. Na web, apenas 6% dos navegantes o usa. Mas nas conexões móveis das pequenas mídias digitais, 50% dos usuários utilizam o navegador da Apple, informou a Wired, no mesmo dia.

A CNN (17/02) e a revista tecnológica Wired, no mesmo dia, requentaram a notícia. Apontaram para a fonte original do Wall Street Journal e apresentaram reportagens sem novidades. Chamou minha atenção a malandragem do Google ter passado despercebida pelas maiores revistas especializadas em tecnologia, como a Wired, a Tech Crunch e outras. O velho jornalão chegou à frente e fez a melhor e mais completa cobertura. O periódico explicou a gênese da denúncia: o professor de Stanford Jonathan Mayer descobriu o código do Google, que foi confirmado, de forma independente, pelo consultor técnico do jornal, Ashkan Soltani, que descobriucookies espiões onde não deveriam estar. Soltani testou mais de 100 sites importantes e encontrou o código nos anúncios de quase todos eles. O Google não quis discutir o assunto com a imprensa.

O jornal também apontou para a conjuntura atual em tecnologia de informação. A segurança, a privacidade e a proteção de dados estão no centro do debate. A União Europeia pediu ao Google que “esperasse” que os países membros preparassem seus usuários para a nova reforma da privacidade do Google, que já foi advertido pela Federação Federal de comércio, ano passado, a não “deturpar” suas práticas de privacidade sob pena de multa.

O vencedor leva tudo

Outra tendência dominante no setor é a comercialização de dados de usuários. Muitas companhias oferecem serviços “gratuitos” e retiram seus lucros de anúncios online que são customizados através do registro individual dos usuários. Essas companhias, explicou o jornal, “competem por publicidade, em parte baseadas na qualidade da informação que possuem dos usuários”. Mas o maior feito da reportagem do jornal foi ter desvendado o mecanismo usado pelo Google para neutralizar as defesas do Safari. O navegador da Apple, por padrão, bloqueia cookies de terceiros, mas faz uma exceção para sites que o usuário interaja de alguma forma, ao preencher um formulário ou questionário, por exemplo, ou verificar seu e-mail. Neste momento, o navegador da Apple fica vulnerável e o Google pôde, então, introduzir seu código nos anúncios porque o navegador agiu como se os usuários estivessem a enviar dados invisíveis ao Google, abrindo as portas para a colocação de cookies espiões.

O Google, na realidade, está a lutar uma guerra que não tem como ganhar com o Facebook que, no campo da identidade virtual, parece não ter mais concorrente. E o Google tem apenas reagido às inovações bem-sucedidas da firma de Zuckerberg. Sem sucesso. Os engenheiros no maior motor de buscas da web tentaram uma jogada suja e foram pegos por um professor universitário e um jornal tradicional. Mas, como seu concorrente maior, preferiu fugir às suas responsabilidades e jogar a culpa na vítima das espionagens, o navegador da Apple, a qual prometeu rever as condições de segurança do programa.

A guerra da megaplataformas continua. Passa por cima das leis, da decência, da ética e dos direitos a privacidade online dos usuários. Tudo em nome da vitória final. A economia americana conta com suas grandes companhias tecnologia de informação, como o Facebook, a Apple, o Google e a Amazon: “as quatro grandes da web”, segundo Eric Schmidt, ex-CEO do Google. Enquanto o resto da economia afunda, essas empresas continuam a crescer a passos largos e passaram a ter uma importância econômica e estratégica enorme para a economia americana. Que agradece olhando para o outro lado para as imprudências e abusos dessas empresas. Elas são o último bastião bem-sucedido da economia americana no século 21, mas ameaçam desabar diante da competição implacável que poderá levar a um colapso no setor: as companhias estão envolvidas num tipo de competição desconhecido para os padrões convencionais da sociedade industrial.

Acabou-se o tempo das “vantagens comparativas” que garantia um lugar para cada competidor nos cenários econômicos, em todos os níveis. Entramos na impiedosa era das vantagens competitivas, um jogo onde o vencedor leva tudo, não há mais nenhuma regra que não possa ser quebrada e, sobretudo, não há lugar para perdedores.

***

[Sergio da Motta e Albuquerque é mestre em Planejamento urbano, consultor e tradutor]

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 Julio Kawai
 Enviado em: 21/02/2012 08:32:21
Não entendi muito bem o efeito maligno dos cookies. Eles coletam dados como nome, sobrenome, e-mail e a cidade do usuário?
 Cesar Volpe
 Enviado em: 21/02/2012 10:45:17
num lugar onde 'ninguém é de ninguém', usuários com foto, nome e endereço, contraditoriamente, são só que realmente há... da mesma forma que grandes companhias não serão capazes de controlar o acesso a seus programas e conteúdos, o usuário também não poderá mais se esconder; apenas quando essas duas pontas da mesma realidade se juntarem numa amarração interessante a questão vai sair do campo falsamente moral para ser tratada de modo francamente comercial: por que não pagar ao usuário pela sua simples existência, uma vez que só isso já é capaz de gerar zilhões ?
 Vinicius Santos
 Enviado em: 21/02/2012 13:27:45
A informação não parece ser de alguém que entende do assunto e sim de quem viu a notícia de uma outra fonte e apenas repassou. Cookies são necessários para entrar em sites que requerem autenticação como, por exemplo, emails. Tudo que o Google faz é contornar o bloqueio dos cookies simulando uma autenticação, fazendo o safari acreditar que deve armazena-los. O Google faz isso usando o botão +1 e o Facebook também o faz, talvez a mais tempo, usando o botão Like (presente nesse site inclusive). Muitos outros sites também devem fazer isso. É apenas um "jeitinho" que esses sites dão. Não burla o navegador, não é nocivo, nem proibido e nem nada de mais. Outros navegadores nem usam isso pois não parece ser, como podem ver, muito eficiente. Por favor, sem tempestade em copo d'água.
 carlos saraiva
 Enviado em: 21/02/2012 14:23:26
nem se percebe que o escritor desta reportagem, odeio o google e adora o facebook. o facebook é o que mais rastreia os passos dos usuarios mas isto o escritor relata,entre linhas, normal. pessima reportagem
 Nilton Ferreira
 Enviado em: 21/02/2012 18:40:59
Google usa navegador da Apple para espionar usuários - Por Sergio da Motta e Albuquerque em 21/02/2012 na edição 682 Eles tem a cara de pau de dizer que "não coletam informação pessoal”. Eu afirmo que eles sabem tudo sobre todos que utilizam a net. Seu nome, seus relacionamentos, seus gostos, suas palavras... TUDO! A quem pertence sua vida? O que é invasão de privacidade? O que eles fazem não é crime? Nos EUA ou em qualquer lugar do mundo? Eles não podem ser responsabilizados, processados e condenados?
 Ricardo de Almeida
 Enviado em: 21/02/2012 20:45:05
A informação foi publicada no Wall Street Journal, veio de um professor de informática de Stanford, e foi confirmada pelo consultor de TI do Jornal de Nova Iorque. Está no artigo e eu concordo com quase tudo. Certos cookies são necessários, outros não. Senão, porque viriam bloqueados por padrão no Safari? Porque fazem bem a navegação? Por que existem tantos programas anti-cookies? E por que o Google retirou o código do “jeitinho” inocente, quando foi denunciado? Muitos cookies são espiões. E a questão aqui não são eles, mas a atitude do Google, que violou a privacidade dos usuários do Safari – que só aceita os cookies necessários. Mas o Google passou por cima disso. Eles foram detectados por um pesquisador especialista de Stanford. Vejam no artigo. Outra coisa: muitos cookies são maliciosos e só estão lá para tracejar e espionar o que você faz na web. Outra coisa: o botão “curti”, do Facebook, já foi proibido na Alemanha (por alguns meses). Por facilitar brechas na privacidade dos usuários. Infelizmente, no Brasil, não há preocupação com segurança de dados, nem privacidade online. A questão aqui não foi “cookie” ou “não-cookie”, mas a política abusada e descuidada das megaplataformas, que não respeitam a privacidade dos usuários. Trabalho em publicidade online e sei o que um cookie pode fazer... O Google pisou na bola.
 Gerson Chagas
 Enviado em: 23/02/2012 09:42:32
Embora leigo no assunto, na condição de usuário sinto-me aviltado e propenso a dizer : jamais houve um cookie tão afamadamente amargo quanto o do Google.
 marconi santiago
 Enviado em: 27/02/2012 12:24:02
Ninguém tem autoridade suficiente para espionar outro.simples.não importa se facebook ou google. Quem se sentir ofendido com esse artigo deve acha que é uma peça publicitária contra o google.o que não é verdade. Só porque o Google é uma frente anti-Bill Gates não lhe dá direito de ser uma empresa antiética.

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