DENÚNCIAS DO FANTÁSTICO

Um esquema sutil que poucos entenderam

Por Mário Augusto Jakobskind em 27/03/2012 na edição 687

Boa parte dos brasileiros sabe perfeitamente que as Organizações Globo não pregam prego sem estopa. A recente reportagem apresentada no Fantástico sobre as denúncias de corrupção de quatro empresas flagradas oferecendo propinas para ganhar contratos em um núcleo do hospital da UFRJ, o Instituto Puericultura e Pediatria Martagão Gesteira, está sendo apresentada como grande exemplo de jornalismo.

Mas um fato não está sendo levado em conta, chama a atenção e deve ser melhor analisado. O repórter da TV Globo foi acionado e autorizado para se apresentar como funcionário público do departamento de compras do núcleo do hospital que intermediaria o negócio lucrativo para as empresas.

Pergunta-se por que o diretor do núcleo do hospital, Edimilson Migowski, convocou a TV Globo e não a Polícia Federal para dar o flagrante e prender os pilantras? Por que só agora houve a denúncia quando até os postes do Rio de Janeiro sabem que há maracutaias nos mais diversos setores.

Lépidas e faceiras

É legal um jornalista se passar por funcionário de um organismo público, como o núcleo do hospital da UFRJ? Ambiente desta natureza pode ser ocupado por alguém estranho aos quadros? O que dispõe o Estatuto do Funcionalismo sobre a questão? Pelo estatuto do funcionário público, o diretor Edimilson Migowski não cometeu uma irregularidade sujeita a sanção por ter convocado alguém fora dos quadros do núcleo ou do hospital para exercer a função que não lhe cabe?

Por que tanto interesse da TV Globo em fazer isso num núcleo de atendimento às crianças no hospital universitário, ou seja, na área de saúde, e não também em outros organismos públicos e ministérios onde a corrupção campeia e não chega a ser nenhum segredo? Por que, por exemplo, não foram procurar as construtoras que utilizam o mesmo mecanismo corruptor e com valores até mais altos?

Por que as empresas jornalísticas não aprofundam o que se passa na área de saúde no estado e no município do Rio de Janeiro, que está sendo privatizada pelas beiradas? E por que tanta surpresa do secretário de Saúde do governo Sérgio Cabral, Sérgio Cortes, com o esquema da corrupção quando as quatro empresas envolvidas trabalham com o estado há tempos e até financiaram campanhas de candidatos dos mais diversos partidos, do PMDB ao PT, passando por outros menos votados?

Cortes já sabia antes que as empresas faziam e aconteciam e tinham sido investigadas pela justiça, exatamente por corrupção, mas nada aconteceu. Seguiram trabalhando lépidas e faceiras. Mas como agora entrou a TV Globo na história, o secretário de Cabral se disse surpreso. Ora, se já sabia de outras irregularidades, por que o estado continuou aceitando os préstimos das empresas? Como ninguém questionou Cortes, como sempre tudo ficou por isso mesmo, pelo menos por enquanto. E agora ele se diz surpreso com o que foi mostrado.

Faltou ouvir

Por que, por exemplo, não se investiga o motivo pelo qual a Prefeitura do Rio de Janeiro está trabalhando ativamente com o Instituto Galileu, vinculado ao mundo financeiro, em detrimento de hospitais públicos, que estão sendo sucateados? Aí não interessa?

Por que os repasses das verbas do Sistema Único de Saúde (SUS) estão aumentando a cada ano e chegam 175 bilhões de reais em cinco anos, segundo informação do Ministério da Saúde e do jornal O Globo? Por que o mesmo jornal em seus editoriais reforça a tese contra a participação do Estado na área de saúde?

Tem muito mais. Um repórter ser apresentado em uma função que não lhe corresponde não é o mesmo que um médico sem diploma clinicar ou ainda qualquer um exercer o magistério como se fosse formado para tal função e não ser? Seria legal? Não é falsidade ideológica?

Corrupção em qualquer área deve ser combatida pelas autoridades policiais – no caso do núcleo do hospital da UFRJ, pela Polícia Federal. Mas para que colocar no circuito, antes da oficialização do fato delituoso, a TV Globo?

Por que não, por exemplo, investigar as licenças ambientais que a secretaria de Meio Ambiente do Estado, sob a direção do ecologista Carlos Minc, está concedendo ao trilionário Eike Batista em áreas que deveriam ser preservadas em São João da Barra? Aí não interessa?

Alguém procurou saber qual a posição do tal diretor que autorizou o repórter da Globo a se passar por funcionário do organismo? Em outras palavras, o diretor defende por acaso a privatização da área de saúde? Ou é a favor do SUS? Não seria também o caso de se procurar os funcionários públicos do núcleo para saber o que acham da história toda e a opinião que têm sobre os seus diretores?

Preços exorbitantes

Não é de hoje que a mídia de mercado tem feito campanhas contra o SUS e apresenta como solução a privatização da área de saúde. Se o SUS tem defeitos de gestão, e os tem, devem ser corrigidos porque a solução não pode ser a preconizada pela mídia de mercado que, na prática, favorece os planos de saúde particulares.

O SUS é talvez um dos sistemas de saúde mais adiantados do mundo. O presidente Barack Obama está penando para implantar um sistema de saúde que atenda a população carente, mas os altos interesses do setor se mobilizam fortemente para impedir. Se aqui nós temos um SUS, que precisa ser aperfeiçoado e corrigido em seus defeitos, por que colocar como alternativa a privatização da área de saúde?

Qual verdadeiramente o interesse da mídia de mercado em martelar quase diariamente, como que preparando a opinião pública para o que os neoliberais consideram inevitável, ou seja, a privatização da saúde?

Juridicamente, o que a TV Globo apresentou , colocando-se ilegalmente no lugar da Polícia Federal, terá consequência, além de romper um ou outro contrato das empresas que lucram absurdamente na área da saúde? Vamos ver as suítes das matérias.

Como se pode observar, a reportagem apresentada pelo Fantástico pode não ser tão benemérita assim no sentido de apenas mostrar a corrupção e não induzir a opinião pública no sentido de concluir que a culpa principal é o controle do Estado na área da saúde.

Sendo assim, os planos de saúde agradecem penhoradamente às Organizações Globo por mais essa serventia de grande valor. Mas podem estar certos de uma coisa: se conseguirem enfraquecer de vez o Estado, se hoje o atendimento aos de menor poder aquisitivo é deficiente, com o império dos planos de saúde a coisa vai ser muito pior. Só terá atendimento médico quem tiver como pagar planos de preços exorbitantes. E planos que mesmo assim deixam a desejar na hora do aperto.

***

[Mário Augusto Jakobiskink é jornalista]

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 Ricardo Oliveira
 Enviado em: 27/03/2012 12:54:06
Além de tudo dito pelo autor-favorecimento aos planos de saúde privados, preparação de terreno para justificar a privatização da saúde e outros- podemos acrescentar a criação de factóides para melhorar uma audiência em queda constante, uma tentativa de passar a idéia de um jornalismo independente e com credibilidade, um ataque ostensivo aos poderes constituídos e com competência para investigar casos como esse, uma tentativa de atacar de uma só vez a saúde e a educação públicas, uma tentativa, nada sutil, de se legitimar como um poder policial através de práticas criminosas e, diante do momento atual, uma tentativa de intimidação da sociedade. Essa turma nós conhecemos de longa data.
 william costa
 Enviado em: 27/03/2012 16:56:28
muito bom o texto !
 Alda Porto
 Enviado em: 28/03/2012 03:53:27
De fato, estranhei esse alheamento, mas o que me impressiona é o Jornal da 8h00, dar seguimento à matéria do "Fantástico" em destaque como uma grande revelação. Lembra-me os caras da SS que declaravam nada saber, apenas cumpriam ordens. Tudo isso é muito desesperador! Ainda mais quando se trata da mesma emissora.
 Flávio Sereno
 Enviado em: 28/03/2012 09:22:43
Tem um ponto a mais Mário Augusto. A Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares (EBSERH) criada no fim do ano passado por projeto de lei de iniciativa do Governo Federal. A proposta é que essa estatal de direito provado administre os 45 Hospitais Universitários do país. A 14ª Conferência Nacional de Saúde repudiou a ideia, assimo como o Conselho Nacional de Saúde (CNS), a Federação dos Trabalhadores Técnico-Administrativos das Universidades (FASUBRA) e o Sindicato NAcional dos Professores (ANDES). A bola da vez pra ser desqualificado não são hospitais comuns, são os hospitais escolas que estão sob risco de privatização indireta por meio de convênios privados.
 Gabriel Dória Marinho
 Enviado em: 28/03/2012 09:54:58
Caro, está sendo debatida recentemente a implementação de algo chamado Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares, em especial na UFRJ, toda essa atividade sobre a corrupção está bem relacionada com esse assunto. Um texto enviado para a direção do HUCFF sobre o assunto pelo professor Nelson Cardiologista do HUCFF, que pode esclarecer melhor o assunto: http://www.facebook.com/note.php?note_id=197765347000896
 Adonis Gasparini
 Enviado em: 29/03/2012 09:18:15
Parabéns pela matéria jornalística! E gostaria também de incluir o final da matéria da Globo, que faz uma menção pequena a outra questão: se existem os corruptos, também de de existir os corruptores do negócio, ou seja, essa parte da qual poucos escrevem e que está presente em todo processo de corrupção da ética, da moral e também da empatia do ser humano para seu semelhante. Um desses casos com certeza é desse senhor Eike Batista, que paga os impostos, quando o faz, e recebe tudo de volta do governo com juros, nos processos de corrupção e arrivismo. Ninguém quer falar do poder econômico, que comanda tudo, inclusive os governos! Ai a Globo coloca a questão nevrálgica como uma nota de rodapé.
 José Renato Almeida
 Enviado em: 29/03/2012 10:42:58
A Globo, como Demóstenes, faz de conta que combate a corrupção, e as demais empresas de comunicação se pautam nela e repercutem as imagens veiculadas no Fantástico. Enquanto isso, uns poucos segundos mostram a seca no Nordeste e a pronta ação do governo enviando caminhões de água e construindo cisternas! Nada se fala sobre informações graves da "nova transposição" das águas do Rio São Francisco. Enquanto as principais empresas de comunicação repercutem os malfeitos dos bagrinhos das licitações fraudulentas, fazem vistas grossas aos 8,2 bi de reais aprovados para os trabalhos da "nova" transposição de águas do Rio São Francisco. Nova, entre aspas,visto que inicialmente orçado em 4,8 bilhões já tem aprovados 8,2bi! Em ano de eleições isso faz a alegria das grandes empreiteiras e de toda a "base de apoio" do governo Dilma. A grande imprensa não consegue ver a seca que assola as áreas que seriam beneficiadas que, mesmo após vazar mais de 4 bilhões de reais, ainda não forneceu uma gota de água aos habitantes daquelas áreas. Isso sim merece investigação dos Órgãos de Controle, Ministério Público, Polícia Federal e do jornalismo não comprometido.
 GILSON ALVES CORDEIRO CORDEIRO
 Enviado em: 29/03/2012 16:10:06
eu acho que tudo isso seria passível de cadeia para todos,mais infelizmente no brasil todos os dias tem denúncias , que ficam só nas denuncias,os hospitais e escolas estão uma porcaria .um dos senhores que foram fragados nessa denuncia disse bem claro que todos levam 10 %,então a policia federal também leva pois a lokant trabalha lá ,e se ela é que pode investigar , fica difícil ,alguém tem que denunciar , mais quem vai investigar . a minha opinião,só com um código penal mais duro , e para todos , ricos e pobres ,negros e brancos ,operário ou autoridade ,zé mane ou excelência , do contrário só deus dá jeito , abraços .
 Felipe Dieguez
 Enviado em: 30/03/2012 19:08:59
Observação perfeita sobre as intenções da matéria. Algo parecido foi feito na época das privatizações das companhias de energia. O serviço foi piorando e as taxas se elevando de forma manipulada, transmitindo para a sociedade que o melhor a fazer era privatizar. Nunca se fala em troca do comando administrativo ou investimentos. Lamentável. Banda larga universal já! Só a internet para dissipar essa cortina de fumaça no acesso à informação.
 Ricardo Dias
 Enviado em: 30/03/2012 21:16:51
A infeliz (mas real) paráfrase aos versos de Vinícius de Moraes (“O dia da criação”) é inevitável: a “MATERMÍDIA” vem em ondas, como o mar. Nada de tsunamis para o receptor/eleitor - - coisas de ditaduras à moda antiga. As “ondas” do (farsante) “deficit da Previdência” estão aí, indo e vindo, sempre refrescando eleitores aposentados (ou não) e o achatamento de seus benefícios . E, de águas salgadas para “doces transposições”, convém lembrar a “nascente” (ou uma das nascentes) de todas as nossas mazelas: o processo eleitoral; evidentemente que não pode ser “fantástico” o suborno do eleitor pelo político em todas as suas formas e períodos. Voltando ao poeta, “todas as CONEXÕES estão funcionando (?) regularmente” (antepenúltimo verso da 4ª estrofe – I). Até quando o tempo dirá (ou o “macho e fêmea” das tomadas dessa contemporânea “procriação”). Parabéns pelo excelente artigo, Mário Augusto Jacobskind.
 gontranjunior nasser
 Enviado em: 01/04/2012 00:25:31
Não sei porque esta edição do OI está tão contra a matéria investigativa que o repórter da Rede Globo fez. O que a polícia federal e o ministério público fazem que muda o mundo? Pelo menos a gente não vê... Bem ou mal, autoridades políticas e policiais mais o poder judiciário, entraram em polvorosa, pressionados pela opinião e vontade pública. E foi a reportagem que fez isso. Quem sabe não tenha minorado o sofrimento de alguns brasileiros?
 JOSE CARLOS ZECA
 Enviado em: 03/04/2012 09:22:51
Cumprimento este veiculo de comunicação por mais esta brilhante materia, escrita e desenhada, sim desenhada pois é de facil entendimento a qualquer cidadão, sem chavões ou termos tecnicos, relata o que de fato se ESCONDE POR TRÁS DO PLIN PLIN DA GLOBO.
 Renata Costa de Azevedo
 Enviado em: 27/04/2013 18:37:35
"A gente se liga em você!" Questiono o jargão global a todo momento entre um plim plim e outro... Essa ligação só é feita quando convém e de preferência quando é financiada. A globo não dá ponto sem nó.

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