EDWARD KENNEDY

AP pede desculpas por demitir jornalista 67 anos atrás

08/05/2012 na edição 693

Tradução e edição: Leticia Nunes

A Associated Press se desculpou, na semana passada, pela demissão de um jornalista... no fim da Segunda Guerra Mundial. Nos momentos finais da guerra, em 1945, o correspondente da AP Edward Kennedy entregou à agência o que seria talvez o maior furo de sua história. O jornalista tinha em mãos a informação de que os alemães haviam se entregado em Reims, na França.

A AP, por sua vez, repreendeu-o publicamente e o demitiu sem alarde. O problema era que Kennedy havia desobedecido os censores militares para conseguir publicar a matéria. O primeiro-ministro britânico, Winston Churchill, e o presidente dos EUA, Harry Truman, haviam concordado em segurar notícias da rendição por um dia, para permitir que o líder russo Josef Stálin tivesse tempo de fazer uma segunda cerimônia de rendição em Berlim. Kennedy desrespeitou o embargo e foi acusado de quebrar a promessa que havia feito junto com outros 16 jornalistas para manter a informação em sigilo, com a condição de que estaria entre os primeiros a testemunhá-la.

Sessenta e sete anos mais tarde, o presidente e executivo-chefe da agência, Tom Curley, pediu desculpas pelo modo como Kennedy foi tratado. “Aquele foi um dia terrível para a AP. [A questão] foi tratada da pior maneira possível”, afirmou, ressaltando que o correspondente fez “tudo corretamente” e refutando a ideia de que a AP tinha obrigação de obedecer à ordem de segurar a história – a partir do momento em que ficou claro que o embargo tinha motivação política, e não de proteção das tropas. “Assim que acaba a Guerra, você não pode segurar informações deste tipo. O mundo precisava saber”.

Kennedy morreu em um acidente de trânsito em 1963, e por muito tempo buscou uma explicação de seu antigo empregador. Sua filha, Julia Kennedy Cochran, afirmou que o pedido de desculpas “teria significado muito para ele”.

Embargo violado

A rendição alemã ocorreu às 2h41m do dia 7 de maio de 1945. Kennedy estava entre os 17 repórteres presentes na cerimônia. Um general americano pediu a promessa de sigilo quando os jornalistas voavam sobre a França. Para receberem permissão para testemunhar a rendição, os correspondentes não podiam reportar o que haviam visto até que fosse autorizado por alguma autoridade aliada.

Inicialmente, foi dito aos jornalistas que o embargo ocorreria por poucas horas, mas logo depois da rendição, ele foi ampliado para 36 horas. Kennedy ficou perplexo com a ordem, mas inicialmente se manteve quieto. Só que, às 14hs, oficiais alemães anunciaram a rendição em uma transmissão de rádio de Flensburg, cidade que já estava nas mãos dos aliados. O jornalista sabia que a transmissão feita pelos militares havia sido autorizada pelos mesmos censores que haviam instituído o embargo.

O repórter ficou furioso e falou ao chefe dos censores americanos que a história não poderia mais continuar em sigilo – pois os próprios militares haviam quebrado sua parte do acordo ao permitir que os alemães anunciassem sua rendição. O censor não lhe deu atenção, e, depois de 15 minutos, Kennedy resolveu agir.

O jornalista usou um telefone militar, que não era monitorado pelos censores, para enviar a notícia à sucursal da AP em Londres – mas não avisou aos editores sobre o embargo ou sobre sua decisão de quebrá-lo. A agência distribuiu a notícia em minutos.

Punição

Para alguns dos jornalistas que seguiam o embargo, o furo de Kennedy foi uma enorme traição. Os militares, irritados, continuaram a proibição, o que deu à AP um dia inteiro de furo exclusivo. Kennedy, por sua vez, foi expulso da França.

Robert McLean, então presidente da AP, divulgou nota condenando a atitude de seu repórter. “A Associated Press lamenta profundamente a distribuição, na segunda-feira, da notícia da rendição total na Europa, que investigação mostrou que foi distribuída antes de autorizada pelo Comando Supremo Aliado”, dizia a declaração. Kent Cooper, na época diretor executivo da AP, afirmou que Kennedy poderia ter debatido a decisão de violar o embargo com seus editores, e enviou carta ao correspondente dizendo que ele havia desrespeitado um “princípio cardeal” do jornalismo.

Memórias

Depois de ser demitido, Kennedy foi contratado como chefe de redaçãodo Santa Barbara News-Press, na Califórnia, e tornou-se publisher do Monterey Peninsula Herald. Ele morreu aos 58 anos, após ser atropelado. A família guardou por décadas um manuscrito de um livro seu, até que Julia resolveu procurar Tom Curley em busca de alguém para publicá-lo.

Por coincidência, Curley estava ajudando na produção do livro Breaking News: How the Associated Press Has Covered War, Peace, and Everything Else (Como a Associated Press cobriu a guerra, a paz e todo o resto, na tradução livre). Ele acabou sendo co-autor das memórias de Kennedy, War: V-E Day, Censorship & The Associated Press (Guerra: o Dia da Vitória, Censura e a Associated Press), recém-publicadas. A publicação do livro, diz o presidente da AP, inspirou o pedido de desculpas. Ele afirmou que a demissão de Kennedy foi uma “grande tragédia” e disse que o jornalista fez “a coisa certa” ao não se curvar ao poder. Informações do Guardian.co.uk [4/5/12].

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