HISTÓRIAS EM QUADRINHOS

Robert Crumb museificado

Por Serge Kaganski em 15/05/2012 na edição 694

Reproduzido do suplemento “Ilustríssima” da Folha de S.Paulo, 13/5/2012; título original “Crumb museificado”,tradução Clara Allain

Embora Robert Crumb nunca tenha sido um best-seller, todos sabem quem é esse ícone dos quadrinhos e da cultura americana. Colecionador de música dos anos 1920, contemporâneo dos hippies sessentistas californianos, residente no sul da França há 20 anos, Crumb nunca deixou de desafiar tabus sexuais e religiosos dos EUA “mainstream”.

Acaba de sair na França uma farta coletânea de seus trabalhos com a mulher, a também cartunista Aline Kominsky-Crumb (“Parlez-Moi d'Amour, 35 Ans in Love”, editora Cornelius), em que o casal detalha seu dia a dia intelectual, político e sexual.

Mas a maior novidade envolvendo o artista é uma grande exposição no Musée d'Art Moderne de Paris, com 700 desenhos feitos entre 1961 e 2011, em cartaz até 19 de agosto. É a primeira vez que o quadrinista entra no museu e é também a primeira vez que essa instituição expõe um autor de HQs.

Em entrevista à revista “Les Inrockuptibles”, Crumb deixa claro sentimentos ambíguos: fica feliz por ser reconhecido, mas perplexo com a ideia de ser “museificado”. Uma qualidade de Crumb é ele fazer questão de ser visto como artista popular, e não como artista com “a” maiúsculo.

Novos diretores

Abril e maio são o momento de Cannes -o período em que os filmes franceses, reservados para o festival, tornam-se raros nas salas comerciais. O suspense em torno das seleções para Cannes rende muito mais que os filmes em cartaz nos cinemas nestas semanas.

Neste ano, a maior expectativa diz respeito à Quinzena dos Realizadores e à Semana da Crítica, já que as duas seleções têm novos diretores gerais -a Quinzena após uma edição de brilho moderado, e a Semana após um ano triunfal.

O novo diretor da Quinzena, Edouard Waintrop, foi por muito tempo crítico do jornal “Libération”, enquanto o novo chefe da Semana, Charles Tesson, é uma figura da revista “Cahiers du Cinéma”, da qual foi redator-chefe. Ou seja, grandes símbolos culturais e trunfos artísticos em jogo.

Na teoria (como os filmes selecionados ainda não foram vistos), ambos foram bem-sucedidos nas escolhas, ostentando nomes de prestígio (Michel Gondry, Noémie Lvovsky e Raul Ruiz na Quinzena; Sandrine Bonnaire, Tim Roth e Vincent Lindon na Semana) e filmes de todas as partes do mundo.

O estranho Sébastien

Ele acaba de lançar seu terceiro álbum, “My God Is Blue”, obra conceitual no caminho entre a variedade e o tecno, a música religiosa e a “drug experience”, a ambição desvairada e a ironia.

Depois de três álbuns e quase dez anos, Sébastien Tellier é o sucesso mais improvável da canção francesa. Reinventou o modelo de cantor sexy: cabelo comprido, barba e óculos escuros. Suas entrevistas não esclarecem se está fazendo humor escrachado ou se é meio maluco de fato (veja vídeo de divulgação do disco novo, em francês, em bit.ly/tellier).

Ele apresenta “My God Is Blue” como uma experiência vudu, uma procura pela espiritualidade, uma música que sonhou sob o efeito de drogas tomadas sob a orientação de um xamã mexicano.

O que explica seu sucesso é sua habilidade em criar singles de sucesso, seu senso de melodia e de arranjos pop. Tellier é o cantor francês de sucesso mais excêntrico desde Christophe e Gainsbourg.

O bis da lenda viva

Descobriu-se três anos atrás, quando saiu o livro de memórias “A Lebre da Patagônia”, que Claude Lanzmann, o internacionalmente conhecido diretor de “Shoah”, era também um grande escritor.

Mas Lanzmann viveu várias vidas, e o que muitos continuam sem saber é que, antes de virar cineasta, aos 50, ele foi jornalista, repórter e redator da imprensa prestigiosa ou popular (“Le Monde”, “France-Observateur”, “Elle”...).

Acaba de sair uma coletânea desses textos pela Gallimard pouco conhecidos, “La Tombe du Divin Plongeur” (o túmulo do divino mergulhador), na qual podemos conhecer a fundo essas outras facetas de Lanzmann.

Ele assinou textos sobre artistas populares (Aznavour, Gainsbourg, Belmondo), grandes autores (Sartre, Albert Cohen) e atletas (Marcel Cerdan filho), além de notas políticas (sobre guerra, antissemitismo, questões humanitárias) e narrativas(Tutancâmon).

Também escreveu magistralmente sobre notícias trágicas (um padre que assassinou a amante grávida) e acontecimentos do tipo “gente” (o exílio amoroso da princesa Soraya em Capri). Um grande observador de seu século em toda sua leveza e gravidade.

***

[Serge Kaganski é jornalista da revista francesa Les Inrockuptibles]

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Serge Kaganski