GLOBO x FOLHA

Roteiro preliminar para entender a briga

Por Alberto Dines em 20/09/1996 na edição 6

Atualização em 23 de setembro de 1996

Mimetismo e canibalismo - estes são os movimentos pendulares da gangorra mediática brasileira contemporânea. Difícil identificar o ponto de partida, se a clonagem generalizada ou a ensandecida disputa. Pela lógica, esta resulta de um curto-circuito na acomodação generalizada quando um dos competidores tenta impor novos padrões.

Segue-se a entronização dos paradigmas do vitorioso - a vassalagem mimética - até o próximo round. Todos se atraem e todos se copiam. É o império do papel carbono, do qual resulta uma perigosa homogeneização não apenas cultural mas também política, com sérios reflexos no próprio processo democrático.

O canibalismo, como o que se vislumbra na escaramuça entre o impérios Marinho e Frias, caracteriza-se pela absoluta falta de compostura e de preocupação pelo real interesse das audiências.

Exemplo da gangorra deu-se em 1992: antes das denúncias de Pedro Collor, a mídia escrita e eletrônica estava metida num autêntico "friforó" de faroeste: Estadão versus Folha, Veja contra Isto É, JB enfrentando O Globo. Publicada a entrevista do irmão do ex-presidente, por encanto evaporaram-se as rusgas e puseram-se todos no mesmo diapasão, sem nenhum esforço diferenciador.

Até a troca de comandos no telejornalismo da Globo (no segundo semestre de 1995), o panorama da mídia brasileira era desolador: a Folha reinventava a roda e os concorrentes diziam amém. A imprensa diária submetia-se ao simplismo da TV, esta reduzia os acontecimentos aos 30 segundos convencionais e as revistas semanais preocupavam-se apenas em atender às exigências do crescente leitorado feminino.

Os novos padrões do telejornalismo global deram uma grande mexida no ambiente. A TV Globo ganhou uma ressonância qualitativa e a Folha estrilou. O episódio da denúncia contra duas inserções de uma propaganda do candidato Serra numa mesma edição do Jornal Nacional foi apenas um pretexto da Folha para revidar uma série de gozações que vinha sofrendo em diferentes horários da Globo, notadamente aquelas emitidas pelo jornalista Renato Machado no seu eficiente Bom Dia, Brasil.

Quando o Roda-Viva da TV Cultura começou a série de entrevistas com os capos da mídia brasileira, em 26 de fevereiro deste ano, o primeiro a sentar-se foi Otávio Frias Filho, que deu o primeiro tiro referindo-se ao grupo Globo de forma extremamente contundente.

Portanto, é totalmente descabida - além de injusta para com o candidato tucano - a crônica de Clóvis Rossi na FSP de domingo, dia 22/9, tentando converter o episódio da dupla inserção da propaganda pró-Serra na causa do conflito entre os dois grupos jornalísticos. Mesmo porque, 24 horas antes, a decisão da Justiça Eleitoral paulista contra a Globo fora anulada em manifestação de sua instância máxima.

Quem colocou o dedo na ferida, mas de leve, sem aprofundar-se, foi o ombudsman da FSP (no mesmo domingo, 22/9): os dois grupos estão concorrendo na área das telecomunicações.

Esta é a verdade e este é o drama da imprensa brasileira. O debate político e moral é na realidade mero disfarce para uma corrida por concessões telefônicas e, sobretudo, pelas parcerias externas que estas podem atrair.

Carlos Lacerda perseguiu Samuel Wainer não apenas porque este conseguiu o inesgotável aporte do Banco do Brasil para a Última Hora, mas porque esta despontou como estrela de primeira grandeza no jornalismo vespertino carioca, deixando num canto a pequena Tribuna da Imprensa.

Se antes a briga girava em torno da atividade-fim de empresas jornalísticas (informação), agora a briga concentra-se numa atividade-meio, meramente comercial e financeira (telecomunicação).

Aqui revela-se em toda a extensão a desgraça que ronda a imprensa e a democracia brasileira: a concentração da mídia em torno de poucas empresas, obrigadas pela Constituição a manterem-se no esquema familiar, descapitalizadas, incapazes de crescer, obrigadas a recorrer à prestidigitação marqueteira e a parcerias espúrias em áreas aparentemente afins mas na realidade antagônicas.

Aguardem mais xingamentos e mais violência até que apareçam parlamentares sérios, dispostos a acabar com o fator causal da penúria de recursos no mercado jornalístico: o artigo 222 da Constituição.

****

Nota:

Constituição da República Federativa do Brasil, 1988, art. 222:

"A propriedade de empresa jornalística e de radiodifusão sonora e de sons e imagens é privativa de brasileiros natos ou naturalizados há mais de dez anos, aos quais caberá a responsabilidade por sua administração e orientação intelectual.

§ 1º É vedada a participação de pessoa jurídica no capital social de empresa jornalística ou de radiodifusão, exceto a de partido político e de sociedades cujo capital pertença exclusiva e nominalmente a brasileiros.

§ 2º A participação referida no parágrafo anterior só se efetuará através de capital sem direito a voto e não poderá exceder a trinta por cento do capital social."

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