RODA VIVA

Espetacularização e tecnologização da cultura

Por Haron Gamal em 03/07/2012 na edição 701

Segunda feira (25/06), no Roda Viva, na TV Cultura, Muniz Sodré afirmou: “Na sociedade atual há espetáculo demais”. O ex-diretor da Biblioteca Nacional e professor emérito da UFRJ queria dizer, naturalmente, que a educação se vê prejudicada pelos excessos da indústria cultural e de sua divulgação cada vez maior através dos instrumentos da cultura de massa. Os entrevistadores foram impiedosos nas perguntas; queriam a todo custo que ele respondesse qual a fórmula para o país vir a ter educação de excelência. Mas, como todos os intelectuais, o professor também não tinha a resposta. Ele chegou a citar como exemplo os colégios de aplicação das universidades federais. Mas não foi sobre eles que os jornalistas esperavam ouvir; queriam saber como faria caso dirigisse uma escola pública municipal ou estadual nas atuais circunstâncias; qual seria sua estratégia para que os alunos avançassem no estudo e na leitura, alcançando um patamar pelo menos satisfatório.

Um problema contra o qual toda a intelectualidade se depara atualmente e não vê saída é a tal espetacularização da cultura. Somos bombardeados dia e noite por chamados à audiência, sejam eles oriundos das mídias impressas, audiovisuais convencionais (se é que ainda se pode usar essa palavra) ou mídias digitais. Os apelos são tão intensos e colocados através de estratégias de tamanha sedução que acabam por convencer que o espetáculo é imprescindível. Chega-se a pensar que ele é totalmente natural e que não se pode pensar em outra forma de sociedade.

Oba-oba da mídia

Outro problema que expande a questão acima é o crescimento do aparato tecnológico, como smartphones, notebooks, tabletse tudo mais que tem surgido através do desenvolvimento da microtecnologia. Está claro que não devemos nos opor ao progresso, mas nos dias de hoje quase não há reflexão sobre se a atualização constante e o consumo de todo esse aparato é mesmo imprescindível.

Quando observamos a utilização que a maioria das pessoas faz da tecnologia, ficamos assustados. São poucas que a utilizam com o real sentido de galgar conhecimentos que realmente lhes serão úteis, como os advindos do mundo acadêmico, o universo onde há método e fundamento para pesquisa e estudo. Querendo ou não, a escola é uma ramificação da cultura erudita, pois para se lecionar é necessário ter cursado a universidade. Mas eis que a tecnologização acaba levando as pessoas a utilizarem esses aparelhos não com fins de pesquisa, mas como distração e mesmo como meio de autoafirmação. Veja-se o narcisismo presente nas redes sociais; quase todos se tornam (pseudo) atores e atrizes da espetacularização de suas próprias vidas, buscando também a audiência.

Quem há de se enfronhar numa biblioteca, sobretudo nos anos de formação, para ler um livro por puro prazer ante a avalanche de apelos ao consumo de instrumentos que proporcionam imagens em movimento, som, comunicação em tempo real, jogos, efeitos especiais e interatividade? Quem ainda desejará tatear o mundo da alta cultura como um meio de obter conhecimentos para a sua profissão ou mesmo para a reflexão sobre a vida? Melhor talvez fazer parte do oba-oba que as mídias alardeiam tentando envolver a todos, fazendo acreditar que, assim, cada cidadão é participante ativo da nova sociedade.

Silêncio dos inocentes

Ao invés do incentivo à leitura e ao estudo, o que vemos quando analisamos a questão é a formação de um forte mercado consumidor de tecnologia muitas vezes desnecessária, o que acaba afastando ainda mais o ser humano do que ele realmente precisa.

Quem há de se colocar contra o apelo da tecnologização excessiva da cultura e sua consequente espetacularização? Quem há de mostrar que os argumentos utilizados por essa indústria apontam mais a pseudoverdades? A problemática em que estamos inseridos ainda é a mesma da discutida por Theodor Adorno e pela Escola de Frankfurt em meados do século passado, quando utilizaram como objeto de análise o cinema americano do período. O pensador contemporâneo tem o dever de denunciar o exagero de tal empreitada consumista e mostrar que está imbuído do espírito de pesquisa e de crítica. Caso não o faça, sonegará à intelectualidade o papel de colocar as coisas nos seus devidos lugares.

Em qualquer sala de aula dos colégios de hoje, mesmo no ensino público, a maioria dos alunos possui grande parte desse aparato tecnológico, além de muitos também terem acesso à internet. Até aí tudo bem. Muitos professores, porém, já não conseguem convencer que internet não significa apenas jogos e redes sociais – traduzindo: divertimento.

É preciso sempre desenvolver o pensamento crítico e mostrar que o apelo da indústria tecnológica e cultural não é levar as pessoas ao mundo da alta cultura, um patamar em que a reflexão possa ser mais intensa e daí surgirem soluções para os problemas do mundo atual, inclusive soluções conceituais e de valores. Mas a intenção da ideologia é aproveitar o silêncio dos inocentes e impingir a produção e o consumo avassaladores.

Por isso, as palavras do professor Muniz Sodré, no programa Roda Viva.

***

[Haron Gamal é doutor em literatura brasileira pela UFRJ, professor do magistério superior e autor do livro Magalhães de Azeredo – série essencial – editado pela Academia Brasileira de Letras]

ATENÇÃO: Será necessário validar a publicação do seu comentário clicando no link enviado em seguida ao endereço de e-mail que você informou. Só as mensagens autorizadas serão publicadas. Este procedimento será feito apenas uma vez para cada endereço de e-mail utilizado.

Nome   Sobrenome
 
     
E-mail   Profissão
 
     
Cidade   Estado
 
     
Comentário    

1400
   
Preencha o campo abaixo com os caracteres da imagem para confirmar seu comentário, depois clique em enviar.
Recarregar imagem
   
   



Este é um espaço de diálogo e troca de conhecimentos que estimula a diversidade e a pluralidade de ideias e de pontos de vista. Não serão publicados comentários com xingamentos e ofensas ou que incitem a intolerância ou o crime. Os comentários devem ser pertinentes ao tema da matéria e aos debates que naturalmente surgirem. Mensagens que não atendam a essas normas serão deletadas - e os comentaristas que habitualmente as transgredirem poderão ter interrompido seu acesso a este fórum.

 

 Helia Mascarenhas
 Enviado em: 03/07/2012 20:50:12
Uma crônica que traz para a mídia discutir os problemas da mídia.
 PAULA ROBERTA SANTANA ROCHA
 Enviado em: 04/07/2012 22:33:44
As palavras do professor podem resumir muito bem o atual estágio de nossas mídias. E há quem diga que os frankfurtianos já estão ultrapassados... Podemos até considerá-los radicais, mas se eles tivessem vivendo no meio de nós nos dias de hoje, estariam horrorizados, porque o espetáculo está generalizado e infiltrado em todos os âmbitos da vida.
 João Damasio
 Enviado em: 05/07/2012 13:52:16
A análise - tanto do Sodré quanto do Gamal - na minha opinião, é a mais correta possível. A resolução que, obviamente, não é vista enquanto não é criada (se não, não seria papel da ciência ocupar-se dela) é que ainda parece estar à mercê de padrões antigos, testados e reprovados hoje: por que opor uso acadêmico e profissional das tecnologias ao divertimento? (como consta neste penúltimo parágrafo)
 Paulo Poft
 Enviado em: 06/07/2012 17:52:24
Tanto a entrevista do prof. Muniz Sodré quanto o texto do prof. Gamal são muito bons e lúcidos quanto aos maus usos da tecnologia e espetacularização da vida. Mas uma coisa me incomoda no texto acima, por que a utilização do termo "alta cultura"? Ainda mais como se isso fosse melhor do que uma "baixa cultura". Não sei nem se essas duas coisas existem. A valorização de uma cultura "erudita" em detrimento de uma cultura "popular" ou "tradicional" é também um grande problema brasileiro, inclusive apontado pelo prof. Muniz Sodré em sua entrevista. Ainda, acredito que o verdadeiro problema seja a total dominância do mercado em todos os aspectos da vida, na cultura do consumismo desenfreado onde a necessidade de comprar tecnologia está baseada na novidade dela, não no uso que se faz dela ou nas reais necessidades da pessoa/consumidor.
 Ricardo Dias
 Enviado em: 06/07/2012 18:46:21
Parabéns ao OI e ao autor do artigo. O 5º parágrafo sintetiza o discurso político da ‘inclusão digital’. Junte-se a esse discurso a manutenção oficial do assistencialismo, o barateamento progressivo do acesso eletrônico básico e o correspondente suporte dessa estrutura pelos meios de comunicação (ressalte-se que aqui nenhuma mídia é ‘golpista’): nada melhor à governabilidade e à aprovação/manutenção dos eleitos em seus postos, mesmo com a proliferação dos escândalos noticiosos diários que evidenciam a pior das privatizações – a da progressão geométrica dos interesses privados junto ao poder público instituído. Assim, com raríssimas exceções, as ‘conexões’ tradicionais (mesmo com o rádio/TV) deixaram as ruas e a lateralidade embutida no convívio físico - em face da violência do espaço público, ´controlada’ e retumbada via mídia pelo poder - para se ‘verticalizar’ plena e ‘prazerosamente’ nas máquinas ‘comandadas’ por qualquer cidadão, sua individualidade /intimidade ou o que ainda resta disso (inclusive a indignação). (continua)
 Ricardo Dias
 Enviado em: 06/07/2012 18:50:33
(continuação). Finalmente, o fluxo de parte dos cidadãos para as redes sociáveis - provavelmente em fuga da produção informativa em série predominantemente espetaculosa e superficial (inclusos Rádio/TV) – ou o patrocínio inconsciente (?) do lucro progressivo dos grupos detentores das ‘acessibilidades’ e a manutenção desses grupos no topo da pirâmide social. A ‘nova ordem mundial on-line’ idealizada, estabelecida e explorada por esses grupos é mais uma das historicamente magistrais ‘intervenções em favor da coletividade’, sempre operadas pelo poder financeiro , consolidadas pela mídia, o poder instituído (eleitos) e seus discursos quase sempre convincentes. Por quanto tempo a reflexão dos cidadãos, suas indignações e atitudes permanecerão de pijamas? Que ‘intervenções geniais’ serão impingidas futuramente? Convém esquecer tudo isso, que o ‘esperto’ bombardeio contemporâneo e em conjunto da nova ordem mundial on-line, da mídia e da governabilidade aboliu até mesmo o pensar no futuro ou o vislumbre (hoje inadmissível) de qualquer reconstrução do presente e suas laterais desigualdades.

Haron Gamal

AÇÕES ANTI-ISLÃ

Repetição e recepção

Haron Gamal | Edição nº 713 | 25/09/2012 | 1 comentários

CELEBRIDADES

Potencialização da audiência e a celebração da imagem

Haron Gamal | Edição nº 712 | 18/09/2012 | 1 comentários

OBSERVATÓRIO NA TV

Informação digna não é mercadoria

Haron Gamal | Edição nº 698 | 12/06/2012 | 1 comentários

Ver todos os textos desse autor