TERESA EN TRES ESTACIONES

Governo Chávez financia novela socialista

Por Andres Kalikoske em 06/11/2012 na edição 719

O coronelismo midiático instaurado pelo presidente venezuelano Hugo Chávez atingiu seu ápice no dia 29 de outubro de 2012, quando seu governo levou ao ar, pela estatal Televisora Venezolana Social (TVes), o primeiro capítulo da novela Teresa en Tres Estaciones. O roteiro, assinado por Julio César Mármol e Edgar Mejías, narra a história de três mulheres venezuelanas de diferentes idades: María Teresa (48), Cruz Teresa (28) e Ana Teresa (18). Conforme a sinopse, os caminhos das três Teresas se cruzarão nos trens do Sistema Ferroviario de los Valles del Tuy, empreendimento do governo chavista que interliga Caracas à região metropolitana, zona economicamente desfavorecida. Com uma produção de 40 capítulos de 30 minutos, Teresa en Tres Estaciones está sendo transmitida de segunda-feira a sábado, a partir das 21 horas. Em seus sonhos, as três Teresas venezuelanas buscam felicidade afetiva e ascensão profissional, igualando-se aos anseios de qualquer mocinha sofredora de uma telenovela latino-americana. A primeira almeja ser uma famosa cineasta independente; a segunda deseja casar-se com um príncipe encantado; e a terceira quer converter-se em uma famosa cantora regional.

Como não poderia deixar de ser, o financiamento da produção ficou a cargo do Fondo de Responsabilidad Social de Conatel, criado pela Ley de Responsabilidad Social en Radio, Televisión y Medios Electrónicos para incentivar o desenvolvimento da produção audiovisual venezuelana, diga-se de passagem, de interesse chavista. Ainda, o orçamento conta com o respaldo de diversos braços estatais, sinergicamente interligados ao Ministerio del Poder Popular para la Comunicación y la Información (MinCI). Responsável pelo projeto, a produtora Delfina Catalá declarou para a agência de notícias EFE que Teresa en Tres Estaciones custará 17 milhões de bolívares aos venezuelanos (cerca de 4 milhões de dólares).

Conflitos com a mídia

Em analogia, pode-se dizer que Chávez está valendo-se da indústria cultural televisiva para penetrar no âmago da sociedade venezuelana que ainda não aderiu ao seu projeto político-econômico. Considerando o radicalismo de seu governo, a estratégia surpreende, visto que o poder simbólico das narrativas seriadas, de modo geral, pode ser considerado como uma das mais sofisticadas ofensivas em prol da manipulação da informação no país. Resta saber se a audiência da terceira novela politizada produzida pelo governo Chávez corresponderá. As experiências anteriores, Amores de Barrio Adentro (2004) e Caramelo y Chocolate (2008), foram levadas ao ar sem sucesso.

Um dos maiores desafios é a baixa audiência do canal TVes, que registra um rating de 1,5%. Para não repetir erros do passado recente, Teresa en Tres Estaciones foi lançada com ares de superprodução. Parte da estratégia está no star system da produção: além de técnicos advindos de outros canais, o elenco conta com Rosario Prieto, uma consagrada atriz de 70 anos que cresceu aos olhos do povo venezuelano atuando desde seus 17 anos na RCTV. Um personagem foi criado especialmente para a atriz: Prieto interpretará a mãe de uma das incansáveis Teresas.

O coronelismo foi uma espécie de sistema vigente na época da República Velha, cuja principal característica era o poder concentrado nas mãos de um poderoso chefe local, geralmente um grande latifundiário, fazendeiro ou senhor de engenho. Em analogia, no terreno audiovisual, Chávez foi mundialmente percebido como um genuíno “coronel midiático” em 2007, quando decidiu não outorgar a renovação da concessão da Radio Caracas de Televisão (RCTV), protagonizando um episódio que chocou e provocou reações nas classes intelectual e artística latino-americanas. Para os oposicionistas, tal decisão seria um castigo pela participação da RCTV na tentativa de tirar Chávez do poder, em 2002.

Após o ocorrido, o presidente venezuelano intensificou a criação de seu próprio império de comunicação, que hoje inclui a TVes – ocupando a frequência da RCTV – e a rede Telesur. No centro das crescentes investidas de Chávez também estão meios de comunicação pseudoindependentes, mas que são controlados com tirania pelo Estado, como as dezenas de emissoras de rádio e TV comunitárias que foram espalhadas pelo país.

Aos profissionais de TV que se manifestavam publicamente contra o ditador populista, restou contar com a reação da população da Venezuela e da comunidade internacional para manter as operações da RCTV, que hoje é distribuída via TV paga. Para agravar sua situação, a emissoras precisa lidar com as diversas multas impostas pela Conatel (Comissão Nacional de Telecomunicações), pelas razões mais truanescas possíveis. Somam-se, ainda, sanções financeiras contra a operadora de TV paga que administra o canal e processos penais contra seus proprietários. Tais tentativas de manipulação da informação atualmente se refletem em quase todos os meios impressos ou eletrônicos do país. A radicalização do discurso chavista levou ao predomínio de editoriais e análises de aderência política prévia, ou seja, onde o leitor, telespectador ou usuário adere ao meio a partir de suas convicções político-ideológicas.

Socialismo do século 21

A Venezuela é um país petroleiro desde a década de 1920, quando este insumo superou o café e assumiu a liderança entre as exportações do país. O petróleo alavancou a economia do país nos anos 1970 e que também o levou ao colapso financeiro nos anos 1980, com a queda nos preços dos barris. Foi neste momento que, na tentativa de ganhar maior autonomia sob seus recursos naturais, o governo nacionalizou sua indústria petroleira.

Com o desabamento dos preços do petróleo os venezuelanos enfrentaram uma das piores crises de sua história, materializada através do déficit fiscal, fluxo de capital saindo ao exterior, decrescimento do Produto Interno Bruto (PIB), elevação do desemprego e consequente inflação. Em meio ao caos, os governantes venezuelanos associaram-se ao Fundo Monetário Internacional (FMI), e o país passou a ser complacente com as estratégias delineadas pelos organismos financeiros. Instaurou-se uma espécie de descrédito social na capacidade política de seus líderes em administrarem a nação, especialmente os considerados capitalistas ortodoxos.

A política venezuelana volta a chamar a atenção do mundo em 1999, quando foi o primeiro país sul-americano a eleger um candidato declaradamente crítico ao projeto neoliberal. Isso ocorreu, em parte, após uma longa trajetória de crises financeiras e institucionais, seguidas por tentativas frustradas de reestruturação do desenvolvimento nacional. Em síntese, o cenário de perda de legitimidade política e econômica do histórico modelo eleitoral venezuelano favoreceu a escalada política de Hugo Chávez rumo à presidência da República.

Na contrapartida dos considerados capitalistas aos olhos do povo, Chávez propunha reconstruir a nação a partir de alterações substanciais nas bases estruturais do modelo político do Punto Fijo, que controlara os rumos da nação durante quatro décadas (1958-1998). Chávez mostrou sua voracidade política quando, já eleito, lutou contra um golpe de Estado, liderado por Pedro Francisco Carmona Estanga. Respondeu energicamente com um contragolpe, que contou com o apoio de militares legalistas que então o reempossaram.

Apesar do discurso anti-imperialista, Chávez manteve a lógica rentista de acumulação da economia venezuelana, ou seja, explorando com exaustão a renda proveniente da exportação de petróleo. É assim que o governo Chávez tem alimentado pseudomelhorias sociais na Venezuela, impulsionando diversos projetos político-sociais que o tornam popular ante as classes menos favorecidas. No entanto, notadamente trata-se de um projeto radical contra a modernidade e a integração global, que poderá desencadear o isolamento da economia venezuelana do cenário mundial.

***

[Andres Kalikoske é professor da Unisinos e doutorando em Comunicação na mesma instituição]

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 Rodrigo Guidini Sonni
 Enviado em: 08/11/2012 02:53:21
Um canal de TV atua em um golpe de estado (que o senhor chama de tentativa de tirar do poder) e recebe um castigo?Foi democrático demais o Chávez,aliás a não renovação foi dentro da lei,o que envolve os demais poderes na Venezuela,sobretudo o judiciário. Aí fala em pseudoindepentes e pseudomelhorias sociais e demonstra a completa falta de conhecimento sobre o país. Ainda comete duas tolices conceituais típicas da acadêmia.Ambas derivam de utilizar uma categoria histórica específica para classificar,fora de lugar, um fenômeno distinto,caso de "coronelismo" e "populista". Chega a ser constrangedor utilizar tirania e ditador ao se referir ao Estado Venezuelano e a Chávez. Nenhuma república ocidental passou por tantas eleições (incluindo os referendos) como a Venezuela pós-Chavéz. E mais, a liberdade de expressão ali é plena,aliás beira a libertinagem, com canais "privados" participando de golpes frustrados e racismo explícito. Mais uma coisa: dizer que a sociedade venezuelana não aderiu ao projeto político do atual presidente só pode ser fruto de uma projeção de desejo do senhor, foram 3 eleições, sendo a última vencida pela diferença de quase 12% de votos e 2 milhões de eleitores. Por fim, exploração rentista do petróleo? Queria que ele doa-se o petróleo? "Notadamente trata-se de um projeto contra a modernidade"? Quem disse? Triste um doutora
 Gabriel Winter
 Enviado em: 08/11/2012 12:24:20
Parabéns ao autor pela linealidade do texto. Discurso direto, claro e objetivo. Contextualização de fácil assimilação pata os leitores sobre um tema complexo como o chavismo.
 Jorge Lucena
 Enviado em: 10/11/2012 15:12:10
Caros amigos, triste saber como é fácil manipular o povo. Realmente a narrativa da novela é um canal fantástico descoberto por Chávez e seus seguidores para difundir seus ideais e concepções. Lideranças como essa tornam mais fácil vermos como as democracias podem ser facilmente corrompidas, e como é importante interromper essa corrupção no início em democracias hoje não-liberais como a Venezuela.
 Werner Fernanades
 Enviado em: 11/11/2012 23:59:48
incrivel como um Prof Dr escreve TANTA asneira SEM nenhum CONHECIMENTO do assunto além das mentiras da Midia corporativa... Eu, se fosse o autor, me envergonharia. A Venezuela Bolivariana - queiram a SIP e o dr autor deste panfletinho ou não é Democracia consolidade, com Eleições mais livres que qualquer outro pais - e mais limpas. E Chavez ao redistribuir os lucros do Petroleo com a população reduziu em 50% os miseraveis do país, ACABOU com o analfabetismo, levou a Saúde a toda a população, acabou com a fome, está implantando programa respeitavel de moradias populares pra quem nada tinha... mas o melhor foi ter criado um sistema de comunicação com a população que não mais está à mercê dos famigerados orgão da imprensa corporativa SIPista. Acorda dr Andres, acorda! Suas mentiras não se sustentam, abra o olho!
  Dario Carvalhal
 Enviado em: 13/11/2012 11:27:48
Que lástima que pessoas ainda defendam atos arbitrários como esse. Não tem essa de esquerda, EUA, ou seja lá o que for. Proibir, usando o poder que apesar de tudo é temporário, que vozes discordantes continuem existindo dentro de uma país que é de todos, é revoltante. Mas ele é mais um ditador latino Americano (Não vamos ser hipócritas de falar em eleições. Nós sabemos como a banda toca por aquelas bandas). Faz o que a sede dele em se perputuar no poder manda. Agora que cidadãos comuns concordem com isso, é nojento. Todos eles,sem excessão, são personagem de um livro de William Reich chamado "Escuta, Zé ninguém". O titulo explica tudo, mas o conteúdo explica ainda mais...leiam!

Andres Kalikoske

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