FORMAÇÃO DE PROFESSORES
O salário e o sal da educação
Por Gabriel Perissé em 22/01/2013 na edição 730
Para ler as notícias em torno da educação brasileira, não podemos esquecer a tensão entre a educação de qualidade, que desejamos, e a situação real, que se revela problemática, muitas vezes inaceitável.
Vejamos o tópico da formação docente. A maior parte dos professores que concluíram algum curso superior e atuam no ensino básico estudaram em faculdades particulares. E são as particulares que têm desempenho inferior em comparação com as instituições públicas. A USP sequer dá bola para o Enade, considerando-se por conta própria hours concurs.
Um tanto escandalizada, a mídia divulgou recentemente o que, sob a ótica do MEC, é realidade conhecida e em processo de melhoria (o ritmo lento, como em outros casos: Ideb, alfabetização, etc.). Muitos cursos não poderão receber novas matrículas. Seus vestibulares estão cancelados, até que apresentem melhores resultados. A pressão do Ministério, que vem aumentando na última década, é forte “incentivo” para as instituições tomarem medidas de aperfeiçoamento.
As fragilidades dos cursos de pedagogia e de licenciatura são evidentes. E há uma relação direta com a questão salarial. São cursos com pouco prestígio que acolhem mais do que atraem. Acolhem quem ambiciona as remunerações afetivas do magistério, ou quem, de modesta procedência social, encontrará no magistério a ascensão social que outras pessoas consideram modesta demais...
São exatamente estes cursos, porém, que deveriam ser os mais exigentes e eficientes, na hipótese de que o recém-formado estivesse para receber salário compatível com sua relevância social.
O desejado e o resultado
Queremos que a educação receba o tempero da criatividade, que nossos professores estudem e pesquisem para melhorar sua prática didática, mas salários baixos não justificam o empenho em quebrar rotinas e experimentar métodos inovadores.
Queremos professores capazes de incentivar os alunos a ler, pensar, calcular, escrever, decidir; e esperamos que, dentre estes, o Brasil possa contar com futuros professores cheios de entusiasmo. Porém, salários baixos desmotivam os que estão lecionando e não atraem novos ingressantes.
Queremos que as escolas superem o conteudismo cansativo, o medo da cibercultura, a avaliação mesquinha, tantos e diferentes ranços. No entanto, salários baixos são um dos sinais de que tudo (ou quase tudo) nas nossas salas de aula tende a ser de curto prazo, insuficiente profundidade e pequeno alcance.
O piso mínimo...
Todo piso é mínimo. Abaixo disso seria o porão. Se continuarmos a olhar o piso, dificilmente iremos um dia discutir o teto.
E chega a ser, no mínimo... curioso o detalhismo com que o G1 Educaçãonoticiou que:
O ministro da Educação, Aloizio Mercadante, anunciou nesta quinta-feira (10) reajuste de 7,97268% do piso salarial de professores do ensino básico da rede pública brasileira, que abrange educação infantil e nível médio.
O reajuste quase chegou aos 8%. Foi por pouco! Esse 0,02732% que faltou para chegar a um reajuste tão inferior ao que a categoria docente merece faz pensar como são contados os grãos de sal deste salário.
***
[Gabriel Perissé é professor e escritor; www.perisse.com.br]
Este é um espaço de diálogo e troca de conhecimentos que estimula a diversidade e a pluralidade de idéias e de pontos de vista. Não serão publicados comentários com xingamentos e ofensas ou que incitem a intolerância ou o crime. Os comentários devem ser pertinentes ao tema da matéria e aos debates que naturalmente surgirem. Mensagens que não atendam a essas normas serão deletadas - e os comentaristas que habitualmente as transgredirem poderão ter interrompido seu acesso a este fórum.
ATENÇÃO: Será necessário validar a publicação do seu comentário clicando no link enviado em seguida ao endereço de e-mail que você informou. Só as mensagens autorizadas serão publicadas. Este procedimento será feito apenas uma vez para cada endereço de e-mail utilizado.
LEITURAS DE ‘CARTA CAPITAL’
Gabriel Perissé | Edição nº 747 | 21/05/2013 | 1 comentários
MÍDIA & EDUCAÇÃO
Gabriel Perissé | Edição nº 712 | 18/09/2012 | 1 comentários
À MARGEM DA SEMÂNTICA
Gabriel Perissé | Edição nº 690 | 17/04/2012 | 0 comentários
PRESIDENTE OU PRESIDENTA?
Gabriel Perissé | Edição nº 675 | 03/01/2012 | 6 comentários
TROCADILHO INCÔMODO
Gabriel Perissé | Edição nº 668 | 15/11/2011 | 0 comentários
Ver todos os textos desse autor





