MERCADO EDITORIAL

Radiografia da feira de livros do futuro

Por Verónica Calderón em 10/12/2013 na edição 776

Reproduzido do El País Brasil, 8/12/2013

Livros. Montanhas de livros. Prateleiras repletas de livros. Pequenos, grandes, finos, de bolso, de capa dura, de coleção. A Feira Internacional do Livro de Guadalajara, a maior no idioma espanhol, deve receber centenas de milhares, possivelmente até milhões deles. Mas é fato que há pelo menos dez anos o livro (e a indústria impressa em geral) enfrenta uma séria crise de identidade: existe futuro para o papel? Estamos fadados a ler em tablets? Como serão as feiras de livros do futuro? Aliás, existirão feiras?

A edição deste ano da Feira do Livro, que termina neste domingo, incluiu pela primeira vez um pavilhão dedicado ao livro eletrônico. Alguns dos expositores oferecem títulos até 70% mais baratos em relação ao exemplar em papel. Mas, ao contrário do que se acredita, um livro eletrônico não “deve” obrigatoriamente ser mais barato do que seu equivalente impresso. Pelo menos essa é a opinião de Ian McCullough, especialista em consumo de meios eletrônicos. “O custo é irrelevante. O maior valor de um livro não está no que ele é fisicamente, e sim no conteúdo: o trabalho de editores, escritores, promotores etc..”

Além disso, a capacidade da plataforma transforma o livro em um objeto com possibilidades muito maiores. A Robot Media, com sede em Barcelona, é uma editora que produz livros eletrônicos infantis. Seu diretor, Hermes Piqué, opina que o e-book está em fase de experimentação, em especial na sua área. “Ainda continuamos virando a página em muitos dispositivos, quando o conceito de página não faz mais do que restringir o tecido infinito que o digital oferece. Além disso, falar do livro digital é também restritivo. A palavra descreve o continente, e não o conteúdo. Nossos ‘livros’ têm animação – são filmes? –, narração – é áudio? –, interatividade – são jogos? – e, obviamente, texto. É muito divertido quando os advogados tentam descrever o livro digital em um contrato editorial.”

O leitor muda, mas não deixará de existir. Brian Wong, o jovem fundador da plataforma Kiip – que utiliza um sistema de recompensas através de jogos eletrônicos para usos comerciais –, opina que o livro e a indústria do papel em geral continuarão existindo apesar das mudanças. “A necessidade de se informar não desaparecerá da noite para o dia. Os conteúdos se especializam, isso sim. As pessoas são muito mais específicas para o consumo editorial. Mas o interesse não vai se extinguir.”

É muito divertido quando os advogados tentam descrever o livro digital em um contrato editorial

E é precisamente isso, o hábito, que está em constante evolução e ditará a pauta nos próximos anos. Nesta semana, no pavilhão infantil da FIL de Guadalajara, muitas crianças folheavam livros ao mesmo tempo em que apanhavam com segurança os tablets que encontravam por lá. “Temos escassas noções do vocabulário da linguagem digital, e ainda falta um longo caminho até que possamos estabelecer sua gramática. Quais serão os conteúdos preferidos dos bebês que crescerem com um tablet? Em alguns anos já saberemos”, diz Piqué.

O livro, ou o que entendemos por livro, não está em perigo de morte. O que mudará, assegura Matt Cable, da companhia de software Rosa Labs, é o caminho da difusão e do consumo. Cable descarta, por enquanto, um sistema similar ao dos sites que compartilham música ou filmes em streaming (como Spotify ou Netflix) para a indústria editorial. “O material audiovisual pode ser consumido em minutos. Os livros levam muito mais tempo e não é provável que se adaptem facilmente a uma plataforma amparada em um modelo tão aberto”. Piqué concorda: “A distribuição está longe de ser conveniente. Nos aparelhos da Apple, por exemplo, a App Store serve tanto para distribuir conteúdos quanto para baixar um aplicativo que pede táxis. Muitos usuários nunca abriram o iBooks ou a Banca [aplicativos feitos para livros e revistas], entretanto consomem aplicativos vorazmente”.

Embora o modelo de negócios seja um quebra-cabeças para a indústria editorial, a boa notícia (pelo menos) é que agora ela tem consciência da mudança. “Mesmo que isso não implique que seja fácil para elas mudar. O valor tradicionalmente agregado pelas editoras diminuiu, e isto exige redefinir seu papel na cadeia de valor”, observa Piqué. “As editoras historicamente se destacaram em quatro funções: descobrir talentos, prepará-los para publicação, distribui-los e, mais recentemente, vender seus direitos.”

Um livro eletrônico pode ser difundido em questão de minutos para um público global

Mas as redes sociais fizeram essestatus quo voar pelos ares, recorda Wong. “Para as empresas tradicionais, é muito difícil se acostumar à mudança, porque implica uma revisão da sua própria identidade”, comenta. Um usuário do Twitter que tenha um grande número de seguidores ganha “prestígio” para aparecer em uma livraria. Nesta semana, por exemplo, também na FIL, a escritora Merlina Acevedo apresentouRelojes de Arena, Peones de Troya, um livro que compila boa parte de seus tuítes: complicados palíndromos e aforismos que lhe valeram admiradores dentro e fora da indústria editorial. “É cada vez mais comum que os autores cheguem às editoras com seu próprio público”. O caso de Acevedo é, literalmente, coisa de livro. E sobre a distribuição, o que dizer? Um livro pode ser difundido em questão de minutos para um público global, via Amazon ou Google Play.

Mas nem tudo é perda de funções para as editoras: um escritor não necessariamente tem espírito comercial, afirma Piqué. “E é aqui que eu acredito que as editoras tenham muito valor a agregar. Há uma oferta cada vez maior de conteúdos, e não basta apenas ter qualidade para se destacar. As editoras terão cada vez mais participação no marketing on-line e na gestão de fãs.”

A feira do livro, portanto, não só continuará existindo no futuro como também oferecerá um convívio muito mais próximo entre escritor e leitor. Piqué evoca o exemplo do autor de A Guerra dos Tronos, George R. R. Martin, que antecipa em seu site capítulos de seus próximos romances. “Possivelmente, daqui a 50 anos as feiras do livro [tal qual as conhecemos] não serão necessárias: serão feiras de leitores.”

***

Verónica Calderón, do El País

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