ENTREVISTA / PIERRE LÉVY

Neutralidade da internet: ‘Brasil está na vanguarda’

Por Rennan Setti em 18/03/2014 na edição 790

Reproduzido do Globo.com, 14/3/2014; título original “Neutralidade da internet: ‘Brasil está na vanguarda’, diz Pierre Lévy”

Um otimista sobre a influência da internet na sociedade, o filósofo francês Pierre Lévy avalia que o Brasil está vanguarda na defesa da neutralidade de rede. O conceito, segundo o qual provedores não podem privilegiar ou restringir o acesso a qualquer pacote de dados na rede, é o ponto mais sensível do Marco Civil – projeto emperrado no Congresso cujo nome Lévy cita de cor, em português.

Em entrevista a jornalistas nesta sexta-feira no evento de mídia RioContentMarketing, na Barra, um Lévy visivelmente desconfortável – ele prefere falar à imprensa por Twitter – explicou seu maior projeto de pesquisa na universidade de Ottawa, no Canadá. A chamada metalinguagem da economia da informação (IEML, na sigla em inglês)é, grosso modo, um sistema para harmonizar as linguagens humanas e dos computadores visando a democratizar o acesso ao que chama de inteligência coletiva. O filósofo lança na semana que vem, em São Paulo, o livro “A esfera semântica”, em que aborda o tema.

O Congresso brasileiro discute no momento a neutralidade da rede. Quão importante é esse princípio para uma sociedade cada vez mais digitalizada e qual é sua posição sobre o debate?

Pierre Lévy– “Marco Civil! Marco Civil!” (entoou, aos risos, em português). Essa é uma proposta muito boa. Entre os melhores aspectos do Marco Civil estão o fato de ele ter sido criado de forma colaborativa; sua defesa da neutralidade de rede; e sua proteção da liberdade de expressão. Trata-se de algo positivo em todos os níveis.

Mas a neutralidade da rede está correndo um grande risco em nível global? Recentemente um tribunal americano deu ganho de causa à operadora Verizon, em um duro golpe contra a neutralidade...

P.L. – Vocês sabem que eu sou um otimista (risos). Então eu não acho que corremos um grande risco de perder a neutralidade da rede, mas acredito que haja algum risco, sim. O Brasil está, mais ou menos, na vanguarda desse movimento, e vocês devem continuar lutando.

Hoje os algoritmos nos dizem o que ler e assistir e até avaliam o nosso desempenho profissional. Mas, ao mesmo tempo que somos manipulados por eles, não sabemos como esses códigos são formados. Isso é justo?

P.L. – Eu não sei se somos manipulados pelos algoritmos, porque somos nós que manipulamos os algoritmos. Mas você está certo quando diz que eles não são transparentes, então não sabemos o que há dentro desses algoritmos que nós mesmos manipulamos. O que eu acho é que eles deveriam ser muito mais transparentes e abertos e que deveríamos poder participar da criação desses códigos. Mas, é claro, isso vai de encontro a segredos comerciais. Essa é nossa situação hoje.

Você costuma dizer que a IEML vai proporcionar um acesso mais democrático ao chamado Big Data (a enxurrada de dados que circulam hoje) e à internet como um todo. Como isso vai acontecer?

P.L. – A IEML é necessária porque criará uma interoperabilidade semântica entre as línguas naturais, entre vários sistemas de classificação e entre plataformas. Todos sabemos que as hashtags (termos destacados com o símbolo “#”) de Twitter, Facebook e Google+ não estão conectadas entre si, não são comparáveis. Então, a IEML criaria algo livre, sem barreiras, portanto mais democrático, ao criar relações semânticas entre os dados, pois eles estarão categorizados por meio de metalinguagem.

Quando ela estará completa?

P.L. – Eu trabalho nisso há cerca de 20 anos, é muito complexo! A gramática já está completa, e o dicionário será publicado em breve, dentro de seis meses, eu diria. Você poderá encontrar algumas ferramentas (para a IEML) já nos próximos anos, mas o trabalho é longo, trata-se de pesquisa básica.

Como a internet está transformando o modo como consumimos arte e entretenimento?

P.L. – Essa é uma pergunta muito ampla! De maneira breve, se há uma grande mudança, é a mutação social. Eu sou membro de uma rede social chamada Artstack, na qual descubro novos pintores, crio minhas próprias coleções, vejo as dos outros etc. Esse é um bom exemplo do tipo de coisa que não podíamos fazer antes. Hoje você pode ter acesso às novas tendências sem frequentar feiras de arte ou estar em Veneza ou São Paulo. O mesmo acontece com entretenimento. Há várias mídias sociais em que você compartilhar o que é importante para você, fã-clubes online sobre séries etc. É uma guinada social.

A TV corre risco de desaparecer na cibercultura?

P.L. – É difícil dizer. Eu acho que a TV, de uma forma isolada, já morreu. O que temos hoje é a TV associada à web, às mídias sociais etc. Mas os programas em si, como série e notícias, isso vai existir por muito tempo. A TV como uma mídia isolada, essa, sim, vai desaparecer, mas não o conteúdo. O conteúdo é que será redefinido nesse meio algorítmico aberto. Para os produtores de conteúdo, o caminho é desenvolver seu lado web, elevar a integração com as mídias sociais e focar em qualidade.

***

Rennan Setti, do Globo

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