A IMPRENSA E O DESMATAMENTO

A cobertura da tragédia amazônica

Por Luciano Martins Costa em 24/05/2005 na edição 330

A imprensa brasileira tem perdido grandes oportunidades para ajudar a conter uma das maiores tragédias da nossa história: o processo de destruição da diversidade biológica, que ameaça nos transformar, de potência do século 21, em mendigos do século 18.

O recente noticiário sobre os números da devastação na Amazônia – dando conta de que perdemos, entre 2003 e 2004, mais de 26 mil quilômetros quadrados de florestas, o equivalente ao território de Alagoas – veio recheado de dados assombrosos, mas praticamente ininteligíveis ao leitor comum, pela falta de contexto.

Com a exceção de Washington Novaes, de Marcos Sá Corrêa e outros gatos-do-mato pingados, que melhor se qualificam como colunistas do que como repórteres, não se dispõe, em nenhum dos nossos principais jornais e revistas, de uma cobertura que possa situar a opinião pública diante do quadro geral da tragédia. E neste caso, se não se der a visão ampla, nada se conhece sobre o assunto, ou seja, não adianta falar em milhares de quilômetros quadrados se não se explica o que existe dentro dessa área, assim como pouco se pode conhecer sobre as causas do fracasso da política ambiental do atual governo se o leitor não conhecer o emaranhado burocrático em que antigos militantes transformaram o Ministério do Meio Ambiente.

Em condições normais, por exemplo, ganha uma goiabada orgânica feita com açúcar mascavo quem conseguir conversar pelo telefone com o secretário de Biodiversidade e Florestas do Ministério do Meio Ambiente, João Paulo Capobianco. Ganha uma goiabada igual e um pote de geléia de açaí quem conseguir que, na impossibilidade de conceder a entrevista, ele autorize outro executivo do governo a falar sobre política ambiental. Pode-se ouvir o sr. Capobianco em palestras e debates, e, com sorte, enviar-lhe no final um bilhetinho com uma ou duas perguntas. Talvez responda.

A longa entrevista que concedeu ao repórter Herton Escobar, publicada no Estado de S.Paulo de domingo (22/5), é uma raridade comparável à da onça pintada, cada vez mais pintada e menos onça, e bastante significativa da relação que sua pasta mantém com a imprensa: o Ministério não dá atenção à imprensa, a imprensa se satisfaz com os relatórios oficiais e informações de fontes alternativas, como as denúncias das ONGs, mas também não faz muita força, porque, afinal, lá no fim da picada vamos ter que conversar sobre a indústria de papel, certo?

Entrevista rara, porém elucidativa: o secretário foi evidentemente tangido de cima para baixo a prestar esclarecimento. Disse que o governo está trabalhando, mas o maldito crescimento econômico dá mais fôlego à atividade pecuária na Amazônia. O repórter esqueceu de perguntar sobre a sustentabilidade do modelo econômico. E voltamos ao rés-do-chão.

Dano real

Não que o atual governo não tenha uma política ambiental. Na verdade, sob a direção da senadora Marina Silva, que construiu uma carreira irretocável no setor à custa de sua própria saúde, o Ministério do Meio Ambiente atualizou o país no contexto internacional da defesa da biodiversidade. O Brasil fez a lição de casa no que se refere à Convenção sobre a Diversidade Biológica, nossa legislação foi rapidamente modernizada e em muitos pontos é considerada referência internacional.

Mas, como em quase tudo neste governo de muitos militantes e poucos profissionais, o passo entre a idéia e a ação segue sendo uma impossibilidade. E, a julgar pelo desprezo dos seus principais executivos com relação à imprensa, pode-se suspeitar que o fracasso lhes subiu à cabeça. Mas como não tratamos aqui de políticas públicas, mas de como elas são levadas a conhecimento público, voltemos à raiz da castanheira, ou seja, de como a imprensa conta o conto.

A cobertura dada ao tema limitou-se ao lugar-comum do gênero, com o esperado viés político. Nenhuma referência a contexto histórico. É como se a crescente calvície na diversidade da Amazônia refletisse a perda também crescente da capacidade da imprensa de retratar complexidades.

O assunto é chato porque exige muita capacitação. Faltou dizer o valor do prejuízo. Ainda continuamos impressionados com cifras – e basta perguntar rapidamente a qualquer repórter quanto mede um alqueire, para termos uma idéia do quanto nos falta para sequer saber contar a extensão das perdas florestais ocorridas nos últimos anos. E não se lê qualquer coisa sobre o valor real dessa catástrofe, já que cem metros quadrados de determinado bioma podem corresponder, em valor real, a dez quilômetros quadrados de outro bioma. E, mesmo no interior do bioma Amazonas, a diversidade é tanta que fica difícil calcular a extensão real do dano que sofremos e cuja conta estamos pendurando nas chances de vida de nossos netos.

Longe do fato

Pelo que se pode observar nos mapas do IBGE, a imprensa nem chegou perto de nos dar uma idéia da tragédia que será contabilizada politicamente na campanha eleitoral do ano que vem. Foram perdidas áreas enormes de grande complexidade, além de faixas que normalmente servem de proteção a outros ecossistemas de variadas complexidades e interdependentes – o que significa que, à perda real mensurada, tem que ser acrescentada a área que ficou desprotegida e que neste exato momento também está sendo devastada.

Nada se disse sobre quanto tempo leva o processo de destruição para atingir a vastidão noticiada, sobre as responsabilidades dos políticos locais, sobre o modelo agrícola que empurra os pequenos produtores mata adentro, sobre o papel do MST, sobre a contradição da soja, que ameaça instalar a família Maggi ao mesmo tempo no panteão dos heróis da balança comercial e no livro negro (atenção: esta expressão é anterior ao início da exportação, pelos árabes, de escravos da África para a América) da ecologia.

A família Maggi, cujos domínios avançam no rastro da devastação, anunciou recentemente que vai mudar os métodos de produção e enquadrar mais de 400 fornecedores de sua agroindústria em sistemas sustentáveis. Nem uma linha entre uma coisa e outra.

O tema é mais importante do que o superávit primário, do que a taxa de juros Selic (taxa de juros média, definida pelo Conselho de Política Monetária e monitorada pelo Banco Central, que deve incidir sobre os financiamentos diários lastreados por títulos públicos registrados no Sistema Especial de Liquidação e de Custódia), do que a última frase infeliz do presidente da República. É importante demais para ser vinculada a viés político-partidário. Afeta diretamente nossa capacidade futura de gerar riqueza, atacar nossos problemas sociais, reformar nossas instituições. Condiciona todos os principais projetos de construção e recuperação de infra-estrutura, é a encruzilhada da questão energética, define paradigmas de financiamento público, afeta o risco Brasil, ameaça nossa soberania, dificulta a integração do território nacional e limita nossas possibilidades de um dia construir um projeto de nação.

Não pode continuar a ser tratado com trocadilhos por colunistas de fofocas políticas, ou em manchetes grandiloqüentes que nada dizem do fato real, não é pauta para focas, não é apenas assunto para ecochatos – como ainda são chamados os ambientalistas em muitas redações. É o tema central do nosso tempo.

***

Jornalista

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 João Carlos Moura
 Enviado em: 31/05/2005 12:41:46

Nosso ilustre acadêmico toca no assunto superficialmente - fala por falar, para aparecer um pouco -, usa de ironia e mostra que também não sabe abordar o tema Amazônia: "Criticar é fácil", diz o pára-choque do camimhão abarrotado de madeira clandestina em Roraima para ser vendida em São Paulo. Jornalista devia ter mais cultura, isso ele devia falar, porque vemos que jornalistas só lêem jornais, e jornal não é fonte séria para ciência alguma. O caso da Amazônia é para gente que vive esse drama há muito tempo, sendo ou não ecochato ou ecodistante, como está a imprensa que só fica na superfície dos fatos. Nenhum grande jornal em verdade fez um caderno inteiro sobre a Amazônia hoje. Isso sim é fato imperdoável para a imprensa.

 Guilherme Paixão
 Enviado em: 25/05/2005 01:46:23

A imprensa brasileira, com certeza, tem perdido grandes oportunidades para ajudar a conter a maior tragédia da nossa história, porém não o faz, pois sempre vangloriou o principal agente responsável por essa catástrofe, o agronegócio brasileiro. Assim como o governo, que faz vista grossa aos problemas que ocorrem no setor primário da cadeia agroindustrial, a imprensa, movida por pseudo-intelectuais das mais diversas áreas, não dá a merecida e necessária atenção aos problemas de ordem social e econômica que acontecem no cenário agrícola nacional. A agricultura brasileira deu uma pequena amostra da riqueza que pode gerar ao país, porém isso já foi o suficiente para o cômodo e prestativo governo brasileiro ficar satisfeito.

Nossa agricultura pode ser forte, estável, altamente competitiva, ecologicamente correta e socialmente justa, mas para isso precisa de um plano de ação audacioso, e não da submissão a interesses de grandes grupos multinacionais.

Os grupos Monsanto, Syngenta, Bayer, Basf, Dow Agrociences, FMC, entre outras dezenas que existem no agronegócio, escancaram com a boa fé do produtor rural, fazendo com que ele estoure seu custo de produção antes mesmo do plantio de sua lavoura. Lábia, pró-atividade, facilidade de comunicação e disponibilidade para viagens são as características fundamentais exigidas por esses grupos para a contratação do chamado “Representante Técnico de Vendas”. Este, por sua vez tem metas de venda a cumprir, o que faz, tranqüilamente, em acordos maliciosos com cooperativas, associações e revendas.

Este cenário é mantido por maus profissionais, normalmente recém-formados, incentivados por uma grande parcela da sociedade acadêmica que indiscrimina o uso de defensivos agrícolas, sem qualquer conhecimento técnico, interessando-lhes apenas os incentivos às suas pesquisas que consideram “científicas” e de suma importância para a sociedade brasileira.

O investimento em máquinas e implementos agrícolas necessários à lavoura, geralmente são feitos por meio de financiamentos, sendo assim, com uma margem, por unidade de área, cada vez mais espremida pelo custo de produção, o produtor é obrigado a aumentar sua área cultivada se pretende manter-se na atividade, fazendo com que a Floresta Amazônica, assim como o Cerrado, desapareçam.

Selos de qualidade, rastreabilidade de produtos, comprometimento social e ambiental são requisitos primordiais, no que se diz respeito ao mercado internacional de produtos agrícolas. Como então investir nessas “alegorias”, se os mesmos países que exigem estas condições controlam a nossa agricultura de uma forma contrária ao que pregam?

Será que tudo é proposital? Alguém tem de pagar por isso, e esse alguém não é a Amazônia, nem o Cerrado, nem o produtor rural e nem o povo brasileiro, sendo assim o governo tem que agir.

 Marcel Roosevelt
 Enviado em: 27/05/2005 19:21:19
Elogio a análise do Observatorio no tocante ao desmatamento da Amazônia, procurando realmemte informar, para que o leitor comum se mantenha informado e atualizado na questão.

Luciano Martins Costa

luciano@revistaadiante.com.br

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