MANIFESTANTES EXPULSAM REDE GLOBO

Ato de força, antidemocrático

Por Mauro Malin em 14/02/2012 na edição 681

Não se justifica a expulsão de uma equipe da GloboNews de manifestação na Praia de Copacabana, domingo (12/2), em favor de bombeiros e policiais militares grevistas (ver vídeo). É ato de intolerância, antidemocrático.

Os manifestantes queriam repudiar a divulgação no dia 8/2, pelo Jornal Nacional, da Rede Globo, de escutas telefônicas em que o cabo bombeiro Benevenuto Daciolo discute o encaminhamento de protestos no país.

A divulgação teve consequências político-administrativas imediatas. Resultou na prisão de Daciolo, que, seguida de outras prisões de lideranças dos bombeiros e PMs, enfraqueceu o movimento. A Rede Globo não poderia ter nenhuma dúvida a respeito desta provável consequência: favorecer, na disputa, o governo do Estado do Rio. (Mas Daciolo e outros líderes poderiam ter alguma dúvida a respeito da repercussão das ações que discutiam?)

A gravação, autorizada pela Justiça, era notícia, e como tal fazia sentido levá-la a público, embora haja quem conteste esse tipo de divulgação. Em abril de 2008, o procurador regional da República em Brasília Nicolau Dino disse em audiência na Câmara dos Deputados que “deve haver um mecanismo para coibir maus jornalistas e veículos que se valem das escutas sigilosas para angariar pontos no ibope no horário nobre”.

A informação está no site Consultor Jurídico, onde se lê ainda que Dino não propunha a punição do veículo de comunicação, e sim a do responsável pelo vazamento.

O óbvio ocultado

A crítica mais séria que se pode e se deve fazer ao noticiário da greve, em especial na televisão, onde prima a superficialidade, é que ele omite o óbvio.

1)      A insegurança entrou no país para a lista de preocupações prioritárias da população.

2)      Em parte essencial, isso se deve a ações criminosas praticadas por policiais. Ou seja: a realidade das polícias não pode ser ignorada. Ao contrário, precisa ser atentamente estudada.

3)      Exercer atividade policial se tornou muito mais arriscado do que em tempos idos. Esse é notoriamente o caso na Bahia, onde a chegada do narcotráfico, atrás do acréscimo do dinheiro em circulação, provocou nos últimos anos, por exemplo, aumento exponencial na taxa de homicídios intencionais.

4)      A remuneração dos policiais, suas condições de vida, sua situação social reproduzem a brutal desigualdade que é marca registrada da sociedade brasileira.

Tudo isso requer consideração e não pode ser omitido no noticiário. Mas a tendência praticamente inescapável da mídia é simplificar quadros complexos, defini-los em termos de “bons” e “maus”, e, claro, tomar partido dos que considera “bons”: os que, no caso, sustentam a narrativa da lei e da ordem, ainda que a ordem ditada pelos interesses mais poderosos seja injusta e tais interesses não hesitem em infringir a lei para conseguir seus fins.

Cuidar da democracia

Isso dito, voltemos à expulsão da equipe da Rede Globo. Foi ato de força, ou ameaça de uso da força por muitos contra poucos.

Os repórteres e o motorista são profissionais. Foram à rua numa manhã de domingo não para torpedear ou hostilizar um movimento reivindicatório, mas para cumprir uma escala de serviço.

Quando a reportagem vai ao ar, ela divulga o ato. Divulga de modo enviesado? Sim. É o que acontece, de uma maneira ou de outra, em grau maior ou menor, com toda e qualquer narrativa humana. Mas imaginem os manifestantes que a cena tivesse se passado na Síria ou em Cuba. Não haveria viés, porque não haveria notícia. Só boca a boca.

A atitude dos manifestantes intolerantes não traz benefícios para sua causa – não se queixem, mais tarde, se a cobertura se tornar mais crítica, ou mais enviesada. O mesmo espírito corporativo que une soldados une jornalistas, que, por sinal, obedecem a uma estrita disciplina hierarquizada dentro das redações.

Mais importante, impedir que jornalistas façam seu trabalho prejudica a expansão e a consolidação de regras democráticas de solução de conflitos, algo que faz muita falta no Brasil, a despeito de todos os avanços verificados desde 1985.

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 Ricardo Oliveira
 Enviado em: 14/02/2012 12:12:15
Não foi a imprensa que foi impedida de realizar seu trabalho, foi a rede globo. Utilizando-se do jornalismo, e também da mídia, apenas para defender seus interesses políticos e comerciais, a rede globo está colhendo o que plantou. No vi como antidemocrático o protesto, pelo contrário, foi legítimo, espontâneo, democrático consensual. Em um regime democrático o povo tem o direito de fazer greves, o que impede o acesso de pessoas ao trabalho, por ex., questionar a atuação dos poderes, ocupar praças e lutar para preservar e avançar no processo democrático. Pedir, ou exigir, como queira, a saída de uma equipe de jornalistas de uma empresa com histórico de fraudes, crimes e atentados contra a democracia deve ser compreendido pelos setores da imprensa como um aviso de novos tempos, e não o contrário , como deseja o autor.Não é o povo que deve se preocupar, mas sim a imprensa e seus [ ] defensores.
 Mário Lima
 Enviado em: 14/02/2012 13:35:42
Quando a cena foi mostrada pela Record, ela foi dada como um troféu, como se a Rede Globo merecesse aquele ato, porque a cena foi reproduzida por várias vezes. Muitos espectadores aplaudiram, por achar que a globo mete o nariz onde não deve, só que esquecem que, como dito, o profissional está ali pra cumprir o exigido, não para delatar quem quer que seja. Para mim foi um ato irresponsável.
 André Dantas
 Enviado em: 14/02/2012 13:44:46
Nenhum jornalista foi impedido de fazer "seu" trabalho. Prepostos de uma organização política (Rede Globo) foram impedidos de fazerem o trabalho que seu empregador ordenou, até porque esses "jornalistas" não tem opinião própria, sequer tem estilo próprio, devendo-se ater à doutrina das suas chefias. Diferentemente do que alega o jornalista em Cuba ou na Síria existe notícia, apesar da notícia ter um "viés" que o agrade. Cabe ao povo cubano ou sírio, se quiser, manifestar-se contra o "viés" do jornalismo praticado em seus país, assim como cabe á nós brasileiros nos manifestarmos contra o "viés" do jornalismo praticado aqui.
 Renata Costa
 Enviado em: 14/02/2012 13:57:23
Não concordo com o artigo. Porque um grupo de pessoas não teria o direito de protestar contra uma emissora de televisão? Os jornalistas estavam fazendo o trabalho deles? desde quando o trabalho do jornalista é divulgar informações enviesadas e parciais? quer dizer que não se pode protestar contra um certo tipo de imprensa? Há, mas o protesto não foi adequado... Ora, será que havia uma outra maneira de protestar? a Globo daria o direito de resposta aos policiais?? claro que não. Então, no fundo, o que se pede é o silêncio e a passividade, em nome da "liberdade de imprensa".
 Edno Lima
 Enviado em: 14/02/2012 17:30:50
A Globo ao divulgar as gravações, que diga-se de passagem, não tinham nada de mais, pois numa delas, a da Bahia, um dos líderes do movimento faz um blefe; no outro,o bombeiro carioca traça junto a deputados, uma estratégia para a votação da PEC em segundo turno e para a deflagração da greve.PT e PMDB usaram a audiência da Globo para jogar a população contra o movimento e criar um clima propício para para as prisões! A globo pagou por servir aos cães do PT e PMDB.
 Marcus Pessoa
 Enviado em: 16/02/2012 07:27:18
Acho incríveis esses comentários favoráveis ao cerceamento da atividade da imprensa. Acho incrível que essas pessoas sejam leitoras do Observatório, que é um site de defesa da liberdade de expressão e de informação. E o mais curioso é alguém dizer que não, um jornal não deveria publicar uma informação exclusiva.
 Juliana O.
 Enviado em: 16/02/2012 11:03:55
Parabéns pelo artigo. E é uma pena que alguns não o tenham entendido e que, ao tentarem defender o direito à informação, só colaboram com o cerceiamento deste.
 Andrei Mendes
 Enviado em: 16/02/2012 12:52:56
A rede globo foi porta voz da ditadura, e nos manda recados dessa "democracia" atual, entao nao vejo nada de antidemocratico numa manifestacao contra essa entidade politicamente mal intencionada e com interesses bem duvidosos...a manifestacao foi contra a entidade e nao contra os profissionais da emissora, mas eles sabem q o trabalho deles seguem diretrizes para a nanuntencao do status quo, cada um veste a camisa q quer, entao assuma o risco pq um dia a populacao ha de se voltar contra um dos canceres do nosso pais q eh a globo!
 Victor Gadelha
 Enviado em: 18/02/2012 21:03:55
Sindicato serve pra quê? Eu reporter expulso pelo povo pediria gratificação, ou o devido,para a empresa. O povo não repugna a toa e a mão de obra paga a conta?

Mauro Malin

mmalin@amcham.com.br

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