OI NA TV : 2011 => 2012

Conexões do ontem, hoje e amanhã

Por Lilia Diniz em 29/12/2011 na edição 674

O Observatório da Imprensa na TV dedicou pela quarta vez consecutiva a última edição da temporadaa um misto de balanço do ano que acaba com projeções para o que está por vir. Mais que uma simples retrospectiva dos fatos marcantes do ano, o programa exibido pela TV Brasil na terça-feira (27/12) tratou dos temas que foram importantes para a mídia em 2011, incluindo aqueles em que a própria imprensa foi a notícia, e fez um exercício informal de futurologia.

Este ano, o time habitual de debatedores teve uma modificação. O jornalista Claudio Bojunga e o economista Sérgio Besserman Vianna receberam o escritor Affonso Romano de Sant'Anna em substituição ao cientista político Renato Lessa. Affonso Romano é poeta, ensaísta e cronista. Dirigiu a Biblioteca Nacional e publicou mais de 50 livros.

Bojunga é formado em Direito e estudou Política Internacional no Instituto de Estudos Políticos de Paris. Foi repórter, redator, editorialista, crítico e correspondente internacional. Besserman preside a Câmara Técnica de Desenvolvimento Sustentável da Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro. Professor de Economia, estuda as consequências econômicas e sociais da mudança climática. Foi diretor de Planejamento do BNDES, presidente do IBGE e do Instituto Pereira Passos.

História em várias etapas

Em editorial, Alberto Dines sublinhou que o fascínio do Jornalismo está na capacidade de oferecer visões simultâneas e encadear os fatos: “Uma verdadeira máquina do tempo que pode ser acessada em qualquer momento. As manchetes de hoje falam sobre a crise do euro mas, para entendê-la, somos obrigados a remontar as primeiras iniciativas para uma federação europeia, seis anos depois da Segunda Guerra Mundial”, exemplificou Dines [ver íntegra abaixo]. O jornalista comentou que temas como a crise financeira iniciada em 2008 e a Primavera Árabe terão desdobramentos ao longo dos próximos anos.

No debate ao vivo, Dines comparou a conjuntura deste final de ano com a do fim de 2010 e comentou que “as cartas são praticamente as mesmas, alguns jogadores entram, outros saem”. Dines pediu aos participantes uma análise do primeiro ano do governo da presidente Dilma Rousseff com base nas projeções feitas no final de 2010.

Para Sérgio Besserman, foi surpreendente a postura da presidente diante das denúncias de corrupção que derrubaram seis ministros. “Isso gerou uma imagem da presidente que nós não poderíamos ter esperado. Há uma percepção da opinião pública – e eu acho que é consistente com a realidade – de algo um pouco maior de que uma simples reação a fatos, mas uma postura que indica uma mudança – e uma mudança esperada em direção da organização da sociedade”.

Corrupção endêmica

A corrupção no Brasil, na avaliação de Claudio Bojunga, não mais é apenas um escândalo moral. É historicamente disfuncional. “Ela tem uma versão política e não moralista. Ela deslegitima a política, afasta o jovem e lesa a economia”, lamentou Bojunga. Uma vez que o Brasil mudou de patamar em direção à meritocracia, não é mais admissível olhar com naturalidade para os desvios de conduta envolvendo dinheiro público. Bojunga concorda que a postura da presidente Dilma diante dos casos de corrupção tem sido boa, mas ponderou que falta punição para os desvios éticos. Para o jornalista, a presidente é recatada, porém firme nas decisões.

Besserman destacou que a crise financeira de 2008 – que dominou o debate no programa do final daquele ano – ainda causa danos à economia internacional, sobretudo na Europa, e refletirá no Brasil. “Trata-se de um processo histórico duradouro, há muitas aventuras pela frente, é a onda que o Brasil vai ter que surfar”, advertiu o economista. O desequilíbrio dos fundamentos macroeconômicos que levou à crise permanece sem solução e trará para os próximos três anos do governo Dilma uma perspectiva inesperada.

Para Affonso Romano, a própria presidente deve estar espantada com os rumos do primeiro ano de seu governo. “Se você pegar a imagem dela como candidata e a prática como presidente, ela se surpreende e a gente se surpreende”, disse. Por meio da leitura de jornais, na avaliação do escritor, é possível constatar que há uma grande quantidade de eleitores que votaram em outros candidatos, mas torcem para que este seja um bom governo. Ele acredita que somente depois deste período inicial, sobretudo após a reforma ministerial prevista para janeiro, a presidente Dilma poderá assumir a sua verdadeira fisionomia.

Crise que não acaba

Sérgio Besserman explicou que o que explodiu em 2008 foi o superconsumo dos norte-americanos nos últimos vinte anos e não a bolha imobiliária. Neste contexto, é preciso observar o desequilíbrio nas relações comerciais entre países-chave – como, por exemplo, Estados Unidos e China, ou Alemanha e Grécia. O economista comentou que a ideia de que não haveria mais crises internacionais por conta da sintonia fina entre os bancos centrais chegou se disseminar em vários países, mas “ruiu como um castelo de cartas”.

Os termos para designar os efeitos da crise, de acordo com Besserman, podem ser diferentes – desalavancagem ou perda de capitais, por exemplo –, mas os perdedores são incontáveis. Dines comentou que a crise financeira é um terreno fértil para o ressurgimento de movimentos de caráter fascista. Bojunga complentou dizendo que, além da xenofobia explícita, há o crescimento de partidos de extrema direita. Para os convidados do programa, sintomas como esses são o lado mais sombrio de crise e precisam ser estudados com atenção.

A questão da velocidade no mundo contemporâneo foi levantada por Affonso Romano: “O que a gente observa o tempo todo com a questão da internet, da notícia, é a velocidade. Para você ser jornalista hoje em dia, ser comentarista do que está acontecendo, tem que ter dezessete ouvidos e mãos”, disse o escritor. Além disso, é necessário uma grande capacidade de síntese dos fatos.

Novas figuras no cenário

Na pós-modernidade, foram extintos os conceitos milenares de centro e de periferia, de certo e de errado, que orientaram gerações. E vários exemplos dessa distensão podem ser vistos nos Estados Unidos, onde, nos últimos dez anos, assumiram os cargos mais altos do poder figuras antes excluídas do processo político: negros, mulheres, operários, padres. “Está tudo modificado em termos de cores e partidos. E, de repente, nós descobrimos o Oriente Médio. De repente, descobrimos as ruas”, avaliou Affonso Romano. As categorias estão mudando de forma tão veloz que é impossível analisar o que aconteceu há poucos dias.

Dines relembrou que no programa exibido ao final de 2010 a publicação de dados confidenciais vazados pela Wikileaks foi discutida com grande destaque, mas a questão acabou esfriando ao longo do ano: “Deixou o mundo todo atônito e aprendemos a conviver com isso, o mundo não acabou”. O jornalista comentou que, no campo da mídia, o assunto mais importante do ano foram os escândalos envolvendo a imprensa sensacionalista inglesa.

O desafio para a imprensa do futuro é mais complexo do que a questão de formato dos jornais ou plataformas de informação, na avaliação de Sergio Besserman. “Estamos frente a uma história em aberto. Há diversas crises profundas, perspectivas de mudanças revolucionárias em nossa forma de compreender o mundo. Então, o que se exige da mídia para que possa acompanhar os acontecimentos sem superficialidade é uma profundidade muito maior em um mundo que parecia que caminhava para ser muito mais raso. Se exige da mídia uma visão mais ampla, completa e profunda”, disse Besserman.

Mídia e espetáculo

Affonso Romano criticou o caráter “espetaculoso” da mídia, sobretudo no campo cultural. O conteúdo publicado pela imprensa deveria ser uma “meditação” sobre o espetáculo, e não uma continuidade dele. “Quanto mais espetaculoso você for, mais superficial”, disse o escritor. Bojunga concordou com Romano, mas ponderou que este ano a atuação da imprensa foi positiva em diversos aspectos.

Alguns exemplos são a série de denúncias contra o magnata das comunicações Rupert Murdoch e a derrubada de ditaduras no mundo árabe. “O público não pode se deixar anestesiar por esse lado espetaculoso e extremamente superficial que põe tudo no mesmo saco. É um concurso de miss ao lado da crise no Irã, não é possível isso”, criticou Bojunga.

O mesmo desafio do mundo virtual que se apresenta para os jovens está colocado para a mídia, na opinião de Sérgio Besserman: “O desafio de tentar entender por uma visão de mundo ou outra – não precisa ser de esquerda ou direita – e de ir mais fundo ainda não aparece para a melhor mídia”. De sua parte, Affonso Romano sublinhou que os meios de comunicação reservam um espaço cada vez maior para a ciência.

“A ciência entrou para o cotidiano do indivíduo. Nós aqui temos que tomar conhecimento da história dos neutrinos. E isso muda a vida de um cidadão em Paracatu”, analisou o escritor. Sérgio Besserman chamou a atenção para o fato de que veículos importantes passaram a dar menos destaque para os temas da área de ciência, principalmente os jornais paulistas.

Impacto ambiental

Dines levou o assunto para o campo do desenvolvimento sustentável e lembrou que no final do ano passado o tema estava em alta por conta da candidatura da ambientalista Marina Silva à Presidência da República. Em 2011, o fracasso das negociações internacionais em torno do tema levou a um clima de pessimismo. “A humanidade se deu conta de que não existe almoço grátis e a conta foi colocada em cima da mesa. E o garçom chato que diz ‘está aqui a conta, tem que pagar!’ é a ciência”, comparou Besserman. O economista sublinhou que a linguagem da mídia é diferente da adotada pela ciência e que há uma tensão natural neste caso.

O impacto para a mídia da ascensão de novos consumidores também foi discutida no programa. Para Affonso Romano, a mídia descobriu esses consumidores e está baixando o nível de seus produtos para alcançar novos leitores, telespectadores e ouvintes. “A imprensa está tendo que enfrentar hoje uma situação ambígua muito interessante e rica. De um lado, tem que atingir este público novo que está emergindo. Por outro lado, o Brasil está deixando de ser adolescente para virar um país adulto que vai ter que conversar nas grandes rodas internacionais, vai ser a quinta economia do mundo. Então, o jornalista tem que deixar de ser provinciano”, alertou Romano.

Assista às outras edições de balanço do OI na TV:

** 2008

** 2009

** 2010

 

Balanço 2010 / Perspectivas 2012

Alberto Dines # editorial do programa Observatório da Imprensa na TV exibido em 27/12/2011

Bem-vindos ao Observatório da Imprensa.

O que se pode dizer sobre 2011 é que foi um ano sem fim de ano. Esta continuidade não é nova. O calendário é uma mera convenção, dezembro e janeiro são contíguos, encadeados, mas raras vezes evidenciaram-se como agora as conexões entre a história de hoje e a de ontem, e esta com a de amanhã.

O fascínio do Jornalismo reside justamente na sua capacidade de oferecer visões simultâneas, verdadeira máquina do tempo que pode ser acessada em qualquer momento: as manchetes de hoje falam sobre a crise do euro, mas para entendê-la somos obrigados a remontar às primeiras iniciativas para uma federação europeia, seis anos depois do fim da Segunda Guerra Mundial. A crise financeira começou em 2008 e seus efeitos certamente continuarão ao longo desta década. A primavera árabe já está no inverno e não ficará nisso.

A quarta edição deste caderno anual de reflexões não terá a participação do cientista político Renato Lessa, mas conta com a presença do poeta e crítico literário Affonso Romano de Sant'Anna, ao lado do economista e ambientalista Sérgio Besserman e do jornalista e escritor Claudio Bojunga.

***

[Lilia Diniz é jornalista]

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