MÍDIA, DEMÓSTENES & CACHOEIRA

Escândalos dentro de escândalos

Por Luciano Martins Costa em 10/05/2012 na edição 693

Comentário para o programa radiofônico do OI, 10/5/2012

 

O noticiário sobre o escândalo que tem como protagonistas principais o senador Demóstenes Torres e o “empresário” de jogos viciados Carlos Augusto de Almeida Ramos, conhecido como “Carlinhos Cachoeira”, começa a derivar perigosamente para uma queda de braço entre a chamada grande imprensa e alguns representantes do Partido dos Trabalhadores.

Nas primeiras páginas de quinta-feira (10/5), os principais jornais do país apostam numa disputa entre o procurador-geral da República, Roberto Gurgel, e os réus do processo conhecido como “mensalão”, como pano de fundo das ações de parlamentares na investigação do caso Cachoeira.

Trata-se de uma situação inusitada e com potencial para desfechos surpreendentes. Ao acusar o procurador-geral de se haver omitido em 2009, quando Carlos Cachoeira foi citado em uma operação da Polícia Federal na qual já apareciam sinais do envolvimento de políticos, alguns parlamentares estariam, segundo Gurgel, tentando reduzir as responsabilidades dos acusados no caso “mensalão”.

Papel da imprensa

Se demonstrado que o procurador prevaricou numa das etapas do processo que transforma em corréus o senador Demóstenes Torres e o bicheiro Cachoeira, a acusação ficaria enfraquecida também no caso “mensalão”.

Esse é o raciocínio que a imprensa oferece aos seus leitores. Mas há outra hipótese em construção nos bastidores do caso: o que os representantes do partido governista querem demonstrar é que tudo estaria intrincadamente misturado, ou seja, não há um caso “mensalão”, mas uma grande conspiração cujo principal articulador e financiador seria o bicheiro Carlos Cachoeira.

O ponto de partida seria o escândalo original do “mensalão”, no qual um assessor do então ministro José Dirceu, Waldomiro Diniz, foi apanhado cobrando propina do bicheiro. A gravação da cena, que foi parar em mãos de um editor da revista Veja, e daí para o resto da imprensa, teria sido uma “armação” do bicheiro já em conluio com Demóstenes Torres.

A partir daí teria sido montado o enredo conhecido como “mensalão”, ou uma suposta rede de pagamento mensal de propinas para estimular os votos favoráveis de parlamentares em questões de interesse do governo.

Essa tese provoca tensões no Supremo Tribunal Federal, onde alguns ministros deixam escapar certo desânimo com relação ao conjunto de provas contra os principais acusados do “mensalão”. Por outro lado, o procurador-geral da República insiste que as provas são consistentes e que esse seria o motivo dos ataques que vem sofrendo por parte de representantes da base aliada no Congresso.

No meio de tudo isso é preciso observar o papel da imprensa, que há muito tempo deixou de ser uma espectadora isenta e se transformou também em parte do processo.

Fonte privilegiada

Inicialmente, a mídia jogou o papel de porta-voz dos acusadores no caso “mensalão”, ampliando e dirigindo os debates públicos de modo a consolidar a interpretação geral de que houve um esquema de compra de votos no governo anterior.

Mas agora, com a revelação de relações suspeitas entre o bicheiro Carlos Cachoeira e um diretor de Veja – marcando o ponto exato de onde saíram quase todas as denúncias contra integrantes do governo e da bancada governista nos últimos seis anos – a imprensa á lançada no meio do escândalo. Não mais como observadora, mas como protagonista.

Na quinta-feira, dia 10, os jornais informam que houve um refluxo no ímpeto inicial de alguns parlamentares de convocar jornalistas para explicar suas relações com o bicheiro. Segundo os diários, o gabinete da Presidência da República ordenou cautela e recomendou que seja evitada a convocação de representantes da imprensa à Comissão Parlamentar de Inquérito sobre o caso Demóstenes-Cachoeira.

No entanto, segundo declarações reproduzidas pelos jornais, se houve mesmo mais de duzentas conversações gravadas entre o diretor de Veja em Brasília e integrantes do esquema do bicheiro, não haverá como evitar a convocação do jornalista.

Alguns parlamentares querem interrogar não apenas o diretor da sucursal da revista na capital federal, mas o próprio dono da Editora Abril, Roberto Civita, inimigo declarado do governo desde o primeiro mandato de Lula da Silva, quando sua empresa perdeu contratos para o fornecimento de livros didáticos para escolas públicas – segundo já foi divulgado pela imprensa.

Ao governo não parece interessar essa briga. Mas bem que a sociedade merece um esclarecimento sobre essa relação privilegiada entre a revista e o bicheiro, principalmente porque absoluta

mente tudo que o chefe da quadrilha “soprou” para Veja foi reproduzido pelo resto da imprensa sem reservas.

Leia também

A evolução dos escândalos – L.M.C.

A imprensa e o bicheiro – L.M.C.

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 Dante Caleffi
 Enviado em: 10/05/2012 10:15:06
Waldomiro Diniz,filmado negociando concessão de bingo ou loterias,e pedindo contribuição para a campanha eleitoral de Rosinha Garotinho, aconteceu quando ocupava o cargo de Presidente da LOTERJ ,em 2002. Louve-se a ação kamikase do bicheiro. Sabia o que estava fazendo quando se autodenunciou. O "custo benefício " da ação foi amplamente compensador, como se viu nos desdobramentos posteriores.
 Maria do Rocio Macedo
 Enviado em: 10/05/2012 16:02:19
Já está passando da hora de ARRANCAR a máscara dessa mídia! Realmente, a sociedade brasileira - principalmente os que não têm poder de análise mais aguçada - saber de verdades e partir para o boicote sistemático, dessa mídia! Será que isso vai ser possível? tenho esperanças que, SIM!
 José Antonio Meira da Rocha
 Enviado em: 10/05/2012 21:21:35
"O ponto de partida seria o escândalo original do “mensalão”, no qual um assessor do então ministro José Dirceu, Waldomiro Diniz, foi apanhado cobrando propina do bicheiro. A gravação da cena, que foi parar em mãos de um editor da revista Veja, e daí para o resto da imprensa, teria sido uma “armação” do bicheiro já em conluio com Demóstenes Torres." Bem lembrado, Caleffi! Olha só o que faz a mediazona: embaralha tanto os fatos, que até jornalistas insuspeitos como Luciano Martins Costa se atrapalha. Colocar "Waldomiro Diniz" e "Zé Dirceu" na mesma frase com "cobrança de propina" não é mentira, mas é estelionato jornalístico. É esconder que a cobrança de propina NÃO FOI FEITA quando Diniz era funcionário da Casa Civil.
 Paulo Fernandes
 Enviado em: 12/05/2012 15:37:21
Eu não entendo a lógica do "ou um ou outro". Parece que se for julgar o caso do "mensalão" não se julgará o caso "Cachoeira". E vice-versa. Parece que se os acusados no mensalão forem condenados, não precisaremos apurar se houve crime na relação da Veja com o crime organizado. Tem que apurar, julgar e condenar (se forem culpados) todos os suspeitos e envolvidos. E quem vai fazer isso, em última instância, é a justiça. Essa indignação seletiva (de ambos os lados) é absurda. Crime é crime. O resto é blá-blá-blá.
 MAX SUEL
 Enviado em: 12/05/2012 16:54:36
O Sr. Calefi entra no seu inferno de dante ... não, o Waldomiro 1% Diniz pedia dinheiro para a campanha da petista Benedita da Silva.
 Jose der Almeida Bispo
 Enviado em: 12/05/2012 20:56:54
" e daí para o resto da imprensa, teria sido uma “armação” do bicheiro " NÃO! Não foi daí pra frente; a cena do Waldomiro já era parte da armação com vistas a dar um golpe, fazer o impeachment em Lula como vingança pela "petulância" de amedrontar os ladrões ricos, sonegadores de impostos, principalmente. O recuo de FHC em apenas "fazer Lula sangrar", e não em subscrever a loucura golpista da neo-UDN, bem como as advertências de Aécio "Lula não é Collor" foi porque perceberam a gravidade da situação: a mídia neo-udenista e seus prepostos na oposição negociaram com um bandido pra derrubar o presidente da República usando o que a direita tão bem sabe manejar: as acusações de corrupção. Foi tudo orquestrado, magistralmente conduzido pela central midiática, trincheira principal do golpismo.
 Ibsen Marques
 Enviado em: 12/05/2012 23:03:30
Incrível como nem diante do caso Veja a questão da regulação entra em pauta. Melhor manter uma imprensa criminosa do que imputar-lhe as responsabilidades constitucionais. Também achei engraçada a "tensão no Supremo", desânimo diante da falta de provas sim, mas tensãos? Será que a acusação só está fundada em artigos da Veja, posteriormente replicados em outros veículos insuspeitos?
 Ricardo Couto
 Enviado em: 14/05/2012 11:54:40
Luciano, acredito que tanto o Civita ("inimigo declarado do governo desde o primeiro mandato de Lula da Silva") , quanto Mino Carta (Apoiador declarado do governo Lula) têm obrigaçõe de dar informações e se elas forem falsas (como parece que não são) aí agirmos dentro da lei. Porém desqualificar algum desses jornalistas e seus veículos de comunicação não vai eliminar os fatos. Houve mensalão, e os protagonistas estão no alto escalão do PT! Houve envolvimento do Cachoeira com Demostenes e com diversos politicos das mais diversos partidos (ele foi mais democrático neste caso). Não podemos é tapar o sol com a peneira ou tentar esconder fatos ilegais desqualificando as fontes, ou acusalos de serem contrarios ao governo. Estamos numa sociedade democrática onde podemos ter nossas opiniõs, e elas podem ser divergentes do governo que está no poder. Em tempo, a informação sobre a perda de contrato para o fornecimento dos livros didáticos está errada! Existe a tempos um programa de compra de livros (PNLD) onde as esdcolas fazem a escolha dos livros, através de uma lista de livros pré selecionados por acadêmicos escolhidos pelo MEC, portanto não existe um contrato com uma ou outra editora. É o processo mais democratico de escola e compra deste governo.
 Sonia Montenegro
 Enviado em: 16/05/2012 23:55:07
A denúncia de uma tentativa de derrubar o governo Lula não partiu de nenhum petista, mas do Ernani José de Paula, ex-prefeito de Anápolis (GO) e ex-aliado do Cachoeira, que falou pra quem quisesse ouvir que o vídeo do Maurício Marinho, que foi veiculado incasavelmente pela mídia nativa, foi feito a mando do Cachoeira, e o objetivo dele e do Demóstenes Torres era derrubar o Lula. Isso não isenta o PT da responsabilidade de ter feito caixa-2, mas a “grande” mídia brasileira não podia deixar barato, porque sabe perfeitamente que TODOS os partidos fazem caixa-2, e diversos políticos já confessaram, como o Arthur Virgílio, por exemplo. O que me espanta é a indignação seletiva desta mídia, porque todo o Brasil sabe que o FHC comprou parlamentares a R$200 mil cada, valor da época, para votarem a favor da emenda da reeleição, e não houve, diante deste fato, nem uma fração do escândalo que a mídia produziu contra o PT. E o Dines,o Maurício Azêdo e a Maria Cristina Fernandes acham que jornalistas não podem ser chamados por uma CPI. Certamente, estão acima da LEI!!!

Luciano Martins Costa

luciano@revistaadiante.com.br

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