PSICOLOGIA SOCIAL

Falta de ética no andar de cima

Por Luciano Martins Costa em 29/02/2012 na edição 683

Comentário para o programa radiofônico do OI, 29/2/2012

 

Reportagem publicada pela editoria de Ciência na edição de quarta-feira (29/2) da Folha de S.Paulo informa que um estudo conduzido por psicólogos na Universidade da Califórnia em Berkeley concluiu que indivíduos com status social elevado têm maior probabilidade de se tornarem menos éticos.

O trabalho, baseado na observação do comportamento de grupos de pessoas diante de situações rotineiras – quando se oferece, por exemplo, a oportunidade de levar vantagem ou obter mais do que os demais –, mostrou que aqueles que se consideram integrantes das camadas mais altas da sociedade tendem a ultrapassar a barreira do eticamente aceitável, comumente movidos pela cobiça.

O resultado da série de sete experimentos foi publicado na edição eletrônica da revista PNAS, ligada à Academia Nacional de Ciências dos Estados Unidos, e indica que pessoas da chamada elite social se comportam com menos ética do que indivíduos das classes consideradas menos favorecidas.

Novas classes médias

Os comportamentos analisados incluem se apropriar de bens alheios, falsear informações a seu favor, trapacear para aumentar suas chances numa disputa, mentir durante negociações e apoiar comportamentos semelhantes no trabalho ou nos negócios.

Os mais ricos também apresentam uma tendência a minimizar as necessidades alheias ao mesmo tempo em que aceitam como normais suas próprias ambições.

Uma pesquisadora brasileira especializada em evolução do comportamento humano, consultada pela Folha, se declarou “abismada” com os estudos da equipe liderada pelo psicólogo Paul Piff, que deve completar em maio seu PhD em Psicologia Social.

Piff tem se dedicado a estudos sobre a psicologia das classes sociais pela observação em ambientes naturais e experimentos controlados em laboratório. Em suas conclusões, ele toma cuidado para não produzir uma condenação generalizada dos ricos e o consequente endeusamento dos mais pobres, mas o resultado dá o que pensar, principalmente porque há um importante componente de autopercepção como elite entre os indivíduos que se comportam com menos ética.

Uma das questões que a reportagem pode suscitar, por exemplo, é o comportamento de indivíduos que, em todo o mundo, parecem contar com maior impunidade quanto mais alto seu status social.

Num país como o Brasil, onde um grande contingente de cidadãos passa pelo processo de ascensão social, vindo a integrar as chamadas novas classes médias, é possível observar quanto dessa percepção de status pode vir a produzir comportamentos menos éticos até mesmo entre aqueles que estão longe de serem considerados ricos.

De olho nas elites

O estudo reportado pela Folha e o resumo disponível no site da PNAS indicam que a percepção de status privilegiado tem influência nesse tipo de comportamento; portanto, é legítimo supor a possibilidade de que a disposição para “levar vantagem” esteja ligada a uma sensação de diferenciação em relação aos demais.

Por outro lado, o estudo pode fornecer elementos interessantes para a análise do comportamento das elites econômicas e políticas, que parecem não se importar com os mais essenciais requisitos para a convivência social.

A cobiça desenfreada, identificada como ponto de impulsão desse tipo de comportamento, também está presente, por exemplo, nas ações de empresários e investidores milionários que não conseguem seguir as normas gerais e passam a vida entre os cadernos de negócios e as páginas policiais. Da mesma forma, é possível fazer uma comparação com os grupos privilegiados dentro de instituições específicas, como o poder Judiciário.

Ainda nas edições de quarta-feira, os principais jornais do país dão espaço para nova manifestação da corregedora nacional do Conselho Nacional de Justiça, Eliana Calmon, sobre comportamentos não éticos entre magistrados. Durante audiência pública na Comissão de Constituição e Justiça do Senado, a corregedora declarou que os juízes decentes não podem ser confundidos com “a meia dúzia de vagabundos infiltrados na magistratura”.

Ela levantou um aspecto típico das dificuldades em julgar desembargadores, juízes de segundo grau, ao afirmar que eles costumam ser simpáticos e sociáveis – o que acaba inibindo a ação dos magistrados honestos. Ao se referir a uma “crise ética” que, na sua opinião, estaria afetando a magistratura, a corregedora toca, de alguma forma, no tema da pesquisa publicada pela Folha.

Os jornais de quarta-feira induzem o Brasil a pensar se não seria o caso de vigiar melhor suas elites.

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 Thales Arcoverde Treiger
 Enviado em: 29/02/2012 11:37:02
Oprimido opressor...
 José Albino
 Enviado em: 29/02/2012 14:48:17
Esse Luciano, nunca perdendo a oportunidade de trazer um tema polêmico! E não é mesmo? E a pesquisa de Paul Piff, traz algo de novo? Um pobre qualquer consegue corromper os responsáveis pelas fronteiras do país para trazer toneladas de caríssimas armas e munições aos morros do Rio? E quanto às toneladas de caríssimas drogas, pobre consegue trazer, atravessando as fronteiras livremente? Tráfico é coisa de pobre? Toneladas de drogas são coisas de pobre? Contrabandistas pobres conseguiriam atravessar suas merrecas de produtos sem fiscalização, pelas fronteiras? Ou seriam apenas as grandes cargas de contrabando que atravessariam ilesas? Pobre consegue burlar o fisco? Pobre consegue levar pedras preciosas e minérios ao exterior ilegalmente? Pobre consegue participar de licitações fraudulentas? Pobre consegue montar loja de roupas importadas e burlar o fisco, com notas frias? E ainda depois sair como herói, no estilo “gente que faz”? Você conhece algum pobre que grilou terras no Pará? Ou no Pontal do Paranapanema? Pobre consegue furar fila de transplante de órgãos? Pobre fala:”Você sabe com quem está falando?”? Esse Paul Piff, com o devido respeito, deveria ser mais conhecido como Colombo. E mesmo assim concluiu seu trabalho com pelo menos dois mil anos de atraso.
 OSVALDO LUIZ DOS SANTOS
 Enviado em: 02/03/2012 15:30:17
É verdade. Tem muita "gente fina" que dá rasteira em cobra e desata nó em pingo d'àgua.
 Magá de Andréa
 Enviado em: 03/03/2012 10:19:32
Ótimo texto. Em 1969 foi publicada no Brasil a tradução d'A Nova Classe Média de Wright Mills, pesquisador da Columbia University que ousou ser marxista e estudar esse tema tão hostilizado na sociologia - a psicologia das classes médias. Hoje proclam-se uma 'nova classe média' e me pergunto no que será tão nova em termos de psicologia social em relação aos estudos de Mills? É certo que a intensa modernização dos meios técnicos-informacionais alterou intens e substantivamente a configuração dos estratos sociais médios, mas terá alterado seu imaginário, sua arraigada conduta conservadora assim que consegue alguma ascenção social?
 José de Almeida Bispo
 Enviado em: 03/03/2012 12:48:04
Bem, como o Albino, antes de mim disse tudo, vou ser bem sucinto; apenas dizer que compactuo cem por cento com a filosofia popular expressa pelo forrozeiro Genival Lacerda: "Nunca vi rico sem 'robar'" (In Mangará, de Luiz Ramalho, LP Não despreze seu coroa, Copacabana discos, 1979)
 CLAUDIO MOTA
 Enviado em: 02/04/2012 09:19:40
O resultado do estudo conduzido pelos psicólogos da Universidade da California, ora discutido, pela Folha de São Paulo, confirma uma resposta vivenciada pelos brasileiros, já há bastante tempo. São muitos os escandalos publicados em nossos jornais e mídia de imagens do nosso país, sobre a falta de ética, dos que se "dizem" mais ricos, uma riqueza de maldade para com as pessoas que vivem eticamente correta e são obrigadas a conviver com "ladrões" que se aproveitam através de situações ilícitas, para ganhar em prol de benefício próprio, passando por cima dos seus semelhantes vivendo honestamente. Nós precisamos limpar essa imagen negativa, publicando mais resultados com esse nível de informação, para tocar nos corações dessa gente ruim, que massacra uma minória que é prejudica por essa acumulação de bens imorais.
 CLAUDIO MOTA
 Enviado em: 02/04/2012 09:23:52
O resultado do estudo conduzido pelos psicólogos da Universidade da California, ora discutido, pela Folha de São Paulo, confirma uma resposta vivenciada pelos brasileiros, já há bastante tempo. São muitos os escandalos publicados em nossos jornais e mídia de imagens do nosso país, sobre a falta de ética, dos que se "dizem" mais ricos, uma riqueza de maldade para com as pessoas que vivem eticamente correta e são obrigadas a conviver com "ladrões" que se aproveitam através de situações ilícitas, para ganhar em prol de benefício próprio, passando por cima dos seus semelhantes vivendo honestamente. Nós precisamos limpar essa imagen negativa, publicando mais resultados com esse nível de informação, para tocar nos corações dessa gente ruim, que massacra uma minória que é prejudica por essa acumulação de bens imorais.

Luciano Martins Costa

luciano@revistaadiante.com.br

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