CASO VALERIE PLAME

Novas confissões, dúvidas antigas

Por Edição de Leticia Nunes (com Dennis Barbosa e Larriza Thurler) em 18/07/2005 na edição 338

O assessor de George W. Bush, Karl Rove, disse aos investigadores do caso Valerie Plame que conversou sobre o assunto com o colunista conservador Robert Novak em julho de 2003, antes que ele escrevesse a coluna em que revela que ela era uma espiã. O processo visa descobrir se o governo americano entregou deliberadamente a identidade da agente da CIA à imprensa.

Valerie é mulher do ex-diplomata Joseph Wilson, que em 2002 foi enviado à África para investigar a suposta compra de combustível nuclear por Saddam Hussein. Wilson concluiu que não havia indícios de que o ditador teria tentado comprar esse material, e expôs sua opinião num artigo de jornal em que criticava a política externa da Casa Branca – que, naquela época, tentava convencer a opinião pública americana da necessidade de invadir o Iraque. Pouco tempo após a publicação do artigo de Wilson, saiu na coluna de Novak, reproduzida por diversos diários, a informação de que o ex-diplomata fora indicado para o trabalho na África por sua mulher, Valerie Plame, e não pelo vice-presidente Dick Cheney, como o ex-diplomata afirmava.

Novak teria obtido a informação sobre Valerie de uma primeira fonte e, em seguida, teria consultado Rove a respeito, ao que ele teria respondido: "Eu ouvi dizer isto também". O assessor, no entanto, afirma que, naquela época, sequer sabia o nome da espiã – o colunista lhe teria informado, segundo nota da AP [15/7/05]. A primeira fonte a respeito, que Novak afirma ser outro funcionário do governo, segue anônima. O presidente da divisão americana da CNN, Jonathan Klein, afirmou que Novak continuará como colaborador da empresa, pelo menos enquanto as investigações estiverem sendo conduzidas, e o classificou como "um dos jornalistas políticos mais notáveis dos EUA", informa Lisa de Moraes, do Washington Post [18/7/05].

Reportagem de Josh White para o Post [11/7/05] explica que, antes de falar com Novak, Rove também falou sobre a agente com o repórter da revista Time, Matthew Cooper. Na conversa com este jornalista, o assessor teria alertado que as afirmações de Wilson poderiam não ser confiáveis e teria mencionado que a mulher do ex-diplomata "aparentemente" trabalhava para a agência de Inteligência. De acordo com Cooper, Rove teria lhe dito por telefone que a mulher do ex-diplomata – sem dizer especificamente o nome dela – trabalhava para a CIA no departamento de armas de destruição em massa, e que teria terminado o telefonema dizendo que "já teria falado demais", reporta a MNSBC [18/7/05]. Em artigo na Time, Cooper revela que Rove também afirmou que o nome de Valerie seria revelado caso houvesse dúvida sobre a credibilidade de seu marido.

A Time entregou à Justiça e-mails internos ligados ao caso há algumas semanas, provocando insatisfação dos repórteres em seus escritórios de Washington e Nova York. Como as fontes agora poderão ter certeza de que ficarão em sigilo ao darem alguma informação à publicação? A situação obrigou os editores a se reunirem com as equipes para garantir que se tratou de uma exceção, segundo reporta Lorne Manley para The New York Times [13/7/05]. "Estamos muito preocupados sobre o tipo de sinal que isso produz. A confidência é um lubrificante do jornalismo", observou a correspondente de política nacional da revista, Karen Tumulty. Nos encontros, foram sugeridos novos procedimentos para reforçar o compromisso de sigilo, como nunca escrever o nome de uma fonte que não deve ser identificada numa mensagem eletrônica.

Disputa política

A revelação de que um assessor de Bush tem relação com o vazamento da identidade de Valerie foi suficiente para desencadear uma batalha política em Washington entre o governo republicano e a oposição democrata, que pede a demissão de Rove. No entanto, a imprensa também está na confusão, porque o promotor que investiga o caso intimou jornalistas a revelarem quem deixou vazar a identidade da agente e uma delas, Judith Miller, do New York Times, está presa por obstrução da justiça.

A mídia não quer abrir mão de seu privilégio de sigilo de fonte, principalmente num caso em que não está claro ainda se alguma infração foi cometida – sequer está claro se Rove é alvo da investigação ou apenas parte complementar dela, pois o processo corre sob sigilo. Pela lei americana, só se configurará um ato ilegal se ficar comprovado que a fonte entregou a agente deliberadamente. Após ser liberado do compromisso de sigilo por sua fonte, Cooper, da Time, resolveu depor, mas não teria aportado informações relevantes ao processo.

Juristas ouvidos por Jim VandeHei e Carol Leonnig, do Washington Post [14/7/05], apontam que, pelas evidências que têm vindo à tona no caso, Rove e outros funcionários podem ser enquadrados também em perjúrio e obstrução da justiça, não apenas na lei de proteção a agentes secretos.

Na imprensa

A tensão política em torno desta história é patente nos jornalões americanos. The Wall Street Journal [16/7/05] afirma que Rove deveria receber um prêmio por denunciar o "nepotismo" na CIA e o também conservador New York Daily News [13/7/05] acusa os jornalistas de terem se transformado num "partido de oposição" em "guerra contra a Casa Branca". O jornal cita uma coletiva em que repórteres teriam massacrado o porta-voz da presidência, Scott McClellan, inquirindo-o sobre se Rove teria identificado Valerie em represália a Wilson. Em 2004, McClellan dissera ser "ridículo" supor que o assessor teria algo a ver com o vazamento.

No New York Times [15/7/05], o liberal Paul Krugman também escreve que Rove deve ser premiado: "Ele deveria receber uma medalha da Associação Americana de Ciências Políticas por suas descobertas pioneiras sobre política americana. Se necessário, ela poderia ser entregue na prisão". O colunista diz viver nos "EUA de Karl Rove", um país em que não existem verdades apolíticas. Para ele, Rove conheceria como ninguém as táticas de difamação. "Não sei se o senhor Rove pode ser condenado por um delito, mas ele prejudicou a segurança nacional para tirar vantagem política. Se um democrata fizesse isso, os republicanos diriam que se trata de traição", conclui.

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