THE TIMES, VERSÃO TABLÓIDE

O triste fim de uma instituição

Por Beatriz Singer, de Londres em 16/11/2004 na edição 303

"Para falar a verdade, ninguém acreditou no que ele falou." Esta frase foi o primeiro comentário feito por um editor-sênior do Times após encontro com Robert Thomson, editor-chefe. Era sexta-feira e Thomson convocou uma reunião com a redação. Com um sorriso no rosto, disse o quanto estava contente com as perspectivas do jornal e o quão promissor seria o futuro de todos ali com a noticia que ele estava para dar.

Falou, falou, falou, sempre o sorriso no rosto. Em momento algum abriu espaço para perguntas. Apenas anunciou: a partir de agora, o Times só sairá na versão compacta. Na sala, silêncio sepulcral – reação estranha para uma suposta "boa notícia". As únicas pessoas capazes de celebrar qualquer coisa seriam o proprio Thomson e, naturalmente, o cacique (também australiano) Rupert Murdoch, controlador do tradicional diário britânico.

O editor-sênior, que manteve o emprego "pelo menos por enquanto", e que já está "de olho em outras oportunidades" caso o passaralho faça nova aparição, disse que "Thomson falou naquele linguajar comercial e otimista, mas logicamente não estava dando uma boa notícia". E reforçou: "A verdade é que ele não é muito querido pela redação. Ninguém engoliu aquele discursinho."

Durante a semana que se seguiu, o editor-chefe do Times não cansou de reiterar para os meios de comunicação britânicos o quanto estava orgulhoso de sua decisão. Ironicamente, Thomson só decidiu contar para a redação a decisão de parar com a versão broadsheet [equivalente ao tamanho standard adotado por vários jornais brasileiros, em oposição ao formato tablóide] do jornal quando a notícia vazou para o Guardian. Mesmo assim, muita gente na redação do Times só ficou sabendo que a partir de agora trabalhariam para um tablóide pela nota publicada no Guardian.

"Realidade do mercado"

A semana foi infernal. Durante os cinco dias úteis, um supervisor da redação andou por entre as mesas pousando a mão sobre o braço de cada subeditor a ser demitido. "Posso ter uma palavrinha com você?" A vítima já sabia o que lhe esperava. Quinze subeditores foram demitidos. O último deles foi um jovem de 27 anos, formado em literatura inglesa em Oxford, com quem conversei.

Ao longo deste ano, cerca de 40 pessoas já haviam sido consideradas "redundantes" – um eufemismo bastante usado aqui para qualificar as demissões. "E eufemismo é uma palavra que você tem que usar em seu artigo", aconselhou-me o jovem subeditor, que preferiu ter seu nome preservado. "Não há nada mais eufemístico do que nosso chefe evitando falar de tablóide, usando apenas o termo ‘compacto’".

O Times em formato tablóide nasceu há um ano. Nessa época, muitos subeditores foram contratados para dar conta de encaixar reportagens nos dois formatos, entre eles o jovem subeditor. Trabalhando no Times havia apenas sete meses, recém-chegado da Índia, ele foi demitido na semana retrasada. Era meio de expediente e ele estava jantando quando o subeditor-chefe o chamou à sua sala. Largou a comida no meio e seguiu-o. Ao chegar na sala, a porta fechada atrás de si, guardanapo esquecido na mão, recebeu o toque sutil: "Você já sabe o que vou dizer, não sabe?" Ele balançou positivamente a cabeça.

O subeditor-chefe disse que sentia muito, mas que o orçamento para a equipe seria cortado pela metade. Antes, havia 15.000 libras por semana para pagar os subeditores. A partir de agora, seriam apenas 7.000 libras. O jovem não tinha muito o que argüir. A lei do "último a entrar, primeiro a sair" era imbatível.

Ao se retirar da sala, pensando nas duas semanas que lhe foram dadas para deixar o jornal, topou com outro colega que trazia uma garrafa de champanhe nas mãos. Confuso e sem graça – afinal ninguém que saísse da sala do subeditor-chefe durante esses dias difíceis poderia querer comemorar qualquer coisa – o colega pediu desculpas. A comemoração era pela primeira versão na historia do Times "compacto", a ser publicada no sábado. O jovem recém-desempregado não ficou ofendido. Pegou uma taca de champanhe, voltou para sua mesa e terminou de jantar.

"Não entendi nada; há poucos meses me garantiram que não perderia meu emprego", disse. "Fiquei perdido. Foi tudo muito repentino." Pelo menos nesse ponto ele e Thomson concordam. Em entrevista ao Guardian, publicada no caderno de mídia da semana passada, o editor-chefe disse que "há dois meses não imaginaria que hoje estaria sentado dando uma entrevista sobre o Times virando ‘compacto’". Na verdade, não haveria cara-de-pau no mundo que permitisse a Thomson dizer o contrário. Há cerca de seis meses, ele disse que não havia motivos para pensar que o jornal abandonaria o formato broadsheet, pelo menos pelos próximos cinco anos.

No dia 29 de outubro, um porta-voz do jornal negou os rumores, chamando-os "bestas". Exatamente no dia seguinte, o jornalão publicou sua última edição broadsheet. "O que mudou minha cabeça foi o fato de nossas vendas terem subido tanto na Escócia, Irlanda e oeste da Inglaterra [regiões em que apenas a edição compacta do Times estava disponível já havia alguns meses]", afirmou. "A realidade do mercado é tangível e não há como ignorar isso."

Once upon a Times

Durante toda a entrevista a Roy Greenslade, do Guardian, Thomson reiterou que a mudança de formato não significa mudança de conteúdo, que se trata de uma questão secundária. "Mentira", disse o editor-sênior citado no começo desta matéria. "Quando formatamos um tablóide, temos, por obrigação, de pôr duas matérias por página. Com essa ‘regra’, temos de fazer com que toda matéria tenha sua dose apelativa para atrair a atenção do leitor. Apenas isso já altera o conteúdo. "

Thomson também parecia reiterar constantemente o quanto sua decisão havia sido acertada, tomando como exemplo o incremento das vendas e o relativamente baixo índice de rejeição do leitorado. Neste ponto, o editor-sênior discorda. "O Times tem recebido muitas cartas, e-mails e telefonemas de reclamação. É que nem tudo – aliás, muito pouco – é divulgado."

A revista satírica Private Eye que o diga. Um artigo publicado na edição da semana passada vinha com titulo auto-explicativo: "Cartas ao Times – O que você não leu". Na semana retrasada, o Times publicou algumas cartas do público reclamando da mudança súbita, "mas na verdade o jornal foi inundado por cartas furiosas cujo conteúdo foi encaminhado à Private Eye por jornalistas inconformados da própria redação", dizia o artigo.

"A maneira como fizeram a mudança de formato do Times foi razão suficiente para eu mudar depois de 40 anos de devoção. Vocês podem ganhar novos e jovens leitores. Eles se provarão efêmeros se comparados a nós, que agora encaramos o futuro com a sensação de traição", escreveu um leitor. "Vocês falaram de mudança no editorial de sábado. Acho que também é tempo de mudança para mim; passei para o Daily Telegraph [principal concorrente do Times]", escreveu outro. E por aí vai.

Reações compreensivelmente apaixonadas à parte, os números corroboram a decadência do jornalão. Tomando como parâmetro o período de julho a dezembro, a circulação do Times era de 790 mil cópias, em média, em 1996 e 1997; em 2004, a média caiu para 660 mil copias diárias (calculada até setembro).

O editor-sênior, que trabalha no veiculo de Murdoch há cerca de 30 anos, viu a queda de uma instituição e apenas lamenta. "O Times era um jornal tão conceituado que ninguém precisava explicar o que era. No mundo inteiro, Times era Times, um entendimento comum de jornal respeitado, cuja palavra tinha um poder incrível. É triste dizer, mas essa grande marca está aos poucos se esfacelando."

***

Jornalista

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