TITITI

Os retratos de uma imprensa sensacionalista

Por Emanuelle Najjar em 22/03/2011 na edição 634

Muita gente torce o nariz quando falam em telenovela como um produto cultural ou como uma forma de refletir sobre assuntos importantes. Se o foco recai em uma obra onde o chamariz é o humor, então a situação se torna pior. Mas o fato é que nem tudo que há de importante vem ao público com uma abordagem séria. Este é o caso de Tititi, que chegou ao fim recentemente. Talvez em breve se perca em nossa memória, às vezes tão curta quando o assunto é televisão. Então, aproveito esse tempo restante para o que pode ser uma última reflexão a seu respeito: alguém por acaso já notou os estereótipos sobre a imprensa nessa novela?

Reviva sua memória: uma parte considerável dos acontecimentos dessa trama envolve os profissionais da comunicação. Temos uma editora com duas revistas de peso para nortear grandes partes da história: a conceituada Moda Brasil, cujo nome dispensa maiores detalhes; e a Drix, que tem como tema o mundo das celebridades. Temos também aqueles que se mostram independentes de tais núcleos estabelecidos, incluindo até mesmo os blogs – é, eu sei que classificá-los como imprensa gera polêmicas infindáveis, mas o texto não serve a isso.

O assunto é Sueli Pedrosa. A personagem interpretada por Tuna Dwek é a grande diva dos estereótipos daqueles que trabalham no ramo do mundo das celebridades. Ela comanda um programa de fofocas especialista em tirar proveito de toda e qualquer faísca. Estamos falando do tão famoso sensacionalismo. Não, não estou sendo preconceituosa com esse nicho tão controverso do jornalismo, mas há de se convir que o modus operandi de algumas redações acaba fazendo jus à fama que levam.

Banalidades da fama e desgraça alheia

Não é difícil entender de onde vêm os rótulos e trejeitos quando a TV brasileira já tem alguns nomes conhecidos por algo semelhante. Claro, visivelmente nenhum deles chegou ao estilo de Sueli Pedrosa de ser, mas trata-se de um mosaico complexo, uma mistura explosiva.

Em geral, jornalista carrega fama de urubu, seja lá qual for sua especialidade. Isso ficou explícito nas palavras de Rebeca Bianchi (Christiane Torloni) em uma cena importante para o assunto. Ao ser avisada pela empregada que os repórteres estão telefonando frequentemente para casa atrás de seu filho, o playboy Jorgito (Rafael Cardoso), ela fica intrigada para saber o motivo. Sua filha sugere que poderia ser devido à reconciliação de seu irmão com a noiva, a modelo Desirée Oliveira (Mayana Neiva). Como resposta, uma pergunta reveladora: "E desde quando a imprensa dá bola para notícia feliz?"

Estamos falando de um mundo onde todo e qualquer ato será amplificado. Onde até mesmo um passeio breve ou uma ida a um restaurante rende uma nota, sem contar aquelas notícias com um apelo cômico inimaginável... Alguém lembra daquela nota a respeito da atriz Deborah Secco indo à academia sem aliança e pisando em cocô de cachorro? Se isso ganha algum espaço, pense então em ocasiões como o fim de um relacionamento, uma noite de bebedeira ou uma briga de bastidores.

Você, como consumidor da informação, pode não julgar ético, porém é uma questão de produtividade e lucro. Há público para tudo, inclusive para as banalidades da fama e a desgraça alheia. Fala-se em negatividade da mídia, mas lembre-se que nem as fofocas de bairro ou de trabalho acontecem por motivos felizes. Seria a mídia, então, o reflexo de uma sociedade?

Modus operandi maledicente

Outro ponto importante ao falar de Sueli Pedrosa é o modo como ela alardeia a "liberdade de imprensa" e o direito do público à informação sempre que outro personagem tenta enxotá-la. Uma situação que se mostra frequente. A cena abaixo é apenas um breve exemplo:

Para uma pessoa comum, seria lógico pensar em sua privacidade, tendo como reação um ato extremo de recusa, porém o direito à informação também é um conceito real.

Tudo bem que seja dúbio enquanto tratamos da vida dos famosos, mas ainda assim há público para tal. Claro que os atos dos personagens afetados por suas matérias são legitimadas por seu modus operandi maledicente, pois a personagem invade a casa das pessoas com a cara e a coragem (ou o microfone e a cara de pau, como queira).

Óbvio que não adianta alardear e gritar argumentos sobre tantas liberdades: ela é expulsa da mesma forma.

Verdades entre ironias e pastelão

Não é de hoje que a ficção vem abordando esse tipo de tema. Ele já veio à tona em diversas produções. A mais recente e efetiva delas foi a série "Vida Alheia", escrita por Miguel Falabella, que mostrava os bastidores de uma grande revista de celebridades. O tom do texto era irônico, não o pastelão. Mostrava a relação de dependência estabelecido por ambas as partes – afinal, a celebridade nem sempre é a vítima. Também mostrava alguns expedientes escusos: em uma das cenas, houve a invenção de testemunhas que não queriam se identificar para endossar uma matéria sobre a decadência de uma pessoa famosa. Tudo isso pelas mãos da editora-chefe, sob justificativa de que o recurso era usado desde o Velho Testamento.

Tititi traz uma versão mais escrachada, repleta de rótulos. Também mostra a relação de dependência entre as partes – afinal, Sueli Pedrosa quase sempre é chamada por Stéfany, personagem de Sophie Charlotte, uma pretensa sub-celebridade – e os rótulos inerentes à carreira de quem tem a vida dos famosos como ganha-pão.

Vida Alheia causou mal estar para alguns: Fabíola Reipert foi uma das descontentes com a história e chegou a escrever um post em seu blog afirmando que Falabella estava equivocado e que sua obra desrespeitava o trabalho de uma categoria da qual ele depende.

No caso de Tititi, aparentemente não houve quem se sentisse ofendido. Talvez por ser uma mistura bem humorada, por não haver possibilidades de uma identificação direta, afinal são tantos retratos...

Enfim... Quem disse que o humor é inútil?

***

Jornalista, São José do Barreiro, SP

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