ORKUT EM RISCO?

Os patos do Cocadaboa

Por Moises Aires da Silva em 18/01/2005 na edição 312

Os profissionais da imprensa eletrônica estão realmente preparados para o desempenho de suas funções, fornecendo notícias e informações confiáveis? Mais um episódio envolvendo o site Cocadaboa (www.cocadaboa.com/) mostra que, apesar dos erros cometidos, ainda há um longo caminho a ser percorrido.

No domingo (9/1), navegando pela internet em páginas do Orkut (www.orkut.com), que costumo visitar regularmente, vejo, numa das comunidades, uma mensagem inserida em sua descrição informando o seu "seqüestro" devido a uma falha de segurança do Orkut e do browser Internet Explorer. O texto orientava quem quisesse saber mais detalhes a visitar o site Cocadaboa.

Minutos antes eu havia entrado no site, e nada vira referente a isso. Entrei novamente e, de fato, o editor, MrManson, havia escrito o editorial "Tem Orkut? Perdeu, Playboy!" (www.cocadaboa.com/archives/004126.php), no qual explicava que uma falha de segurança no Orkut e no Internet Explorer permitia que qualquer um que utilizasse um código malicioso em página HTML poderia capturar informações suficientes para acessar identidades no Orkut. E, em seu jeito peculiar, o site "seqüestrara" a identidade de moderadores de comunidades, como uma maneira de divulgar a falha, descoberta por um leitor do Cocadaboa. O texto frisava que o usuário estaria vulnerável com o Internet Explorer, mas que este problema não ocorreria se ele estivesse usando o navegador Mozilla Firefox, alternativa leve e gratuita ao browser da Microsoft, que é divulgado gratuitamente por diversos sites, incluindo o Cocadaboa.

Minha reação imediata foi a de divulgar o fato, mas, já calejado pelos hoaxes da internet, fiquei com a pulga atrás da orelha. Afinal, a fonte da informação era o Cocadaboa, que é famoso por fazer a imprensa e o público de "patos", como no caso da falsa versão sexual do Orkut, o Sexkut [ver remissão abaixo], tema de matérias em diversos sites antes de ser revelado que era mais uma "pegadinha". Pegadinha esta que superou as expectativas dos criadores da história, tanto pela repercussão quanto pelo número de pessoas que queriam participar desta "comunidade virtual sexual". Como em outros casos de notícias fictícias criadas pela equipe do site, jornalistas famosos tomaram a brincadeira como verdade, divulgando-a sem maiores averiguações quanto a sua veracidade.

Fato ignorado

A proposta de MrManson, pseudônimo de Wagner Martins, seria levar os profissionais de imprensa a se informarem melhor antes de divulgar fatos que lhes chegam pela internet, fonte inesgotável de informações, fictícias ou não. Neste afã, ele acabou revelando a frágil estrutura da imprensa, que normalmente não averigua a fundo os fatos antes de noticiá-los. Num mundo em que a informação trafega em velocidade sem precedentes na história humana, tornou-se imperativo que sites noticiem os fatos com a maior urgência possível, pois horas podem transformar uma informação "quente" em fato ultrapassado. Mas aí, na urgência de passar adiante a notícia, os profissionais acabam se descuidando e não "perdem tempo" confirmando a veracidade dos fatos. Isso ocorre com freqüência conosco quando recebemos um e-mail informando sobre um poderoso vírus ou um refrigerante que causa câncer, e acabamos passando adiante o boato. Isso se torna problemático quando aqueles que deveriam nos fornecer informação verossímil e confiável agem de maneira semelhante.

Ao que parece, a imprensa ficou atenta às histórias do Cocadaboa, pois não é muito lisonjeiro que profissionais do quilate de um Cláudio Humberto ou um Jô Soares sejam vítimas dessas pegadinhas, como já ocorreu. Mas qual a reação da imprensa ante uma "bomba" destas sendo divulgada pelo Cocadaboa?

Certamente desconfiar da veracidade, não só pela "ficha corrida" da fonte, mas porque toda notícia deveria ser tratada desta maneira. Mas o que a maioria dos veículos de comunicação fez? Foi investigar se a notícia procedia? Tentaram falar com o moderador cujo perfil no Orkut foi divulgado pelo Cocadaboa? Ou falaram com o leitor que denunciou a falha ao Cocadaboa? Investigaram se a denúncia procedia e se o que ele descrevia fazia sentido, tecnicamente falando?

Não. A reação da imprensa foi ignorar completamente o fato.

A imprensa lavou as mãos

Mais uma vez MrManson ganhou o dia. Inventou uma nova modalidade de pegadinha: falou a verdade e muita gente não acreditou. Imaginei uma grande conspiração entre MrManson e os moderadores das comunidades, que concordariam com a brincadeira e simulariam o "seqüestro" de suas comunidades. E eles mantiveram todos em suspense por alguns dias. Seria verdade ou não? Na dúvida, um grande silêncio da imprensa eletrônica. No site do jornal O Dia, de 3/1, o fato foi considerado um boato.

No mesmo dia em que a "bomba" estourou no Orkut, pesquisei rapidamente para ver se outras fontes noticiavam a falha de segurança, busca esta infrutífera. A única fonte da informação era o site do Cocadaboa, cujo servidor quase deu tilt, devido ao grande número de visitas. Muitos acusaram o Cocadaboa de promover este boato para divulgar o site e aumentar visitas, outros acusaram-no de tentar queimar o filme do Internet Explorer para promover o Firefox. Como se o Internet Explorer e qualquer produto Microsoft precisassem de ajuda para se queimarem...

"Mas afinal, o que é a verdade?", perguntaria Pôncio Pilatos, e é o que todos perguntavam sobre o episódio. A imprensa acabou lavando as mãos, no fim das contas. Eles devem ter criado uma nova regra não-escrita que preconiza o seguinte: "Se veio do Cocadaboa, é falso". Simples assim, tão simples quanto divulgar fatos sem a investigação devida.

Mecanismo de defesa

Mas, para surpresa de muita gente, uma declaração "oficial": o Web Insider publicou no dia 5/1 entrevista com MrManson, na qual ele explica, em detalhes, a falha de segurança e as motivações para divulgar a falha de forma tão inusitada [ver "O caso das comunidades seqüestradas no Orkut" (www.webinsider.com.br/vernoticia.php/id/2312)]. Em suma, ele esclarece que a falha de segurança do Orkut residiria em que os cookies (arquivos que os sites gravam no computador do usuário para sua identificação em visitas posteriores) que o Orkut gera ficam gravados por muito tempo na máquina, e o Internet Explorer teria uma falha de segurança denominada "cross site scripting", que permite que códigos maliciosos de alguma página da internet obtenham interação ou informação do usuário do Internet Explorer. Tal falha pode ser empregada por pessoas mal-intencionadas durante o acesso de um usuário a endereço falso de um banco, por exemplo, interceptando informações sigilosas.

A partir destas falhas, o citado leitor do Cocadaboa observou que um código malicioso poderia obter os cookies do Orkut armazenados numa determinada máquina, e obtendo estas informações, qualquer um acessaria o perfil do indivíduo no Orkut, com graves conseqüências. O usuário que teria percebido a brecha tentou alertar o próprio Orkut e sites de segurança na internet, mas foi solenemente ignorado. Ao procurar o Cocadaboa para ajudá-lo a divulgar a falha, MrManson não teve dúvidas e usou de seu estilo para jogar sujeira no ventilador [ver o balanço final da história no editorial "Afinal, o que aconteceu no Orkut?", por MrManson (www.cocadaboa.com/archives/004132.php)].

A conclusão a que podemos chegar é que a imprensa não aprendeu com os erros do passado recente. Apenas criou um mecanismo simples de defesa para não se deixar passar por tola. Mais uma vez, MrManson mostrou que o rei está nu. E, ao que parece, esta não será a última investida dele para expor a fragilidade da imprensa. Há uns dois meses, ele promoveu "O Dia do Caos", no qual histórias estapafúrdias seriam divulgadas por diversas fontes, e se esperaria um certo tempo até que tais histórias começassem a surgir na imprensa. Até o momento, nada foi comentado. Seria uma bomba de efeito retardado? Se continuar assim, ele acabará se tornando um mártir da causa da imprensa responsável, linchado pela turba de patos raivosos que caiu em sua última "pegadinha".

***

Técnico de suporte em informática, João Pessoa; colunista do site Crazy Man (www.crazy_man.kit.net/index.htm)

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 Fernando Rossi
 Enviado em: 18/01/2005 18:58:11
Parece que o autor foi um dos que calaram para não ser pato, e agora divulga esse texto se passando por acusador da imprensa irresponsável. Tsc tsc tsc.
 Dimitri Brandi
 Enviado em: 20/01/2005 16:54:46
O texto me fez lembrar um episódio narrado pelo físico Richard Feynman em sua autobiografia. Quando trabalhava no Projeto Manhattan, Feynman se divertia abrindo cadeados e descobrindo segredos de cofres que guardavam documentos secretos. Avisou o general responsável pela segurança, alertando para as falhas. O oficial, em vez de tomar alguma providência que reforçasse a segurança, avisou a seus subordinados para vigiarem o físico, que este era perigoso e sua presença deveria ser evitada em locais que tivessem cofres. Igual à reação da imprensa brasileira ao Cocadaboa: cria uma regra que esconda o termômetro, sem baixar a febre.
 Rodrigo Freire
 Enviado em: 22/01/2005 23:53:54

Discordo do leitor [Fernando Rossi]. Não houve negligencia em divulgar os fatos, tanto é que o fizemos, ao lançar textos sobre isso em nosso site. Pena que não somos a imprensa absoluta, a que domina o mercado, somos apenas uns "fazedores de sites". O texto é muito coerente e de fato a imprensa hoje se vende por pouco. Não precisamos apenas nos basear nos casos envolvendo o cocadaboa: a imprensa em geral sempre dá esse tipo de mancada, lançando as famosas barrigas. Claro que nos bastidores existem prazos, editores, pautas a serem cumpridas, mas onde está a ética? Um bom jornalista tem que saber "pescar" as informações boas e verdadeiras e "jogar fora" as que intuitivamente julgar falsas.

Um bom jornalista tem que ter intuição, isso é notório. Acho que mesmo não sendo, nem tendo estudado Jornalismo, o nosso colega foi muito feliz em seu texto e tem aquilo que nossos professores da época da universidade pregavam: olhar crítico.

Vamos lá, tentemos desenvolver esse olhar acerca do que nos cerca e chega de tsc tsc tsc, poucas e banais palavras.

Moises Aires da Silva