NOVILÍNGUA NA MÍDIA

Português assassinado a tecladas

Por Deonisio da Silva em 15/03/2005 na edição 320

Na era dos insensatos, eis que surge mais um besteirol, a que os apressados de sempre já deram até nome: idioma cibernético.

Recapitulemos, pois a memória não é o forte de nosso povo. O rádio parecia dispensar a alfabetização. Tudo poderia ser ensinado exclusivamente pela fala. A década de 1920 prometia resolver o grande impasse: para que ensinar a ler e a escrever? Bastava usufruir dos benefícios do Marquês de Pombal, que nem sequer era citado, pois em país católico como o nosso, como reconhecer mérito a estadista que expulsara daqui os jesuítas, professores de nossas primeiras escolas? Mas foi ele o principal responsável por termos uma língua que cobre todo o território nacional, ensejando-nos avisar o distinto público que dia tal haverá vacina.

Depois veio a televisão. Daí, sim, era a pá de cal. As verbas para o ensino deveriam ser diminuídas ainda mais, pois era possível aprender e ensinar pela televisão. Os governos deveriam investir em televisão, como de fato o fizeram, e não em escolas!

E no auge da hegemonia da televisão, veio outro Plano Marshall. O sociólogo canadense Herbert Marshall McLuhan, falecido em 1981, aos 70 anos, celebrizou-se ao anunciar o fim do livro. Que meio usou para divulgar a sua profecia? Um livro!

Para quê?

A conquista seguinte foi a internet. A Humanidade encheu-se de navegadores nos mares da rede mundial, invento tecnológico concebido para o caso de uma guerra nuclear, então uma ameaça ainda mais aterradora do que podemos supor. Cessada a Guerra Fria, porém, virou brinquedinho e instrumento dos que podem ter acesso a uma linha telefônica e a um provedor, mais ou menos 10% da Humanidade.

O último que passou na escalada foi o telefone celular, que, como sabemos, ainda é usado também para falar, mas essa função primordial foi rebaixada: celular é para tirar fotos, gravar conversar e, principalmente, enviar torpedos. Em resumo, nunca as pessoas escreveram tanto!

Surgiu, porém, um problema. O carro estava diante dos bois. Os pequenos burgueses tinham internet e celular, mas não dominavam a língua escrita. E por isso criaram a deles. Nada espantoso. Também os habitantes das periferias não dominam a norma culta da língua e criam suas gírias, devidamente circunscritas a cada grupo de usuários. Assim, dois traficantes conversam num bar carioca e o policial ao lado não sabe de que estão falando, o que estão combinando.

Mas eis que, abruptamente, irrompeu nas legendas da rede Telecine, nas TVs a cabo Net e Sky, o Cyber Movie, em que as legendas dos filmes são escritas na mesma pobreza vocabular e desarrumação comum aos ágrafos que se beneficiaram das novas tecnologias.

Para eles, vale o que todo mundo vê na televisão: a tecnologia vai bem – alta definição de cores, som estereofônico, cenários exemplares etc – tudo muito bonito, mas para quê? Para aqueles programas? A tecnologia andou bem e rapidamente. A escrita ficou para trás, pois a escola foi abandonada.

Glossário mínimo

O que não se pode entender é que respeitados intelectuais considerem normal o que está ocorrendo: equivale a ir ao médico, este constatar disfunção em órgão essencial e diagnosticar: ah, está indo ao banheiro mais vezes do que deveria? Altere seu cronograma diário e adapte-se às novas exigências de seu organismo, que acaba de entrar na era pós-moderna, a era do vale-tudo. Agora, as visitas ao banheiro serão de hora em hora.

Pois na dita linguagem cibernética a língua portuguesa está sofrendo de diarréia e tenesmo ao mesmo tempo. Ora o jovem diz demais e confusamente, economizando em letras, mas se perdendo em prolixias, ora está preso ao reduzido universo vocabular que o vitima principalmente na escola. Como aprender um texto sofisticado, se professores e livros, por melhores que sejam, não conseguem contato com repolhos e alfaces ali matriculados?

Falemos a verdade aos jovens, eles gostam da conversa clara. Com o glossário presente nas mensagens instantâneas do ICQ, do Messenger e dos torpedos, não é possível pensar. Somente a dispensa de vírgulas e pontos já levaria ao caos a comunicação, fim principal que os usuários querem atingir. E se se restringirem à linguagem cibernética perderão via de acesso indispensável ao êxito no trabalho, no amor, na vida: a capacidade de entender e de serem entendidos.

Não bastasse o conceito equivocado do novo idioma, perguntemos: o que se economiza – a economia é a regra básica da elegância, e por motivos de beleza e saúde, os jovens vivem fazendo regime – com a substituição de "não é brincadeira" por "Ñ eh brincadeira"? "De jeito nenhum" por "Djeito nenhum"? "Não vou correr com vocês" por "Ñ vou correr c/ vcs?"?

O glossário mínimo do novo idioma abrevia hora com "hr". Mas por quê, se já temos "h"? "Onde" virou "ond". "Novidade" virou "9idade".

O preço da exclusão

O sintoma: falhamos em tudo na educação dos jovens, vitimados por tantas carências, como vemos todos os dias. Comecemos a reconhecer que sequer lhes transmitimos a língua que herdamos de nossos pais e professores num tempo em que a família e a escola tinham mais atenção.

A norma culta da língua portuguesa não tem mais quem a defenda nem em legendas de filmes na televisão! A confusão é geral. E a escola deu, por atos, palavras e omissões, grande contribuição ao atual descalabro de que o idioma cibernético é um dos mais óbvios sintomas.

Demos telefones celulares também aos pobres, que podem comprá-los bem baratinhos e em suaves prestações no crediário. Não lhes demos o direito de comprar livros com tamanhas facilidades. Para exemplificar: se os livros fossem alardeados e promovidos como são celulares e computadores, o idioma cibernético não teria lugar.

Ainda hoje é muito fácil comprar um automóvel ou um bicho de estimação. Vá o prezado leitor comprar um trator ou uma vaca leiteira, para ver como será atendido no crediário. É quase uma irresponsabilidade tratar de assunto tão complexo em tão poucas linhas. Mas o contexto é este: os sem-terra e os sem-livro habitam o mesmo Brasil. Fora da Galáxia Gutenberg, todo mundo será marginal e como tal será tratado.

Assim como a gíria não livra os meninos pobres dos seculares males sociais, o idioma cibernético não os livrará da marginalidade em que vivem, da falsa cultura em que se movem, da pobreza vocabular que os leva a esses terríveis insucessos numa simples redação de vestibular.

Nós lhes negamos o código, a chave da porta de entrada. E eles é que estão pagando o preço da exclusão. Que pelo menos nós, os letrados, não nos desculpemos com auto-indulgências que não nos ajudam a compreendê-los, apenas nos eximem de responsabilidades.

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 Ricardo Camargo
 Enviado em: 21/03/2005 23:09:51

Creio que vou parecer pernóstico e antiquado, mas, para mim, a tese da "evolução lingüística" não serve como desculpa para o que estamos verificando hoje. [sobre o texto "Português assassinado a tecladas", de Deonísio da Silva, edição 320]. Machado conhecia bem o idioma rebuscado de Camões - a quem transformou em personagem de uma de suas peças de teatro, intitulada Tu, só tu, puro amor - e podia dar-se ao luxo de inovar. Lobato, idem. As inovações estilísticas postas por Mário de Andrade, Oswald, Cassiano Ricardo vieram de pessoas que conheciam a norma e, por isso mesmo, sabiam quais eram as suas deficiências. Guimarães Rosa e Simões Lopes Neto anotaram o falar do interior mineiro e gaúcho, respectivamente.

Nem estou mencionando o Câmara Cascudo, que, com beneditina paciência, recolheu um dos mais ricos acervos da cultura popular. Agora, não é disso que estamos a falar. Estamos falando de pessoas que têm a possibilidade de adquirir aparelhos eletrônicos e que, entretanto, mal ouviram falar em Machado de Assis, em Alexandre Herculano, mesmo em Stanislaw Ponte Preta. E muitas vezes se surpreendem quando tais autores são referidos, perguntam de quem se trata, embora saibam todos o que aconteceu no capítulo de ontem na novela das oito.

Um exemplo que o Sérgio Fabris, editor no Rio Grande do Sul, invoca freqüentemente, quando fazem observações sobre o preço dos livros: muitas vezes, o sujeito que inquina um livro de "caro" paga por um tênis, sem chiar, o dobro ou o triplo do preço com que se inconformara.

Mas, deixemos de lado os autores de língua portuguesa e vamos a um autor de língua inglesa, Ray Bradbury, que, além do roteiro para um filme de John Huston - Moby Dick -, escreveu um arrepiante romance de ficção científica, levado às telas por François Truffaut, intitulado Fahrenheit 451. Este romance tratava de um mundo em que o meio principal de comunicação era a televisão, as casas eram à prova de fogo e o papel do corpo de bombeiros era queimar livros. Em suma: estou, no particular, com Deonísio da Silva.

 Sergio Santos
 Enviado em: 17/03/2005 13:22:24
Meu caro Deonísio: nada há para falar sobre seu texto, exceto um sincero "obrigado".
 Cláudia Rodrigues
 Enviado em: 17/03/2005 10:36:49

Podemos alongar o olhar e então vamos perceber que no meio do caos é possível encontrar adolescentes que conseguem escrever em cibernetês - porque nos msns, icqs e afins é a linguagem que se usa - e também são capazes de tecer textos interessantes sobre linhas políticas que unem um partido como o PSDB a princípios estabelecidos no século 19. Essas incríveis criaturas modernas, capazes de manchar nossos empoeirados lexos, entram numa locadora e depois de 15 minutos saem de lá com dois filmes que a nossos olhos podem parecer incombináveis: Frida Khalo e A vila.

Ainda conseguem, só para quebrar qualquer vontadezinha nossa de criar conceitos, tocar músicas esquisitas, muito eruditas, no violino e adorar o bom e velho rock, com nada contra a street dance e o hip hop. E só para não dizer que vivem pensando bobagens, são ainda capazes, com muita leveza, de sair da escola particular e pegar um ônibus de linha para ir até o Projeto, onde ajudam crianças e outros adolescentes a fazer o tema de casa.

Vamos respeitar os jovens e suas descobertas, suas inovações; no mínimo porque em breve não estaremos mais aqui, mas principalmente porque não conseguimos entregar a eles um mundo menos caótico e ensebado, cheio de meias-verdades. E quem de nós, afinal, tão atarefados que somos, consegue tirar um tempinho para consertar o analfabetismo que ajudamos a aumentar? O portuga que seja assassinado, se é para o neguinho ter uma ajuda na tarefa e sair do buracão.

 Guiomar M. Barroso
 Enviado em: 23/03/2005 12:49:29

Acredito que seja muito fácil tecer críticas quando nos colocamos num patamar privilegiado de conhecimento e cultura com relação aos que estão à margem desse processo. [Sobre artigo "Português assassinado a tecladas", de Deonísio da Silva, edição 320] De fato, para preconceito, nenhum argumento é suficiente. Ao analisarmos uma situação, é sensato observar o contexto em que a situação está inserida. Considero os jovens em processo de adaptação, senão adaptados, ao imediatismo da vida cotidiana, onde tudo tem que ser feito de uma forma caótica.

Levanto a discussão se o que hoje nos choca na língua talvez não nos passe despercebido em outros segmentos de nossa vida cotidiana e isso reflete o nosso despreparo e inabilidade em lidar com o novo, conseqüência direta de nossas ações. Não nos eximamos de nossa responsabilidade com o outro, o que de praxe acontece na atualidade. O jovem de hoje, com certeza, tem um histórico de vida e de aprendizado, seja lá onde ou com quem foi, ele é resultado de uma disperção de valores e fatores, e se tornará causa também quando for pai ou mãe, sendo uma pessoa, no mínimo, com habilidades adequadas às necessidades do seu tempo.

 Flávio Viégas
 Enviado em: 25/03/2005 09:04:31
Prezado Deonísio, bom dia. O artigo "Português assassinado a tecladas" [edição 320] é interessante por várias razões - e muito bem escrito. Para evitar elogios óbvios e desnecessários, cito apenas uma qualidade do texto: o reduzido número de gerúndios. Se a matemática do computador estiver correta, somente 10 gerúndios num texto de 1.091 palavras. Simplemente maravilhoso. "A nível" de satisfação pessoal gostaria de "poder estar dizendo" isso pessoalmente. Lamentável que o presente perfeito e o passado perfeito - e suas derivações - de muitos colegas jornalistas também contribuam para assassinar a língua pátria. É isso.
 Guiomar Moreira Barroso
 Enviado em: 19/03/2005 10:51:17

Penso que deve ser no mínimo frustrante para pessoas que dedicam a vida a compreender e aprender regras gramaticais perceberem que os jovens ou qualquer outro grupo que assim não proceda se fazem entender entre si, sem a preocupação de estarem de posse de tais conhecimentos. A evolução é um processo intrínseco à natureza humana, querer estagnar esse processo ou se achar em condições de determinar o que é certo ou errado do ponto de vista particular ou mesmo de um grupo que seja, o qual tem livre acesso e condições favoráveis para tanto, e querer respaldar e legitimar o seu discurso através de regras institucionalizadas é no mínimo pretensioso.

Se tudo no mundo se restringisse, a priori, única e exclusivamente às regras para legitimar a sua existência e eficácia, a subjetividade e conseqüentemente a criatividade, que são fatores determinantes na sobrevivência humana, estariam seriamente comprometidas, quiçá até inexistissem. Se o argumento é manter a língua como algo estático e padronizado, enfatizando a cultura e a estética pelos valores em si, voltemos ao primórdio da sua existência, estudemos não o português de Portugal, mas o latim.

 Paulo Afonso Graner Fessel
 Enviado em: 16/03/2005 18:40:23

Discordo da professora e do advogado. Simplificar o idioma significa tornar a linguagem escrita mais facilmente compreensível pelas pessoas. E a menos que o caro advogado seja fluente em hebraico – em que as vogais não são escritas nas palavras –, trecos como "9dade", "kct" e abreviações incorretas, como as citadas no artigo, são muito mais incompreensíveis. Salvam tempo de digitação, e daí?

Por outro lado, o argumento da professora não se sustenta – o que o articulista comenta são as imbecilidades proferidas nos MSNs e ICQs da vida, que são cometidos por pessoas que PODEM mas NÃO QUEREM escrever direito. Quem falou dos grupos sociais menos favorecidos foi ela, e não o articulista – o qual lamenta que o acesso à leitura ainda hoje seja negado aos mais pobres, que se não sabem ler e escrever, por um lado, por outro são bombardeados com comerciais de celulares das Casas Bahia.

E mais: quando vejo colegas de profissão – todos com idade entre 20 e muitos e 30 e poucos anos – usando as mesmas abreviações execráveis, não dá para sustentar que esse fenômeno seja exclusivo de grupos sociais jovens. E aí vejo as mensagens de correio eletrônico que essas mesmas pessoas – profissionais empregados – escrevem: não há vírgulas, travessões, aspas, pontos finais – enfim, sinais que ajudam a compreender o que se comunica.

E aí entendo por que existem tantas corporações com problemas.

Em resumo, como o articulista, penso que a solução não é nivelar a língua por baixo. Simplificação do idioma nada tem a ver com barbarismo e ignorância.

 Cezar Scanssette
 Enviado em: 17/03/2005 11:38:34

É o "portugrês" mesmo.

Olha só o que copiei de um flog da internet: "aHh... Nads di muito importante naum.. sou uma pessoal cm qualquer outra.. gostu di ler, escrever, tc, flog, sair, conversar... amo meus amigos.. gostu di jogar bola.. aHh.. gostu di xocolati.. affs.. eu gostu di tanta coisa.. porém.. detesto CReed.. cebola, arroz doce, balinha di café.. ahuauhsauhhu aHh.. num tenhu oq falar mesmu"...

ISSO AÍ é de uma garota se apresentando no seu flog. Preguiça de escrever ou "priguissa di iscrevê"? Realmente precisamos descobrir que gramática é usada nas escolas, se a da Língua Portuguesa ou a do PORTUGRÊS mesmo. É super-oportuno o artigo do Deonísio da Silva no Observatório da Imprensa.

 Vinicius Duarte
 Enviado em: 18/03/2005 22:28:56

Acredito que a criação desta "novilíngua" é fruto de algumas dificuldades encontradas pelos jovens na comunicação digital, e a galera encontrou uma maneira criativa de driblá-las: não se fazem mais cursos de "datilografia", e os jovens, "catando milho" nos teclados tipo QWERTY, abreviaram suas mensagens, ganhando tempo de digitação; a popularização de mensagens SMS, de difícil digitação em teclados de telefones celulares; o caráter mundial da internet pode explicar a grafia "naum" (quatro toques), em vez de "não" (quatro toques, também); caracteres como acentos, cedilhas e til saem truncados em computadores não configurados para a língua portuguesa.

Vejo como mais importante a discussão do conteúdo e a clareza dos textos postados via internet. Parece-me muito claro que escritores de bons textos em "novilíngua" não devem ter dificuldades de fazê-los em português. Em suma, fazendo-se a "tradução", se o texto é ruim, o será em qualquer língua.

 Diogo Figueiredo
 Enviado em: 16/03/2005 23:34:42
Excelente matéria, que exprime uma tristeza que também é minha: ver a ignorância assumindo o controle. Envergonho-me pelos canais de TV que promovem essa idéia.
 Fabio de Oliveira Ribeiro
 Enviado em: 16/03/2005 08:47:51
O ilustre autor do artigo se esqueceu de que a língua é um fenômeno dinâmico, enquanto a sua descrição formal é arbitrária e sujeita à superação com o passar do tempo. A modernização da sociedade é constante, a da língua também. Nesse sentido, pode-se afirmar com a mais absoluta segurança que a internet não vai revolucionar o português. Na verdade, esta revolução está ocorrendo neste exato momento. Assim como o latim foi superado pelas línguas neolatinas, as quais o simplificaram, o português formal está fadado a ser engolido pela renovação cultural imposta pela internet. Gostem ou não os gramáticos, o aperfeiçoamento e a simplificação do português formal já está ocorrendo. Quem negar este fato já perdeu o bonde e certamente vai perder o emprego. O processo de renovação da língua ocorre até na própria literatura, que é um veículo de registro da norma culta. Por que não ocorreria na internet, em que predomina a produção e difusão de textos...? Monteiro Lobato, que hoje é considerado um clássico, simplificou a norma culta que era utilizada por Machado de Assis. O próprio Machado de Assis se encarregou de modernizar a rebuscada língua escrita de Camões. Se quisermos compreender o que está por vir, não temos que tentar deter o processo. Devemos antes é estudá-lo e compreendê-lo.
 Elisângela Teixeira
 Enviado em: 16/03/2005 00:39:57

Depois de tanta discussão para se compreender e explicar como a linguagem funciona, não entendo como ainda se pode falar de forma tão pejorativa sobre a linguagem dos jovens ou dos grupos sociais menos favorecidos. Estes grupos, assim como o dos "letrados", usam diferentes formas de comunicação para práticas sociais distintas. O fato de a linguagem escrita na internet assumir uma outra ortografia, talvez uma sintaxe peculiar, além de valer-se de alguns ícones, como os emoticons, para estabelecer uma comunicação mais efetiva, não significa de nenhuma maneira pobreza de pensamento. Não há, Deonísio da Silva, uma relação necessária entre estes dois aspectos. Nos próximos artigos, por favor, seja menos grosseiro com os jovens. Não há razao para tratá-los assim.

E sobre os professores que se negam a ensinar a norma culta nas escolas, convido-o a ler (já que parece apreciar muito os livros) tudo o que está sendo publicado neste sentido pelos pesquisadores da Unicamp e da Unesp.

Reconheço a importância da opinião, mas vejo poucos artigos publicados nos quais se possa ler posicionamentos contrários aos do senhor Deonísio da Silva. Os defensores da "norma culta" estão em todo lugar, ajudando ainda mais a aprofundar esse abismo que separa os nao-letrados dos letrados.

 Erick Cristiano Leite
 Enviado em: 21/03/2005 14:15:27

Andei visitando algumas comunidades "defensoras do português" e encontrei um link para essa matéria que estou comentando... Vi muitas pessoas tradicionalistas que adoram ficar esbanjando palavras rebuscadas achando que... nem sei o que elas pensam. Eu sou a favor da língua e contra o mito da atual gramática normativa. Acho legal as pessoas aprenderem o português culto - mas devemos antes procurar saber como está o nosso português culto - desde que sejam valorizadas as diferenças das linguagens coloquiais; acredito que a simbologia da internet - msm, blz, tb, q... funciona bem na internet, afinal muitos internautas se comunicam livremente e se entendem muito bem.

Mas sem estresse, é bom valorizarmos a língua brasileira sem ridicularizar. É ou não é? Estrangeirismos existem porque como sempre a língua evoluiu e adquiriu palavras alienígenas. Vejo muitas comunidades comparando o nosso português errado e caipira (preconceito que eu não compartilho) com o português de Portugal, mas ao meu ver são línguas distintas. A leitura deve sim ser influênciada, assim como a educação, tanto quanto os estudos linguísticos, que analisam a linguagem como ciência, desmistificam pregações de "falsos" defensores da língua e mostram com embasamento científico que a língua não fica estagnada, e que para cada situação existe uma forma de se comunicar. Um abraço a todos.

 Fernando Bratus
 Enviado em: 17/03/2005 03:12:59

Achei a matéria muito interessante, sem contar o título, que me trouxe ótimas recordações do bom e velho 1984! Concordo sim que o idioma está sendo destruído, no entanto sou usuário de programas de mensagens instantâneas e em algumas ocasiões uso este "neo-idioma", mas unicamente nos momentos em que preciso escrever mensagens em velocidade requerida, por exemplo, por seis conversas no MSN Messenger ao mesmo tempo, mas em outras situações ainda prefiro a linguagem, se não formal, pelo menos a coloquial da língua.

Concordo que é um absurdo a tecnologia ter crescido de tal modo e se inserido numa população despreparada culturalmente; temos homo erectus se comunicando em velocidade avassaladora. Sinceramente, acredito que o padrão de ensino não poderá dar aos alunos de escolas públicas tal instrução para conhecer a beleza de nossa língua e seus conformes. Eu mesmo sou um estudante de tal escola e sei que ainda peco em diversos aspectos de meu próprio idioma.

Acredito que a única salvação é o próprio desejo de aprender. Como exemplo, eu: sou um cidadão de classe baixa, não tenho condições de comprar livros novos, mas desenvolvi bom grado para a leitura, sendo obrigado a recorrer a sebos, comprando livros usados. Sei que com isso estou um passo atrás dos que estão na elite e podem ter acesso a livros ao mesmo tempo em que são lançados, enquanto eu tenho acesso a informação apenas quando esta já se torna obsoleta para a elite...

Sei que ainda temos muito para fazer, mas nunca devemos desistir: educação para todos devemos tentar dar.

 Carmen Gomes Simioni
 Enviado em: 18/03/2005 09:48:18

Acho que esse tipo de linguagem é apenas um modismo dos adolescentes. Na minha época de criança existia a língua do P. A gente tinha que colocar a letra P antes de cada sílaba (ex: a palavra você dizíamos pêvopêce) e éramos felizes. Minha filha de 16 anos quando conversa no MSN com 3, 4 pessoas amigas usa o vocabulário que o autor expôs. Mas na hora de fazer textos para a disciplina de Produção de Textos, na escola, ela os faz dentro do que se chama norma culta. Acho até que para ela o problema não é tanto manejar o idioma, e sim dissertar sobre temas dos que ainda não está muito por dentro, como o sistema penitenciário.

Mas concordo em que não existe, no Brasil, muito apreço pelos livros, em comparação, por exemplo, aos CDs. O nível cultural dos brasileiros diminuiu muito nos últimos anos, ao mesmo tempo em que aumentou a crise econômica. Se o brasileiro estivesse tendo mais acesso a jornais e revistas o seu nível cultural estaria melhor. Mas e dinheiro para comprá-los?

 Tarcisio Motta
 Enviado em: 18/03/2005 19:56:06

É preciso relaxar e aprender a "novilíngua" dos nossos filhos. Caro Deonísio, concordo em termos com a análise sobre o "internetês" que assola a nossa mídia, mas como alguém que lida com crianças e adolescentes tenho que ressaltar que toda novidade é bem-vinda, seja pela inovação ou pelo menos pela tentativa de inovar e não ficar parado; lembre-se que todos tivemos movimentos em busca do "diferente" para não ficarmos parecidos com os nossos pais.

Tenho um filho de 12 anos que se expressa na internet no celular, mas também escreve e fala muito bem e também lê muito (livros, jornais, gibis, matérias em sites de pesquisa... enfim uma crianca normal), ou seja, as crianças de hoje podem ser diferentes da nossa infância, basta que possamos aprender com elas e ajudá-las a gostar dos icqs mas também do dicionário, de jogar videogame mas também praticar esportes, de falar ao celular mas também se expressar em público, de assistir aos dvds blockbuster mas também ir ao teatro, ao cinema, ao parque e à praia, de ouvir linkin park, mas também caetano veloso, bach, mudy waters ou racionais mc´s...

Enfim, entre a droga e o sublime elas vão saber o que é melhor, basta que tenham opções, não é preciso forçar a escolha, ela se faz naturalmente. Lembrando de um caso do tal internetês, pensei num novo personagem do Maurício de Souza, um menino chamado "bloguinho" que só sabe falar "e aí blzz!", é tão sem graça que a participação dele é muito pequena nas estorinhas da Turma da Monica, ou seja, a criança já percebeu que um personagem monossilábico não tem graça nenhuma, é preferível o Cebolinha falando "elado" por estar mais adaptado ao contexto, é mais humano e real, e por isso já está há 50 anos com 6 anos de idade.

A depuração da escolha se faz naturalmente, através da resposta do leitor. Finalizando, também uso e-mails ou msns para me comunicar, mas procuro não assassinar a língua porque assim me sinto mais à vontade, mas devemos aprender e deixar que os blogueiros se expressem, pelo menos estão praticando a comunicação tão escassa em nossos dias de silêncio.

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